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"Eles querem apagar o Brasil da memória das crianças", diz mãe que tenta resgatar os filhos da Alemanha

"Eles querem apagar o Brasil da memória das crianças", diz mãe que tenta resgatar os filhos da Alemanha

Atualizado: Quinta-feira, 2 Junho de 2011 as 8:42

A advogada paulistana Jacy Raduan-Berger, 31 anos, sente-se a cada dia mais distante de seus dois filhos: G.G.M.R.B., 4 anos, e G.G.J.R.B., 2 anos. Acostumada a cuidar dos garotos diariamente desde que nasceram, ela atualmente só pode ficar poucas horas semanais com os meninos - em parte desse tempo, sob vigilância de um funcionário do governo alemão.

Casada em 2006 com o também advogado Georg Peter Josef Berger, alemão que conheceu quando cursava uma pós-graduação em Direito na Universidade de Trier, na Alemanha, ela viu seu relacionamento se desgastar e ruir, finalmente, em 2009.

Na ocasião, ambos já estavam fisicamente separados. Ela, no Brasil com os filhos. Ele, na Alemanha. Na versão de Jacy, foi nessa época que Georg, alegando sentir uma saudade imensa das crianças, a convenceu a fazer uma viagem de férias até a cidade em que vive hoje, Baden-Baden, localidade próxima a Stuttgart.

“Até hoje me arrependo”, diz ela. Ao ingressar em território alemão, ela diz ter sido vítima de um golpe do ex-marido, que a denunciou à Justiça por supostamente ter um plano de fugir ilegalmente com as crianças alemãs do país.

Após uma série de audiências e reuniões, ela acabou perdendo a guarda dos meninos – e foi obrigada a devolver os passaportes dos filhos. O caso, que corre em segredo de Justiça, gerou tanta revolta que foi levado ao Itamaraty – que confirma acompanhar a situação de Jacy.

Georg foi encontrado pela reportagem via telefone em sua casa em Baden-Baden, residência em que vivem hoje os dois filhos do casal. Após iniciar uma conversa em espanhol, ele pediu para prosseguir em inglês. Finalmente, disse que não iria conversar por telefone, por não saber quem era seu interlocutor (que havia se apresentado). Pediu então que fosse enviado um e-mail com perguntas, o que foi feito pelo UOL Notícias. Após novo contato, no entanto, ele afirmou que não achava interessante dar publicidade ao imbróglio familiar. Se ele enviar suas respostas, as informações serão publicadas prontamente.

Atualmente, Jacy vive em um apartamento de um quarto na mesma Baden-Baden, forma que encontrou de ver as crianças nos momentos autorizados pela Justiça. “Percebo que a Alemanha quer apagar o Brasil da memória dos meus filhos”, diz ela, que contou ao UOL Notícias, na entrevista abaixo, o drama que está vivendo por ser uma mãe brasileira em um país estrangeiro.     UOL Notícias: Você é brasileira?

Jacy Raduan-Berger: Nasci em São Paulo, em 2 de fevereiro de 1980. Estudei no Brasil e me formei em Direito pela Unip (Universidade Paulista) no ano de 2003. Como sou filha de alemã, sempre fui acostumada com a cultura deles. Em 2004, fui estudar alemão na Universidade de Trier, onde tinha parentes. Depois, em 2005, comecei uma pós-graduação na mesma instituição.     UOL Notícias: Como você conheceu seu ex-marido?

Jacy: Conheci o Georg quando estava em Trier. Nunca estudamos juntos, mas circulávamos no mesmo ambiente e fomos ficando amigos. Até então, ele era uma pessoa bastante interessante: conhecia a América Latina, já tinha vivido nos Estados Unidos e na Espanha, e tinha interesse em conhecer novas culturas. Depois de um ano, mais ou menos, começamos a namorar. Em julho de 2005, alugamos um apartamento e começamos a morar juntos. No dia 6 de junho de 2006, nos casamos. No dia 7 de julho, nasceu nosso primeiro filho.      UOL Notícias: Como o relacionamento começou a se desgastar?

Jacy: Comecei a perceber alguns problemas de compatibilidade. Ele [o marido] não estava acostumado a viver em família. Tudo era ele que mandava. Tudo era motivo de discordância. Ele sempre dava a última palavra. Eu sempre fui relevando, pois quando você está em um país estranho é mais difícil ter coragem para se separar. Durante a gravidez do meu segundo filho [nascido em 29 de junho de 2008], passei a não aceitar mais a situação. Começamos a brigar muito.     UOL Notícias: Como surgiu a ideia de mudar para o Brasil?

