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Cidade que se rebelou contra energia nuclear é modelo na Alemanha

Cidade que se rebelou contra energia nuclear é modelo na Alemanha

Atualizado: Segunda-feira, 7 Novembro de 2011 as 3:40

Considerada a capital da proteção do clima na Alemanha , Freiburg, município com 220 mil habitantes do estado de Baden-Württemberg, é um dos símbolos da luta da população contra a implantação de usinas nucleares e de incentivo ao desenvolvimento de tecnologias limpas.

Na década de 1970, os moradores da cidade de 550 anos perceberam que a instalação de um complexo atômico poderia ser um risco à economia local, voltada principalmente para a agricultura.

“O governo justificava que se nada fosse feito, haveria o risco de ‘apagão’. Para que o projeto de instalação da usina não fosse adiante, estudantes e moradores acamparam durante três anos no terreno onde seria construído o complexo, enquanto especialistas e professores das universidades instaladas aqui buscaram argumentos científicos para contestar a instalação da usina”, conta Stefan Adler, gerente executivo do Centro de Energias Renováveis da Universidade de Freiburg.

Segundo Adler, foi provado que não havia necessidade da implantação da usina. Tal fato coincidiu com a instalação de institutos de pesquisas, como o Fraunhofer, que passou a desenvolver tecnologias de geração de energia limpa, com recursos como a luz solar, já que a região é uma das mais ensolaradas da Alemanha, com 1.800 horas de sol por ano.

Atualmente, 10% de toda a energia que abastece a cidade é proveniente da energia eólica (cinco turbinas que se movimentam com a força dos ventos e geram 14 GW ao ano), dos 15 mil metros quadrados de placas fotovoltaicas instalados nas residências e nos prédios públicos (que geram 10 GW por ano) e de usinas de biomassa. A meta é chegar a 20% até 2020. Plano executivo

Segundo Franziska Breyer, diretora do departamento de Meio Ambiente de Freiburg, só foi possível alcançar tais números devido a regulamentação de um plano para proteção climática, criado em 1986 e revisado em 1996.

“Os nossos objetivos são a redução do consumo de energia, o aumento de sua eficiência e a implantação de formas de energias renováveis. Além disso, em 2007 criamos um novo plano que previa reduzir em 40% as emissões de CO2 até 2030 com campanhas educativas, criação de políticas para os transportes e implantação de regras para que as construções fossem mais sustentáveis”, disse Franziska. A meta da cidade é chegar a 2050 com 80%.

Um dos desafios de Freiburg, segundo a prefeitura, foi a implantação de regras para os transportes. O primeiro passo foi proibir a circulação de carros pela região central e dificultar o seu uso, com o aumento das taxas de estacionamento público e implantação de zonas de tranquilidade.

Para que isso funcionasse, foram construídos 410 km de ciclovias (número que será expandido) e foi implantado um sistema de transporte integrado, que possibilita às pessoas circularem por um trecho de 2.850 km do estado de Baden-Württemberg, a partir de Freiburg, utilizando 90 linhas percorridas por trens e ônibus ao custo de 46 euros por mês.

“Mas há subsídios do governo para que isto ocorra, senão as empresas não teriam lucro. Em 1994, 57,4 milhões de pessoas utilizavam o transporte público. Em 2004, este número saltou para 104,7 milhões, sem contar os 30% da população que utiliza a bicicleta como meio de transporte”, disse a representante da prefeitura.

Ruas do Centro de Freiburg, na Alemanha. Cidade é considerada a capital verde do país devido aos planos de redução nas emissões de CO2 e fomento às tecnologias limpas para geração de energia (Foto: Eduardo Carvalho/Globo Natureza) Pesquisa

De acordo com Brisa Ortiz, pesquisadora do Instituto Fraunhofer para Sistemas de Energia Solar, a tecnologia fotovoltaica, com placas de silício, disseminada em Freiburg, tem um custo alto de instalação, mas seu custo compensa devido à geração de energia elétrica com o passar do tempo.

Ela afirma que o Brasil, por ter alta incidência de sol durante todo o ano, poderia utilizar mais essas placas em projetos que beneficiariam populações de baixa renda e de localidades distantes, como as comunidades ribeirinhas da Amazônia, que atualmente utilizam geradores movidos a diesel para gerar energia.

“O ideal é que fossem implantadas miniusinas híbridas, que captasse luz solar e ainda gerasse energia de outra forma. Já existem projetos no México, na China e poucos casos no Brasil, por meio do programa ‘Luz para Todos’. Os custos são baixos nesses casos e valem a pena porque substituem o uso do óleo diesel na geração de energia elétrica”, diz Brisa.          

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