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Conselho de Defesa da Venezuela apoia ruptura com Colômbia

Conselho de Defesa da Venezuela apoia ruptura com Colômbia

Atualizado: Sexta-feira, 23 Julho de 2010 as 10:03

O vice-presidente venezuelano Elías Jaua declarou na noite de ontem que o Conselho de Defesa da Nação, órgão máximo de aconselhamento para segurança e defesa da Venezuela, apoia a decisão do presidente Hugo Chávez de cortar as relações diplomáticas com a Colômbia, segundo declarações de Jaua à rede de televisão VTV.

Chávez anunciou ontem a ruptura das relações diplomáticas com a Colômbia. A Colômbia acusa o país vizinho de abrigar guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em seu território, posição que foi levada ao Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Jaua presidiu a reunião do Conselho convocada de maneira 'extraordinária' para analisar a situação. Segundo o vice-presidente, 'os poderes do Estado e as nossas forças armadas consideram como justa e necessária a ruptura diplomática e chamamos o povo venezuelano a apoiar esta medida', acrescentou o oficial.

Jaua declarou que o Conselho analisou uma série de medidas para "garantir que o atual governo da Colômbia compreenda que deve respeitar o governo legítimo da Venezuela'.

O documento com as medidas serão entregues a Chávez, segundo Jaua, para avaliação e para que ele decida quais delas serão tomadas, disse ele, sem dar detalhes sobre as características da proposta.

Na reunião, convocada pelo Executivo venezuelano, estavam presentes o vice-presidente Elías Jaua, o chanceler Nicolás Maduro, o ministro de Defesa Carlos Mata Figueroa, e a promotora-geral Luisa Ortega, entre outras autoridades.

O Conselho de Defesa é 'o órgão máximo de consulta para o planejamento e assessoria do Poder Público (...) em assuntos relacionados à segurança e defesa integral da nação, sua soberania e a integridade do território', segundo a Lei Orgânica de Segurança da Nação.

FRONTEIRA

O ministro Figueroa declarou após a reunião que a situação na fronteira com a Colômbia é normal, apesar do rompimento das relações diplomáticas.

'Os 20 mil homens que estão na fronteira me informaram que a situação é normal', disse o ministro à VTV depois da reunião do Conselho de Defesa Nacional.'Quero que a nação fique tranquila", completou.

REAÇÃO DA COLÔMBIA

O procurador-geral da Colômbia, Guillermo Mendoza Diago, declarou que há possibilidade de denunciar a Venezuela à Corte Penal Internacional (CPI) por supostamente abrigar guerrilheiros das Farc e do ELN em seu território.

"Se conseguirmos estabelecer isso, e temos informação de que os guerrilheiros se refugiam na Venezuela e as autoridades não fazem nada, e pelo contrários os apoiam, pois então poderíamos já consolidar o que vai ser a denúncia para a Corte Penal Internacional", disse ele.

Ele disse ter recebido das mãos do governo colombiano uma pasta em que estão documentados ao menos 60 ataques cometidos por guerrilheiros das Farc contra moradores colombianos e depois refugiados na Venezuela.

Ele participou de uma reunião chefiado pelo presidente colombiano, Álvaro Uribe, junto com seus ministros, chefes militares e da polícia.

Até o momento, o governo de Uribe não se pronunciou oficialmente sobre a decisão de Chávez.

CAUTELA

O presidente eleito da Colômbia, Juan Manuel Santos, que deve tomar posse em 7 de agosto, alegou que não se pronunciar sobre o assunto é "sua melhor contribuição" para o conflito bilateral. Em visita ao México, ele também lembrou que "o presidente Álvaro Uribe é ainda o presidente em exercício".

Já o seu vice, Angelino Garzón, afirmou que o novo governo fará "todo o possível" para restabelecer as relações diplomáticas com a Venezuela. "Faremos todo o possível e utilizaremos todos os amigos que temos em diferentes países do mundo e buscaremos todos os mecanismos diplomáticos para melhorar e fortalecer as relações com os países da região, incluindo a venezuela", disse Garzón, que está em visita a Quito, no Equador.

O porta-voz da atual presidência colombiana, César Velásquez, informou que "qualquer comunicação" oficial sobre o assunto será centralizada no embaixador do país na Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Alfonso Hoyos , e da representante nos EUA, Carolina Barco. Luis Alfonso Hoyos criticou o rompimento como "um erro histórico" e "imoral".

Três semanas antes de deixar o governo da Colômbia, o presidente Álvaro Uribe agravou a crise diplomática com a Venezuela ao denunciar que Caracas esconde guerrilheiros em seu território.

As relações bilaterais entre Colômbia e Venezuela foram "congeladas" em julho de 2009 por Caracas, depois do anúncio de um acordo de cooperação militar entre Bogotá e Washington que Chávez considerou uma "ameaça para a segurança regional".