Jacy: Meu ex-marido, que também é advogado, não estava conseguindo boas colocações profissionais em Baden-Banden, cidade para a qual nos mudamos. Pensamos que ele poderia ser melhor sucedido no Brasil, já que há grande número de empresas alemãs no país e meu ex-marido fala três línguas (além da nativa, espanhol e inglês). Então eu e ele nos resolvemos nos mudar. Foi uma tentativa de salvar o casamento, já que estava muito infeliz vivendo apenas como dona de casa na Alemanha e ele exercendo um emprego de baixa remuneração. Pensamos que a mudança poderia me dar novo ânimo, mais perto dos meus pais. Meus filhos e eu voltamos em novembro de 2008 - ele veio no começo de 2009.     UOL Notícias: Como foi a vida no Brasil?

Jacy: As coisas se inverteram. Eu comecei a trabalhar no escritório do meu pai, que também é advogado, e vivia muito mais feliz, passando grande parte do dia fora de casa – apesar de amamentar meu filho mais novo e pegar, diariamente, o mais velho no jardim de infância. Por outro lado, meu ex-marido ficou deslocado. Ele passava o dia inteiro em casa, no computador, mandando currículo. Não se adaptou. Foi então que nossa incompatibilidade ficou tremenda. Por conta disso, ele começou a procurar emprego na Alemanha novamente, e resolveu voltar em julho de 2009, deixando os filhos comigo no Brasil e indo morar na cidade de Baden Baden. Nessa época, dei entrada no pedido de separação no Brasil e fiquei com a guarda dos filhos, segundo a Justiça Brasileira.     UOL Notícias: E por que vocês voltaram para a Alemanha?

Jacy: Passados alguns meses, ele começou a fazer muita pressão, dizendo que estava com saudade dos filhos. E resolvi que seria justo levá-los para um passeio de três meses para ver o pai. Depois de enfrentar alguma burocracia, conseguimos uma autorização para a viagem. Chegando lá, percebi que ele estava muito estranho. Descobri que ele tinha conseguido ver a ação de separação no meu computador. Ele ficou muito nervoso. No dia seguinte, foi até a Justiça local e informou às autoridades que eu estava querendo fugir do país com as crianças. Ele omitiu que tínhamos voltado para o Brasil, e que eu tinha viajado ao país apenas para levar os filhos para vê-lo. Ele alegou que éramos um casal normal e que eu era uma mãe que tentava levar crianças alemãs para fora do país.     UOL Notícias: Qual foi a reação da Justiça da Alemanha?

Jacy: A juíza marcou a primeira audiência para janeiro de 2010. Na ocasião, ela deu a guarda parcial das crianças para o pai [direito de decidir sobre o local de residência dos meninos] e avisou que, se nós seguíssemos brigando, nossos filhos iriam para o juizado de menores. Precisei entregar os passaportes de meus filhos. Não briguei nem discuti pois sabia que poderia ser pior, pois na Alemanha eles realmente tiram os filhos de famílias que vivem em brigas. Aluguei um apartamento de um quarto e fiquei na região, para conseguir vê-los. Mas meu marido não me deixava mais chegar perto deles, com algumas exceções. Na escola, avisou que eu era uma sequestradora. Por isso tudo, ele perdeu a guarda das crianças em março de 2010, por privar os meninos da convivência com a mãe. O juizado de menores ganhou o poder de decidir o futuro dos filhos.     UOL Notícias: Qual foi o desdobramento do caso?

Jacy: O juizado decidiu que o pai deveria ficar com as crianças, mas que elas deveriam viver 50% do tempo com cada um. Ficamos um ano dessa forma, até março deste ano. Acontece que, em novembro do ano passado, eu havia feito um pedido para viajar com as crianças para o Brasil. Essa audiência foi marcada para o começo de maio último e, na ocasião, o juizado aproveitou para avisar que o tempo não seria mais dividido igualmente, mas sim o meu ex-marido teria de cuidar 100% das crianças, me dando apenas algumas horas de vivência vigiada com eles por semana. Levaram meus filhos da audiência sem nem deixá-los dar tchau. Foi depois disse que entrei em contato com a Embaixada do Brasil, com o consulado, e pedi a repatriação das crianças, o que faz com que todos os processos sejam suspensos temporariamente. Atualmente, a cada 15 dias, tenho direito a um final de semana. E, às quintas-feiras, eles dormem na minha casa.     UOL Notícias: Que balanço você faz do caso?

Jacy: Percebo que a Alemanha quer apagar o Brasil da memória dos meus filhos, quer afastá-los do meu país. E, se eu tentar brigar pelos meus direitos, é capaz que eles se irritem com o volume de discussões e acabem entregando os filhos para uma outra família. Prefiro ser moderada para não ver isso.  Aqui, o juizado de menores prefere dar as crianças para uma família estranha a devolvê-los para mim. Eles têm medo que eu fuja do país com meus filhos. Eu criei as crianças, passei cada dia da vida delas junto. E hoje perdi tudo. Não sinto que tenho o contato que toda mãe tem. Não me sinto fazendo parte integralmente da vida deles. Não sei se estão doentes, em que clube estão matriculados. Sinto que meus filhos estão sendo injustiçados. A impressão é que eles querem afastar meus filhos de mim.            

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