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Cães farejadores procuram percevejos em lares de Nova York

Cães farejadores procuram percevejos em lares de Nova York

Atualizado: Sexta-feira, 26 Novembro de 2010 as 10:41

Se algum herói surgiu na epidemia de percevejos que acomete os lares, cinemas, lojas, escolas, escritórios e outros estabelecimentos em todos os Estados Unidos, certamente são caos farejadores de percevejos.   Fofinho, aplicado e armado com ferramentas de detecção bastante sofisticadas – seus focinhos –, esses cães estão se tornando rapidamente o equivalente americano do São Bernardo que resgata os perdidos na neve nos Alpes. Comerciais exaltam a perícia e a eficácia dos cachorros em até 98% de precisão. Em Nova York, um beagle farejador chamado Roscoe se tornou tão conhecido – ele tem uma página de Facebook e agora um aplicativo de iPhone – que muita gente confunde beagles parecidos com ele.

Porém, à medida que o número de infestações reportadas aumenta e a demanda pelos cães se intensifica, queixas de pessoas afirmando que os cachorros deram falsos alertas para percevejos também estão crescendo. Na indústria de tratamento contra percevejos, onde alguns treinadores e vendedores de cachorros estão sem mercadoria até a próxima primavera, apesar do preço de US$ 11 mil, há temores de que um aumento dos chamados falsos positivos prejudiquem a credibilidade e os negócios.

"Muitas empresas de controle de pragas têm essa mesma frustração", disse Michael F. Potter, professor de entomologia da Universidade do Kentucky, "de seguir cachorros que indicam percevejos e não encontrar nada".   Alarme falso

Num condomínio perto da Union Square, em Manhattan, um cachorro indicou percevejos em um terço dos 50 e poucos apartamentos, embora vestígios físicos dos percevejos tenham sido encontrados apenas em cinco, de acordo com um morador. Ele resistiu à pressão do comitê do condomínio de contratar um tratamento de US$ 1.500 porque sua família não foi mordida pelos insetos, nem viu vestígios deles. Uma designer do Upper West Side de Manhattan disse que um cachorro trazido por um colega para inspecionar todos os apartamentos tinha alertado para a presença de percevejos no seu apartamento, embora nem ela nem o marido tenham sido mordidos. Uma inspeção feita por um exterminador diferente não revelou nenhum percevejo, mas seu prédio pagou milhares de dólares para o tratamento dos apartamentos, incluindo aqueles onde os insetos não foram encontrados.

Jessica Silver e o marido pagaram US$ 3.500 em taxas de extermínio depois que um cão indicou que havia percevejos em toda a casa deles, no Brooklyn. Eles se livraram de 40 sacos cheios de roupas e brinquedos de crianças que eles temiam estarem infectados, além da cama queen size comprada na Pottery Barn. Mas Silver continuou a ser mordida e chamou outro exterminador, John Furman, da Boot-a-Pest, de Long Island, que passou duas horas revistando o quarto, onde as mordidas ocorriam, e não encontrou nenhum vestígio dos percevejos, vivos ou mortos.

Os culpados, como ela acabou descobrindo, eram ácaros. Furman disse que o tratamento anti-percevejo provavelmente matou alguns ácaros, mas não conseguiu erradicar o território de procriação nas paredes.

Falsos positivos

Silver não quis mencionar a empresa de cães farejadores de percevejos que ela contratou. Depois de postar detalhes do seu caso em um fórum online específico, ela disse que um representante da empresa ameaçou processá-la por calúnia, e o moderador do fórum apagou seu comentário.

"Todos estão sendo sugados pelo pandemônio dos percevejos", disse Silver.

Embora muitas empresas de cães farejadores de percevejos façam propaganda de um índice de precisão de 95% a 98%, esse número foi tirado de um teste clínico conduzido em 2008 em condições controladas por uma equipe de entomólogos da Universidade da Flórida. As descobertas não necessariamente refletem o índice de sucesso das empresas individuais de cães farejadores, operando no mundo real com muito mais variáveis.

Especialistas em cachorros dizem que os falsos positivos podem resultar de um treinamento insuficiente do cão ou seu orientador. O cachorro pode ficar alerta para um tipo diferente de inseto. Ou pode estar reagindo a uma indicação do orientador, seja acidentalmente, como buscar um prêmio para recompensar o cachorro, ou mais preocupante, de propósito. Pepe Peruyero, treinador que gerencia a J&K Canine Academy perto de Gainesville, Flórida, disse que, se a empresa de cães também oferece tratamento de extermínio, é "financeiramente vantajoso" ter um alerta de cães farejadores de percevejo.

Graus de intensidade

Os falsos alertas também podem ser feitos por cachorros bem treinados. Andrew Klein, da Assured Environments, de Nova York, afirmou que os cães podem captar cheiro de percevejo transmitido por roupas ou pela ventilação de um apartamento vizinho.

"O cachorro não consegue nos comunicar gradações de intensidade", disse Klein. "Se não há inseto, se não há mordida, monitoramos".

O apartamento na Union Square teve percevejos um ano antes; embora os insetos tenham sido erradicados, é possível que seu cheio tenha permanecido. O dono do apartamento, assim como a designer de Upper West Side, falou na condição de anonimato, pois não queriam seus nomes associados a percevejos, mas outras pessoas do prédio também disseram que os cães tinham indicado percevejos mesmo sem evidência física dos insetos.

Algumas pessoas acreditam que o comitê do condomínio exagerou ao pagar pelo tratamento dos apartamentos. "Somos pressionados a dar um passo a mais, mesmo sabendo que não é garantido", disse um advogado que mora no mesmo prédio da designer, que também falou sob condição de anonimato. "É você contra o cachorro".

Agulha e palheiro

A Bell Environmental Services, que realizou a inspeção em ambos os prédios, disse que só porque os percevejos não foram encontrados não significa que o cão estava errado. Os percevejos podem ter se movido ou estar escondidos, disse a empresa, e até 50% das pessoas sofreram reações de picadas de percevejos.

Evidências físicas são especialmente difíceis de ver. Um percevejo pode ser do tamanho da ponta de uma caneta; suas fezes são do tamanho de um ponto de tinta. "A procura por percevejos pode ser como tentar encontrar uma agulha num palheiro", disse a empresa.

Certificação

Bell, dona do cão Roscoe, acrescentou que alertou explicitamente os consumidores quando seus técnicos não corroboraram alertas de cachorros com evidências físicas, e que a decisão de fazer um tratamento é feita pelos moradores ou pelo condomínio. Se as descobertas são questionadas, Bell oferece o envio de um segundo cachorro para inspecionar áreas onde os cães detectaram, mas não encontraram percevejos, disse a empresa, e usa os cachorros que são constantemente treinados para cheirar percevejos e distingui-los de outros insetos.

Não está clara a freqüência com que os falsos positivos ocorrem ou levam a tratamentos caros de extermínio. Os comitês de proteção ao consumidor do estado de Nova York e New Jersey disseram não ter registros de queixas, incluindo de falsos positivos, feitas contra empresas que usaram cães farejadores.

Peruyero, treinador de cachorros, está buscando fazer com que os cachorros sejam certificados através de um comitê independente de supervisão, a National Entomology Scent Detection Canine Association. Mas há partidarismo e brigas dentro da própria indústria, disse Philip G. Koehler, entomólogo da Universidade da Flórida, em relação à associação que deveria certificar os cães, se é que eles devem ser certificados.

"Essa coisa dos percevejos cresceu tão rapidamente que está além das regulamentações", disse Koehler.    

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