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Em NY, prédios usados como hotéis podem virar abrigos para sem-teto

Em NY, prédios usados como hotéis podem virar abrigos para sem-teto

Atualizado: Sexta-feira, 28 Janeiro de 2011 as 9:43

No ano passado, foi aprovada uma lei no estado de Nova York que impedia que os proprietários de imóveis utilizassem seus apartamentos para alugar como quartos de hotel. Isso deixou os ativistas do Upper West Side, no noroeste de Manhattan, onde houve a maior parte das mudanças, em polvorosa.

Os inquilinos dos edifícios não precisariam mais conviver com mochileiros europeus e outros visitantes perambulando pelos corredores e os proprietários não poderiam forçar os residentes antigos a sair dos apartamentos para lucrar mais com hóspedes de hotel.

Porém, agora, alguns defensores dessa lei, que torna ilegal alugar quartos e apartamentos residenciais por menos de 30 dias, estão se perguntando se abriram uma caixa de Pandora. Muitos moradores da região se decepcionaram ao descobrir que pelo menos um dos edifícios parou de funcionar como hotel para se transformar em um abrigo para 200 sem-teto.   Certamente, este não era o resultado esperado pelos apoiadores da lei. Eles temem que mais edifícios seguirão o mesmo caminho, em um bairro que, segundo os moradores, já está saturado de abrigos e lares para doentes mentais e dependentes químicos.

"O objetivo do projeto de lei é ter habitação permanente", diz a vereadora Gale Brewer A., que representa a região. Ela lutou contra a proliferação dos hotéis informais e agora se opõe aos abrigos. "Nós não apoiamos a moradia transitória", defende Brewer. "Serão 200 pessoas, o que é demais”.

A lei, que entra em vigor em maio, fechou uma brecha a qual permitia que os edifícios funcionassem como hotéis, desde que a maioria dos seus quartos fossem ocupados por residentes permanentes. Os defensores da lei afirmam que os hotéis ilegais estavam tirando da cidade as moradias acessíveis, pois em alguns dos edifícios os apartamentos são de apenas um quarto, chamados de SROs (single room occupancy).

"Nós veríamos o assédio aos inquilinos permanentes para tirá-los de suas unidades", explica Marti Weithman, diretor do Projeto de Lei SRO no Centro Comunitário Goddard Riverside.

Mas a lei não determinou o que os proprietários dos SROs devem fazer com seus apartamentos, uma vez que os turistas foram proibidos. Muitos dos edifícios são compostos de quartos minúsculos, com banheiros e cozinhas compartilhados.

Alexander Scharf, sócio-gerente do Hotel Alexander, e David Satnick, que representa três outros hotéis SRO, disse que o layout dos prédios limita o seu uso. Sem a receita produzida pelo fluxo de turistas, os alugueis baixos pagos por moradores permanentes não cobrem os gastos com manutenção. "Nós tivemos que utilizar o layout atual e não há muitas outras formas de uso", explica Scharf.

Seth Diamond, representante do Departamento de Serviços aos Desabrigados, diz que sua agência assinou um contrato válido por nove anos, no valor de US$ 7,9 milhões, com a ONG Samaritan Village, para administrar um abrigo no local, sendo que US$ 3,7 milhões são destinados ao pagamento do aluguel.

Ele explica que não há planos de converter outros SROs da região em abrigos. Satnick afirma que os hotéis que ele representa -Mount Royal, Continental e Pennington- provavelmente seriam colocados à venda.

Segundo a senadora pelo estado de Nova York Liz Krueger e o deputado Richard N. Gottfried, dois dos autores do projeto, é errado culpar a lei pela criação do abrigo. "Se um abrigo é legal na Rua 94 hoje, já era legal antes de qualquer medida tomada pelos legisladores", defende Gottfried.

A reforma já está em andamento no Hotel Alexander. Fotos pitorescas da cidade foram retiradas dos corredores e os operários já estão transportando os materiais. Não está claro o que acontecerá com os cerca de 10 moradores permanentes que restaram.

Um deles, Frank Kinkele, 70, controlador de tráfego e garçom aposentado, vive no Alexander há 29 anos; o hotel e suas três décadas de sobriedade estão entre os poucos confortos e coisas estáveis de sua vida. Ele teme que a entrada de desabrigados traga para o edifício o abuso de álcool e drogas. "Todo mundo merece uma segunda chance, mas eu não sei o que vai acontecer", diz ele.

Ainda não está resolvido se Kinkele poderá permanecer no hotel. Diamond diz que os sem-teto não podem mudar até que o local esteja vazio. Os telefonemas feitos ao Samaritan Village não foram retornados.   Barbara Brancaccio, porta-voz da agência de serviços aos desabrigados, disse que o departamento normalmente encontra resistência da população e que a cidade precisa alojar os sem-teto onde houver espaço.

No entanto, vários membros da comunidade do Upper West Side alegam que já existem muitos abrigos no bairro. De acordo com a associação "Neighborhood in the Nineties", em 2007, o Upper West Side continha cerca de duas mil unidades para desabrigados, uma das maiores concentrações na região.

"Nós temos uma reação alérgica em relação às populações com necessidades especiais", diz Aaron Biller, presidente da "Neighborhood in the Nineties", que também luta contra a conversão do edifício St. Louis Hall em um lar para viciados e doentes mentais. "Quanto é necessário para ser demais em uma área?", questiona ele.    

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