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Chefe de ação de emergência em Chernobyl defende energia nuclear

Chefe de ação de emergência em Chernobyl defende energia nuclear

Atualizado: Domingo, 24 Abril de 2011 as 10:14

No dia seguinte à explosão do reator 4 da usina de Chernobyl, há 25 anos, o engenheiro Yuri Zelinski, que então trabalhava numa fábrica de equipamento de proteção para funcionários de instalações nucleares, foi chamado pelo governo soviético para ajudar a coordenar os trabalhos de contenção do desastre em território ucraniano.

Nos primeiros 20 dias, como conta, ele chefiou os "liquidadores", milhares de homens chamados para fazer a "limpeza pesada" - juntar o material radioativo, evitando que se espalhasse ainda mais. Depois, passou a organizar a construção do "sarcófago", uma imensa caixa de aço e concreto erguida às pressas para guardar o reator em colapso e seu combustível nuclear.

Apesar de ter vivido de perto o maior desastre nuclear da história, Zelinski defende com veemência o uso de energia atômica. "Todo dia, mil pessoas morrem nas estradas. Mas carros ainda são produzidos e todo mundo usa. Os aviões caem, mas as pessoas voam", compara. "Cada pessoa que diz que devemos desativar as usinas nucleares deveria parar de usar energia elétrica", defende.

A visão polêmica que ele tem do episódio e do uso da energia nuclear não para por aí. Ele defende que a União Soviética agiu da forma mais rápida possível e fez o melhor na remoção da população que vivia nas imediações de Chernobyl. Lembra que o acidente aconteceu na madrugada de um sábado (26 de abril de 1986), e que já no domingo Pripyat, uma cidade próxima de 48 mil habitantes, foi esvaziada.

Zelinski rebate as críticas de falta de transparência contra a URSS. O fato de que o líder soviético Mikhail Gorbachov demorou mais de duas semanas para falar do acidente na TV, se deve a que as esferas superiores do regime não entendiam a gravidade do acidente, diz.

"A informação ia dos engenheiros aos diretores, daí para os ministérios e para o governo. No fim dessa escada, a informação não era vista de forma séria", explica. Isso não impediu, no entanto, segundo ele, que a população local fosse rapidamente retirada.

Japão

O construtor do "sarcófago" conta que acompanha diariamente as notícias sobre Fukushima, no Japão, e acredita que o nível de transparência em relação ao que é passado ao público é similar ao de Chernobyl. "Se Fukushima fosse uma questão de governo, não privada, a situação teria sido resolvida mais rapidamente. A companhia privada deixa de fazer o que precisa e o governo é que precisa agir", critica.

Para retirar os moradores da zona de exclusão de 30 quilômetros em volta de Chernobyl, em 1986, os militares soviéticos disseram que era algo apenas temporário, mas os habitantes nunca puderam retornar a suas casas. "A situação no Japão deverá ser igual", diz.

Sangue filtrado

O engenheiro, que hoje chefia uma empresa que desenvolve ultracapacitores (dispositivos de acumulação de energia com capacidade muito superior à de baterias convencionais) não passou ileso pela época do desastre.

Nos primeiros meses, segundo Zelinski, ele trabalhou continuamente na zona de exclusão. Depois, trabalhava durante 3 a cada 10 dias. "Era perigoso ir tão frequentemente, mas não podia passar o trabalho a outro, porque não conseguiria passar as informações necessárias a alguém que me substituísse", explica. Toda vez que ia para a usina, jogava suas roupas fora. Depois era lavado e tinha a sua radioatividade medida.

Zelinski lembra que muita gente que trabalhou com ele morreu por causa da exposição à radiação e que ele próprio, a certa altura, teve diagnosticada uma imunidade muito baixa. Ele precisou, então, ter todo o seu sangue filtrado para tirar os metais pesados. "O sangue saía de um braço e entrava em outro", conta. O tratamento permitiu que se recuperasse.

O acidente nuclear de Chernobyl completa 25 anos nesta terça-feira (26). Até lá, o G1 publicará uma série de reportagens sobre o desastre.

Por: Dennis Barbosa

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