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Egito pode excluir mulheres que ajudaram a derrubar Mubarak

Egito pode excluir mulheres que ajudaram a derrubar Mubarak

Atualizado: Terça-feira, 21 Junho de 2011 as 10:48

As mulheres egípcias tiveram papéis de liderança nos protestos que resultaram na queda do ex-ditador Hosni Mubarak, mas agora temem ser excluídas da nova estrutura de poder que se forma no Egito.

Não está claro se haverá uma cota de mulheres no novo Parlamento como havia no antigo.

Militantes mulheres dizem que os militares que governam o país atualmente não estão considerando a questão da participação feminina enquanto concebem a nova ordem política.

Há hoje menos mulheres no gabinete do que durante o governo Mubarak.

MAUS TRATOS

E em meio ao fervoroso debate travado hoje na sociedade egípcia, um tópico vem provocando fúria entre as mulheres: o tratamento dado a manifestantes presas durante um dos protesto na Praça Tahrir, em março.

De um total de 18 mulheres presas, 17 dizem ter sido maltratadas e submetidas a testes de virginidade.

"Um médico homem nos examinou", disse uma das manifestantes. "Tivemos de tirar todas as nossas roupas. Então percebemos que alguns dos soldados estavam nos olhando. Nunca imaginei que isso poderia acontecer comigo no Egito, ou em qualquer lugar do mundo. Me sinto envergonhada".

Militantes dizem que a ofensa foi agravada por comentários que teriam sido feitos por um general egípcio de alta patente e reproduzidos recentemente em uma reportagem da rede americana de televisão CNN.

"Essas mulheres não eram como a sua filha ou a minha", o general teria declarado ao canal de TV. "Elas eram garotas que acamparam em barracas, junto com manifestantes homens".

"Não queríamos que essas mulheres alegassem que nós as havíamos agredido ou estuprado. Queríamos provar que elas já não eram virgens".

Após a veiculação da reportagem, no entanto, o governo militar egípcio negou que tenham sido feitos testes de virgindade.

DEBATE POLÍTICO

Recentemente, houve uma conferência no Cairo para garantir que as vozes das mulheres não sejam silenciadas em meio ao acalorado debate político que ocorre hoje no país.

Durante o evento, a presidente da ONG egípcia Alliance for Arab Women (Aliança para Mulheres Árabes) e também ex-oficial da ONU Hoda Badran ressaltou o papel desempenhado pelas mulheres nos protestos no Egito.

"As mulheres foram para a Praça Tahrir, elas participaram no planejamento da revolução", disse Badran. "Elas limparam a praça, cuidaram dos feridos e também foram mortas quando pessoas na praça foram alvo de tiros. Mas após a revolução notamos que há decisões sendo tomadas para excluir as mulheres".

"Esperávamos que esta revolução incluísse mulheres da mesma forma como inclui homens, em termos de liberdade, igualdade e justiça social. Aparentemente, não está".

ISLAMISMO

Outras militantes temem algo ainda pior: o poder cada vez maior de militantes islâmicos, que gostariam de ver as mulheres retornarem aos antigos papéis de subserviência.

A especialista em estudos de gênero Shaza Abdul-Latif disse que isso seria um "pesadelo".

Ao que tudo indica, nos últimos anos a sociedade egípcia vem ficando cada vez mais conservadora.

Alguns acreditam que isso seja resultado da difícil conjuntura econômica, levando homens egípcios a viajar para o Golfo à procura de trabalho, trazendo de volta valores conservadores.

Outros sugerem que isso seja uma reação à corrupção que floresceu sob o governo de Hosni Mubarak.

Qualquer que seja o motivo real, ele teve um efeito inevitável sobre o tratamento e status da mulher no Egito. Por exemplo, os índices de alfabetização entre as mulheres egípcias são famosamente baixos.

E nada mudou dramaticamente nos últimos meses, apesar da queda de Mubarak.

A mesma elite continua no poder. Generais conservadores, como aquele citado pela CNN, permanecem em posições de autoridade.

A grande diferença, no entanto, é que agora tudo está aberto à discussão.

Na internet e nos jornais, uma "guerra cultural" já está sendo travada entre os que querem uma sociedade liberal e os que querem um maior espaço para suas interpretações conservadoras do Islã e do Cristianismo.

A posição das mulheres na sociedade é um dos tópicos mais importantes a ser debatido.

Shaza Abdul-Latif explicou: "Este é um período muito crítico da nossa história. Temos uma chance de mudar tudo o que é ruim e relacionado ao velho sistema".

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