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Ciganos testam as fronteiras abertas da Europa

Ciganos testam as fronteiras abertas da Europa

Atualizado: Terça-feira, 28 Setembro de 2010 as 10:42

Esta cidade está cheia de blocos habitacionais da época soviética, e os piores entre eles – torres cinzas de apartamentos de um cômodo e banheiros comunitários sem água quente – são destinados ao povo roma.

Roma como Maria Murariu, de 62 anos, que cuida de seu marido moribundo num cômodo imundo e malcheiroso do tamanho de uma cela de prisão. Ela não encontra trabalho há cinco anos.

“Não há muito para nós na Romênia”, disse ela recentemente, observando seu marido dormir. “E agora que estamos na União Europeia, temos o direito de ir a outros países. É melhor lá”. Milhares de roma da Romênia, também conhecidos como ciganos, chegaram a uma conclusão similar nos últimos anos, indo em direção riqueza da Europa Ocidental, e levantando uma discussão na União Europeia sobre o quão abertas realmente são suas “fronteiras abertas”.

Uma reunião de cúpula de líderes europeus, na última terça-feira, terminou como uma discórdia aberta sobre como lidar com os imigrantes indesejados. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, prometeu seguir desmantelando os campos de imigrantes e rejeitou furiosamente reclamações da Comissão Europeia de que autoridades francesas estariam ilegalmente perseguindo ciganos para deportação.

A migração entre as 27 nações da União Europeia se tornou um assunto inflamável durante a crise econômica. A mais recente expansão da união, que atraiu as nações relativamente pobres da Romênia e Bulgária em 2007, renovou a preocupação de que os pobres, viajando para longe de casa em busca de trabalho, se tornariam um fardo aos países mais ricos.

A migração dos ciganos também está levantando questões sobre as obrigações da Romênia e Bulgária em cumprir promessas feitas quando eles se juntaram à união. A Romênia, por exemplo, delineou uma estratégia para ajudar os ciganos, mas financiou apenas uma pequena parte. Sarkozy exigiu que o governo romeno faça mais para ajudar os ciganos em sua casa.

Grande parte da Europa Ocidental reagiu com hostilidade aos ciganos itinerantes, que muitas vezes possuem pouca instrução e habilidades práticas. Alguns ciganos encontraram trabalhos informais, coletando sucata de ferro ou pintando casas. Outros, porém, se registraram para o auxílio-desemprego ou praticam a mendicância e pequenos furtos, vivendo em acampamentos precários e sujos.

Deportação

Nas últimas semanas, Sarkozy tentou retomar seu apoio à direita política ao deportar milhares deles, oferecendo 300 euros, ou cerca de R$ 670, àqueles que fossem voluntariamente para casa, e destruindo seus acampamentos com retro-escavadeiras.

A Comissão Europeia ameaçou entrar com uma ação legal contra Paris pela deportação, classificando-a como deplorável e ilegal.

A discussão atingiu seu pico no almoço da terça-feira, entre Sarkozy e José Manuel Barroso, presidente da comissão, o corpo executivo da União Europeia. Houve uma grande discussão – eu também poderia dizer um escândalo – entre o presidente da Comissão Europeia e o presidente francês”, declarou o primeiro-ministro da Bulgária, Boyko Borisov, segundo o jornal búlgaro Dnevnik.

Sarkozy negou um grande racha, e permaneceu obstinado. “Vamos continuar a demolir os acampamentos ilegais, quem quer que esteja lá”, afirmou ele numa coletiva de imprensa. “A Europa não pode fechar os olhos aos acampamentos ilegais”.

'Férias remuneradas'

As expulsões parecem improváveis de oferecer uma solução de longo prazo. Muitos dos ciganos deportados já estão planejando sua volta.

Discretamente, algumas autoridades romenas riem da ação francesa. “Eles estão apenas dando aos ciganos umas férias remuneradas”, disse um deles.

Ainda assim, defensores dos ciganos esperam que o último conflito force a União Europeia a encarar com seriedade a ajuda aos povo cigano, que é abertamente humilhado na maioria dos países da Europa Ocidental e Central – onde eles têm vivido em grandes números há séculos, geralmente em condições terríveis.

“Não há nada que foque melhor as mentes de políticos do que um exército de pessoas pobres indo a sua direção”, disse Bernard Rorke, diretor de Iniciativas Ciganas para a organização sem fins lucrativos Open Society Foundation. Existem poucos dados confiáveis sobre a população cigana. Originalmente da Índia, os ciganos eram praticamente escravos até o século XIX, trabalhando para aristocratas e em monastérios.

