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Espanhola procura gêmea 'roubada' ao nascer durante ditadura de Franco

Espanhola procura gêmea 'roubada' ao nascer durante ditadura de Franco

Atualizado: Quarta-feira, 9 Fevereiro de 2011 as 9:34

Uma ativista espanhola afirma que sua irmã gêmea foi roubada do hospital pouco após o nascimento como parte de um esquema de sequestro de bebês durante a ditadura franquista.

Mar Soriano, que preside uma organização que faz campanha na Justiça pelo esclarecimento do suposto desaparecimento de milhares de bebês na Espanha, contou à BBC que sua irmã desapareceu em 1964, após o parto, na clínica O'Donnell, em Madri.

'Disseram aos meus pais que minha irmã tinha morrido de otite (inflamação no ouvido). Quem morre de otite? Não permitiram que visse o corpo, disseram que já havia sido enterrado em uma vala comum', disse Mar.

A história ficou guardada na sua memória até 1997, quando, em uma cidadezinha nos Alpes alemães, foi abordada por um desconhecido.

'Fui fazer uma conferência. Ele começou a falar comigo em alemão e eu não o entendia. A tradutora me explicou que ele estava certo de que eu era de uma família que ele conhecia. Ele insistiu, deu detalhes e, de repente, pensei que deveria se tratar de minha irmã', conta Mar.

Mais tarde, ela tentou contatar o homem que a abordara na Alemanha. 'Até então eu não havia contado a história de minha irmã. Expliquei o caso por meio de um intermediário e ele me respondeu que deveria largar essa busca, que se continuasse, não teria ética nem moral, que estaria destruindo uma família... Não voltei a falar com ele'.

Após esse episódio, Mar se deparou com vários casos como o seu, histórias de desaparecimentos em hospitais e de covas vazias.

Aos poucos, foi formada a Plataforma de Crianças Roubadas, da qual Mar é porta-voz. A organização hoje reúne 300 famílias, que apresentaram uma denúncia conjunta à Audiência Nacional - instância máxima do Judiciário no país - pedindo a investigação dos casos.

'Criamos a Plataforma e apresentamos os casos à Audiência Nacional para investigação, mas não ligam para nós, querem que esqueçamos. O Estado teria de investigar esse tema e não deixar as buscas a cargo das famílias', disse ela.

Banco de dados

Segundo jornais espanhóis, o promotor-chefe da Audiência Nacional, Javier Zaragoza, disse que a investigação não seria de competência do Judiciário, mas, sim, do Ministério da Justiça, que, por sua vez, estuda a criação de um comitê para promover o intercâmbio de informações com as famílias e elaborar um banco de dados.

Outra organização que também representa famílias de crianças desaparecidas no mesmo período, a Associação Nacional de Afetados por Adoções Irregulares (Anadir), apresentou à Procuradoria Geral 260 casos para serem investigados.

A Anadir estima em 300 mil o número total de crianças que teria desaparecido em hospitais espanhóis desde o final da Guerra Civil (1936-1939) seria de 300 mil, mas alguns especialistas reduzem a cifra para 30 mil.

O tema é espinhoso, pois reabre antigas feridas no país, até hoje marcado por profundas divisões ideológicas.

'O incrível é que quando foi dado um passo em direção à democracia, não se criaram os órgãos, as comissões de busca, os tribunais, os bancos de dados genéticos', disse o investigador de Direito Penal Internacional da Universidade de Castilla-La Mancha, Miguel Àngel Rodríguez, pioneiro em investigações sobre possíveis saídas jurídicas nacionais e internacionais para lidar com casos de desaparecimentos durante o regime franquista, que comandou o país até 1975.

Segundo Rodriguez, crianças eram sistematicamente roubadas, logo após a Guerra Civil, de mães republicanas (a guerra opôs republicanos e nacionalistas, comandados pelo general Francisco Franco) mantidas em prisões ou conventos ou tomadas de guerrilheiros republicanos que continuavam oferecendo focos de resistência nas montanhas.

Rodriguez conta que Franco também pediu o retorno de crianças de republicanos que haviam sido enviadas a países como a Rússia ou França durante a guerra, mas que essas crianças nunca foram devolvidas às suas famílias.

Ainda no início do franquismo foram montados, acredita-se, os esquemas em clínicas e hospitais de redes que roubavam e logo vendiam as crianças, primeiro de famílias republicanas, mas, mais adiante, de forma indiscriminada.

Beatriz, a irmã de Mar, teria desaparecido desta forma.

Mar Soriano não perde a esperança: 'Sempre sonho com nosso encontro, em podermos ser amigas, apesar desta coisa terrível que aconteceu conosco'.    

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