MUDANÇA DE GOVERNO

"Espero que não ocorra nada de mais grave nesses próximos dias, os últimos de um governo que pretende perturbar a paz antes de ir", explicou Chávez em referência à saída do presidente colombiano, Álvaro Uribe, do cargo no dia 7 de agosto.

Mais cedo, Chávez disse esperar que o novo presidente colombiano, Juan Manuel Santos, não esteja envolvido na atual rixa entre os dois países.

"Espero que o novo presidente não esteja inteirado desta agressão. Espero que tome algumas medidas racionais no assunto porque acredito que já uma loucura desatada no palácio de Nariño", disse Chávez, ao entrar na sede do governo venezuelano, ao lado do técnico da seleção argentina, Diego Maradona.

Durante a campanha eleitoral colombiana, Chávez chegou a alertar que a vitória do ex-ministro de Defesa e sucessor de Uribe podia gerar uma guerra e que seria extremamente difícil restabelecer as relações bilaterais sob seu governo.

Santos, contudo, adotou um discurso de reaproximação e diálogo e chegou a minimizar as acusações de Uribe sobre os vínculos entre Chávez e as Farc. O venezuelano mudou de tom e disse que espera retomar as conversações com o país vizinho depois da posse de Santos. Ele afirmou que não irá na posse por questões de segurança.

ALERTA E EXPULSÃO

O governo de Hugo Chávez anunciou que os diplomatas da nação vizinha terão 72 horas para deixarem o país. O chanceler venezuelano, Nicolás Maduro, confirmou que após este período a representação colombiana deverá ser fechada.

Já a decisão venezuelana de colocar as fronteiras em "alerta máximo" deve-se ao risco de que o Uribe, "movido por seu ódio contra a Venezuela", opte por uma ação militar contra Caracas, enfatizou Chávez.

As declarações de Chávez foram feitas ontem em rede nacional de televisão, ao lado do técnico da seleção de futebol argentina Diego Maradona, que está em visita à capital da Venezuela. Maradona disse que "isso não é culpa dos colombianos", segundo o jornal colombiano "El Tiempo".

Segundo o porta-voz do governo de Bogotá, o país não pretende "agora" militarizar os mais de 2.000 quilômetros de fronteira que mantém com a Venezuela, que por sua vez já colocou em alerta suas forças na região. "Da parte da Colômbia, sempre haverá fraternidade", disse Velásquez, segundo o jornal venezuelano "El Universal".

REAÇÕES

O assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia , em declarações à imprensa brasileira, lamentou a decisão venezuelana. Garcia também confirmou que Lula telefonou aos outros dois mandatários para discutir o assunto e que o Brasil tentará mediar o impasse.

"Conversei com Lula e ele está preocupado com isso. O secretário-geral da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), Néstor Kirchner, também me ligou; todos estão incomodados com essa decisão lamentável que tive que tomar, mas não me restava outra alternativa", declarou o presidente Chávez.

O Departamento de Estado americano reagiu nesta quinta-feira em defesa da Colômbia e com críticas à Venezuela. "Não é uma boa forma de atuar", disse o porta-voz da diplomacia americana, P.J.Crowley, ao comentar o assunto, pronunciando-se favoravelmente ao grande aliado de Washington na América do Sul.

O secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), José Miguel Insulza , pediu que os países "acalmem os ânimos". Ele afirmou que a OEA "estará sempre disposta" a cooperar, mas alertou que "os passos devem ser dados pelos governos" de Caracas e Bogotá.

ACUSAÇÃO

Ontem, em sessão extraordinária da OEA (Organização dos Estados Americanos), a Colômbia exibiu fotos, vídeos e testemunhos que provariam a presença de ao menos 87 acampamentos e 1.500 guerrilheiros protegidos em solo venezuelano.

O embaixador da Colômbia no órgão, Luis Alfonso Hoyos, afirmou que os acampamentos não são novos "e continuam se consolidando".

"Não são [apenas] casas. São ao menos 87 estruturas completamente armadas em território venezuelano".

Em seu discurso, que também contou com fotos e imagens aéreas, Hoyos se concentrou nas informações sobre quatro localidades, que abrigariam os acampamentos nomeados Ernesto, Berta, Bolivariano e Jesus Santrich, situados 23 quilômetros para dentro do território venezuelano.

A Venezuela negou nesta quinta-feira as acusações e alegou que as fotos aéreas mostradas como provas foram tiradas em território colombiano.

"Uma das imagens onde se mostra Pablito em uma suposta praia venezuelana, a cor da areia me faz pensar que é mais parecida com a praia de Santa Marta [na Colômbia], grata cidade porque foi onde morreu nosso libertador. Além disso, a cor do céu e das flores são muito parecidas e isso pode ser tanto na Colômbia quanto na Venezuela", defendeu o embaixador venezuelano na OEA, Roy Chaderton.

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