MENU

Caso de abuso contra adolescente por policial chocou classe média indiana

Caso de abuso contra adolescente por policial chocou classe média indiana

Atualizado: Quarta-feira, 24 Março de 2010 as 12

Ela era uma talentosa jogadora de tênis de 14 anos de idade que idolatrava Steffi Graf e esperava se tornar profissional. Ele era um experiente policial e presidente do clube de tênis de grama do Estado. Ele a atraiu para seu escritório com a promessa de um treinamento especial que faria os sonhos da menina se tornar realidade, então a apalpou.  

Este encontro iniciou uma saga que levou quase 20 anos para se desenrolar. A família da garota, Ruchika Girotra, ameaçou processar o homem. Shambhu Pratap Singh Rathore, oficial sênior da polícia estadual de Haryana, na época, empreendeu uma campanha tão forte de assédio e intimidação contra Ruchika que, no fim, ela cometeu suicídio. O irmão dela, Ashu, foi acusado falsamente de roubo de carros e contou ter sido espancado e torturado sob custódia.  

Rathore, uma figura extravagante de bigode, com fortes ligações com muitos políticos importantes do estado, subiu na hierarquia e se aposentou em 2002, como chefe da polícia estadual.  

O sofrimento de Ruchika Girotra não é único. Meninas são molestadas o tempo todo na Índia; dirigentes poderosos muitas vezes abusam de sua posição para evitar processos criminais; tribunais escleróticos são dolorosamente lentos e geralmente corruptos.  

No entanto, o caso simboliza a forma como a crescente classe média indiana, estimulada por uma mídia faminta por matérias sensacionalistas, está cada vez menos disposta a aceitar essas verdades aparentemente imutáveis, combatendo-as.

Além disso, vemos que os tribunais e a opinião pública têm forçado o governo a agir contra os abusos de poder mais pesados. A briga pela justiça em relação à Ruchika se tornou um símbolo da ira da classe média contra um sistema falido.

"Ela era uma menina doce de uma família de classe média", disse Ranjana Kumari, defensora dos direitos das mulheres e diretora do Centro para a Pesquisa Social de Nova Déli. "A mídia, os grupos ativistas e até os políticos não podiam mais ignorar isso. A questão se tornou um símbolo de tudo que está errado na Índia".  

Rathore, contatado por telefone em sua casa, se recusou a discutir o caso. "Não vou falar com a mídia", disse ele. "Os tribunais decidirão a questão".

No dia 22 de agosto de 1990, Rathore foi à casa de S.C. Girotra, viúvo e gerente de banco, para falar com ele sobre sua filha, Ruchika. A menina era uma jogadora talentosa, disse Rathore, e poderia chegar longe se tivesse um bom treinamento. No dia seguinte, Ruchika foi encontrá-lo em seu escritório, trazendo consigo uma amiga, Aradhna.

Rathore pediu que as duas garotas entrassem em sua sala, então pediu que Aradhna saísse, sob um pretexto qualquer. Quando ela voltou, minutos depois, viu Rathore pressionando seu corpo contra o de Ruchika.

"Eu o vi agarrando Ruchika com força", disse ela. "Ruchika nem conseguia respirar".  

Surpreendido, Rathore a soltou, e Ruchika saiu correndo da sala. Ele se virou para Aradhna e disse: "Peça que ela se acalme e eu farei o que ela disser", segundo relato à polícia.

Aradhna viu Ruchika chorando compulsivamente do lado de fora. Enquanto caminhavam para casa, elas pensavam no que fazer. "Estávamos com muito medo", disse Aradhna. "Nos perguntávamos: ‘Podemos ignorar isso?’"

Mesmo com aquela idade, elas sabiam que um policial como Rathore tinha poder para prejudicar suas famílias, disse ela. Elas decidiram manter silêncio.

Porém, no dia seguinte Rathore chamou Ruchika para sua sala novamente. Aterrorizada, elas correram para casa e contaram o ocorrido para os pais. Girotra e vários vizinhos foram até a casa de Rathore para confrontá-lo. Girotra contou que só queria um pedido de desculpas.

Mas Rathore escapou.

Girotra escreveu para os dirigentes do mais alto escalão do governo de Haryana. Primeiro, todos aparentaram receber o assunto de forma muito séria. O diretor geral da polícia, R.R. Singh, pediu que acusações criminais fossem feitas contra Rathore.

No entanto, as acusações jamais se materializaram; de acordo com a lei criminal indiana, a polícia tem uma latitude enorme em decidir quando abrir um processo, e não o fez. Em vez disso, iniciou-se um assédio contra Ruchika e sua família.

Primeiro, ela foi expulsa da escola. A diretora da escola católica que ela frequentava alegou que a garota tinha sido expulsa por não pagar a mensalidade. Girotra tentou pagar a pequena quantidade devida, mas a diretora se recusou a aceitar o dinheiro.

"Eu disse a ela: ‘Ruchika é a vítima!’", contou o pai.

Uma investigação conduzida anos depois revelou que muitas outras garotas, incluindo a filha de Rathore, deviam à escola e não tinham sido expulsas.

A jovem era perseguida onde quer que fosse. Assim, Ruchika passou a viver confinada.

"Ela tinha uma personalidade efervescente antes disso tudo", disse o irmão, Ashu. Mas a menina se fechou em si própria, culpando-se pelas desgraças da família, desejando jamais ter contado a alguém sobre o incidente.