Quando surgiu a democracia, eles foram libertados. Mas eles não tinham terras nem instrução, eram de pele escura e não tinham muitas possibilidades.

Ativistas de direitos humanos dizem que as mulheres ciganas muitas vezes são colocadas em alas separadas das maternidades. Seus filhos, quando vão à escola, são frequentemente direcionados a salas para deficientes mentais.

Na Romênia, o censo contou 500 mil ciganos. Mas alguns defensores afirmam que o número está mais próximo de dois milhões.

Discriminação

Aqueles que conseguem sair da pobreza abjeta raramente admitem sua ancestralidade – tornando ainda mais difícil que os ciganos consigam combater a discriminação, segundo os apoiadores.

Nos anos em que a Romênia negociava sua entrada na União Europeia, ela prometeu programas para ajudar os ciganos a se integrar à sociedade romena.

Porém, autoridades do governo reconhecem que poucas promessas se materializaram. “Acho que vocês verão a administração atual se sair melhor”, afirmou Ilie Dinca, diretor da Agência Nacional Romena para Ciganos.

Cortes no orçamento atingiram os poucos esforços bem-sucedidos que existem. Centenas de mediadores, contratados para ajudar os ciganos a colocar seus filhos na escola e a receber benefícios de saúde, foram recentemente demitidos.

“Atualmente, o que você vê por aqui são condições terríveis”, disse Nicolae Stoica, que administra o Roma Access, um grupo de interesse. “Eles não têm esperança de conseguir emprego. Quando ganham 20 euros por mês vendendo sucata, isso já é muito. Como podemos dizer que eles não devem ir à França e mendigar nas ruas?”

Flortina Ghita, de 21 anos, disse que sua família vivia num prédio no centro de Constanta, a segunda maior cidade da Romênia. Mas autoridades municipais os despejaram, alegando que os prédios tinham danos estruturais. Hoje a família vive em cabanas feitas de tapetes, restos de latas e plástico, montadas não muito longe da via férrea. A única fonte de água é uma estação de trem a quase dois quilômetros dali.

A Sra. Ghita conta que disseram para sua família preencher formulários para obter moradia, mas ninguém sabia ler. Seu filho de 5 anos, Sorim, não vai à escola, segundo ela, porque ela não tem como pagar pelas roupas, livros e taxas.

Mesmo assim, a família de Ghita conhece bem a Europa. A Sra. Ghita tinha documentos mostrando que sua mãe havia estado na Bélgica para um tratamento médico. “Sua irmã mora lá e ela nos ajudou”, explicou ela.

Especialistas afirmam que o povo cigano tem sofrido por uma combinação de fatores. Trabalhos manuais que já representaram seu sustento, como fazer panelas de latão e aplicar ferraduras em cavalos, hoje estão obsoletas. Recentes regulamentos europeus que padronizam a venda de gado eliminaram uma das últimas atividades que lhes restava, pois eles não puderam lidar com a documentação exigida.

Alguns aspectos da cultura cigana também não ajudaram, dizem especialistas. Eles são uma sociedade tribal e fortemente patriarcal, onde os jovens são forçados ao casamento precoce e a educação não é muito valorizada.

Porém, nem todos os ciganos são pobres. Na vila de Barbulesti, cerca de 65 quilômetros a nordeste de Bucareste, há sinais de sucesso. A vila é um brilhante conjunto de casas amarelas ou avermelhadas, com vistosas torres e canais ornados, muitos ainda em construção.

A vila possui um prefeito cigano, Ion Cutitaru, de 59 anos, o único no país, segundo ele. Ele estima que um terço dos sete mil moradores da vila tenha se mudado à Europa Ocidental. Eles buscam por trabalho lá, mas acabam como pedintes quando não conseguem mais nada. “Eles se viram como podem”, disse ele, “e então voltam para cá e constroem suas casas”.

Vinte e oito moradores ciganos de Barbulesti foram recentemente expulsos da França. Entre eles estava Ionel Costache, de 30 anos, que disse que voltaria à França dentro de uma ou duas semanas.

“Meu filho, que tinha problemas de visão, fez lá uma operação de sete mil euros que ele nunca teria conseguido aqui. E quando você não tem emprego, ainda é possível comer usando a assistência social,” explicou ele. “A França é um lugar muito melhor que a Romênia”.

Postado por: Guilherme Pilão

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