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Civis não deveriam ser maiores vítimas, diz brasileira no Iraque

Civis não deveriam ser maiores vítimas, diz brasileira no Iraque

Atualizado: Segunda-feira, 30 Agosto de 2010 as 9:35

Enquanto as últimas tropas de combate americanas deixam o Iraque neste mês, para uma categoria de profissionais o trabalho pode estar apenas começando. Focados nos esforços de estabilização e assistência aos iraquianos, os trabalhadores que atuam em organizações de ajuda humanitária têm papel fundamental na reconstrução do país devastado por sete anos de guerra.

“O que pra nós é mais importante é trabalhar na conscientização de que civis não deveriam ser maiores vítimas”, diz a brasileira Graziella Piccolo, integrante do Comitê Internacional da Cruz Vermelha no Iraque, que se prepara para mudar para Bagdá antes do fim do ano.

Responsável pela comunicação da missão da organização no Iraque desde abril do ano passado, ela divide o tempo hoje entre Amã, capital da Jordânia, e visitas semanais a várias cidades iraquianas atingidas pelo conflito. A retirada das tropas, afirma, não deve afetar diretamente o trabalho. “Temos diálogo com diferentes atores envolvidos num conflito armado. Faz parte da forma de atuar. Isso independe da presença de um número A ou B de tropas. Se a situação se degenerar de uma forma que ninguém gostaria ou se houver uma rejeição à nossa presença, os movimentos serão reduzidos e vamos ter que questionar nossa presença ou não. Mas a retirada não é causa disso. Trabalhamos em vários contextos onde você tem que cruzar a linha de fogo”, diz.

Na organização desde 1995, Graziella sabe do que está falando. A missão no Iraque é sua sétima na Cruz Vermelha. Antes, enfrentou a rebelião indígena e camponesa em Chiapas, no sul do México; esteve na conflitada Croácia recém-independente; viu de perto a guerrilha do Sendero Luminoso no Peru, os conflitos no Uzberquistão-Quirguistão, a briga entre grupos insurgentes em Uganda, na África, e a guerra no Afeganistão.

Neste meio tempo, ela conheceu o marido, o médico italiano Luca Falqui, que faz parte das equipes da Cruz Vermelha que trabalham nas prisões. Os dois se casaram em Cabul. O fato de ter estado no Afeganistão até dezembro de 2008, hoje o principal foco da política de segurança americana, fez diferença para a brasileira, já acostumada a toques de recolher e a circular em regiões conflituosas sem escolta ou coletes de segurança -uma das regras da organização para aproximar os profissionais da população atingida. “Mas cada contexto é único e o Iraque também tem sua situação particular. Houve eleições, mas o governo não se formou completamente. Este momento de vácuo [político], dificulta um pouco, causa muita frustração nas pessoas. Houve uma redução dos conflitos em relação a 2006 a 2007, mas em junho e julho tiveram atentados importantes”, relata Graziella. O último mês de julho foi considerado o mais violento no Iraque desde 2008 .

“Blocos de concreto”

Coordenadora de operações da organização Médicos Sem Fronteiras, a médica italiana Freya Raddi acompanhou a mudança sofrida pelo Iraque nos anos de guerra durante duas missões ao país, em 2004 e 2008.

“Comparada com a cidade que eu conheci em 2004, Bagdá mudou muito: é uma cidade que pode ser descrita como 'blocos de concreto', erguidos para 'proteger' a população da crescente violência sectária em 2006 e 2007. Isso mudou a paisagem da cidade, mas como sempre, os iraquianos reagiram positivamente pintando os muros”, conta.

A primeira missão de Freya no Iraque foi também a sua primeira na organização, quando atuou coordenando a equipe responsável pela administração e finanças em Bagdá. Nos anos seguintes, a médica também teve a oportunidade de trabalhar em Basra, a segunda maior cidade iraquiana, onde o Médicos Sem Fronteiras inaugurou um centro para atender a população, em 2008. “Nas áreas mais afetadas pela violência, a população sofre não apenas pela falta de serviços básicos, como água potável e eletricidade, mas também pelo risco de serem atingidas por algum atentado. Ameaças de bombas estão presentes todo dia e ele têm de lidar com revistas constantes, frustração e medo”, recorda.

Também para a italiana, que esteve novamente no Iraque este ano, a retirada das forças americanas não devem impedir o trabalho das organizações humanitárias, a despeito da situação “ainda volátil” devido a não formação de um governo e os recentes atentados que se seguiram à saída do Exército. “Nós continuamos o trabalho que estamos fazendo desde que eu retornei do Iraque em 2008, mantendo-se vigilantes com a situação de segurança, como em todos os conflitos que atuamos”, diz.

Reconstrução

Otimistas quanto à capacidade de reconstrução do país, tanto Graziella Piccolo quanto Freya Raddi citam o povo como prova da capacidade de resistência iraquiana após sete anos de conflito.

“É um povo fascinante. O Iraque foi o berço da cultura no Oriente. Tem lugares que podem se desenvolver de uma foram rápida, avançada. O norte do país é muito avançado, Bagdá tem sua grandiosidade. Apesar de terem enfrentado um período de fuga de cérebros, os iraquianos tem um nível de formação e educação muito altos”, diz a brasileira.

“A vida continua no Iraque, o povo segue tocando suas vidas. A força do povo iraquiano para tentar ter uma vida normal é impressionante”, corrobora a italiana.

Postado por:Thatiane de Souza

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