O caso contra Rathore empacou. Girotra continuou agitando, mas só encontrou portas fechadas.

"Ele era tão poderoso", disse Girotra, referindo-se a Rathore. "Tinha influência. Todos os políticos eram seus aliados".

Três anos se passaram. Ashu, na época um universitário de 19 anos, foi preso sob suspeita de roubar carros. Ele foi espancado e passou fome por dois meses, segundo o próprio.

"Amarraram minhas mãos nas costas e me penduraram de cabeça para baixo", contou. "Tiraram minha calça e bateram nas minhas pernas com cinto de couro e paus".

Finalmente, Ashu foi solto após pagamento de fiança. Girotra chorou bastante quando viu o filho, que estava arrasado e mal podia falar. Ruchika sofreu ainda mais.

"Ela se considerava responsável pela situação", disse Ashu.

Logo ele foi preso novamente. Ashu ficou na prisão por várias semanas, sem qualquer explicação. No Natal, a polícia levou Ashu para o bairro de Girotra e desfilou com ele pelas ruas. O jovem tinha sido espancado e estava algemado.

"Os policiais disseram a Ruchika: ‘Está vendo o estado do seu irmão? O mesmo vai acontecer com seu pai’", disse Girotra.

Três dias depois, Girotra encontrou a filha inconsciente sobre a cama, com uma espuma branca na boca. Ela tinha tomado veneno. Ruchika morreu no dia seguinte.

Ashu foi solto um dia depois que o corpo da irmã foi cremado. Um juiz concluiu, mais tarde, que não havia evidência para respaldar as acusações contra ele. Entretanto, os anos de complicações legais despedaçaram seu sonho de se tornar oficial do exército ou funcionário público.

Girotra vendeu a casa o mais rápido que pôde, por um valor irrisório, e se mudou com seu filho para outro estado.

Enquanto o destino da família Girotra piorava, a carreira de Rathore decolava. Ele foi promovido por uma série de ministros, ganhando o posto de chefe da polícia estadual em 1999.

Mas o caso de Ruchika não desapareceu. A amiga dela, Aradhna, e seus pais, Anand e Madhu Prakash, continuaram pressionando por uma investigação completa.

"A morte de Ruchika tornou impossível para nós abandonar o caso", disse Prakash, grisalho burocrata aposentado. "Se alguém está molestando a amiga da minha filha hoje, alguém irá molestar minha filha amanhã".

Essa decisão teve seu preço. Rathore entrou com processo civil e criminal contra a família. Prakash foi rebaixado de posto e acabou sendo obrigado a se aposentar com uma pensão menor.

Porém, a família Prakash, articulada e com boa imagem na televisão, capturou a atenção das crescentes estações de notícias televisivas da Índia, que adotou a história de Ruchika como uma cruzada. As reformas econômicas do início da década de 1990 deram margem a uma pequena, porém crescente classe média indiana, e muitas famílias viram seus próprios filhos na imagem de Ruchika.

A família Ruchika travou uma batalha bastante pública nos tribunais para acusar formalmente Rathore. Finalmente, em 1999, o Supremo Tribunal de Haryana ordenou a seu favor.

Em janeiro de 2000, quase uma década depois do incidente, Rathore foi acusado de molestar Ruchika Girotra. Ele enfrentaria uma sentença de até dois anos de prisão, se considerado culpado. Rathore recebeu uma licença por parte da polícia.

O julgamento se estendeu por quase uma década. A mulher de Rathore, Abha, conhecida advogada do Supremo Tribunal, o defendeu. Girotra disse que a defesa encontrou inúmeras formas de arrastar o julgamento. Houve mais de 400 audiências e repetidos adiamentos. Abha Rathore contra-interrogou testemunhas por vários meses.

Finalmente, no dia 21 de dezembro de 2009, quase duas décadas depois do crime, Rathore foi condenado por molestar Ruchika Girotra. O juiz deu a ele uma sentença reduzida de seis meses de prisão depois que sua mulher argumentou que o longo julgamento e a idade de Rathore, 67 anos, davam a ele direito a complacência. Ele também foi multado em 1.000 rúpias, cerca 22 dólares.

Rathore foi solto mediante pagamento de fiança, enquanto aguarda o veredito. Girotra e seu filho entraram com novas acusações contra Rathore por seu envolvimento na prisão e nos maus tratos contra Ashu. Agora, as famílias Girotra e Prakash querem que o governo acuse Rathore formalmente por um crime ainda mais sério, incitação ao suicídio, sustentando que ele levou Ruchika à morte. O crime prevê uma sentença de dez anos de prisão.

O governo está planejando mudanças em seus procedimentos criminais em resposta ao caso. Agora, oficiais terão de abrir processos com base apenas no depoimento da vítima em casos que envolvem crimes sexuais, uma medida que visa dificultar a fuga das investigações. O governo também considera o estabelecimento de tribunais especiais, mais rápidos, para lidar com esse tipo de crime.

Prakash afirmou que essas mudanças eram a prova de que as pessoas podem enfrentar os poderosos e vencer.

"Esta é uma luta contra um sistema podre", disse Prakash. "Temos de cumprir com nosso dever. Vou levar esse caso até seu fim lógico, até o fim da minha vida".

Por: Lydia Polgreen

Traduzido por: Gabriela d’Ávila

veja também