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Especialistas dizem que é cedo para saber alcance de contaminação

Especialistas dizem que é cedo para saber alcance de contaminação

Atualizado: Quarta-feira, 16 Março de 2011 as 11:18

O risco de vazamento radioativo na usina de Fukushima Daiichi preocupa, mas ainda é cedo para precisar exatamente por quanto tempo e até onde a contaminação vai se estender. Quatro dos seis reatores nucleares da central já apresentaram problemas, afetados pelo terremoto da última sexta-feira (11), de magnitude 9, e pelos tsunamis que se seguiram. As autoridades impuseram um isolamento num raio de 30 km do local.

Consultados pelo G1, cientistas explicaram que ainda é muito difícil ter uma noção do alcance geográfico das consequências do acidente, por falta de dados. O primeiro passo é controlar os reatores em Fukushima para evitar o vazamento do material. Só então, equipes farão a análise e medirão os efeitos do acidente sobre a região. Os moradores não serão levados de volta até que as autoridades considerem que não há mais contaminação no local.

    Alcance

É difícil precisar até onde podem chegar os vestígios do material radioativo que vier a entrar na atmosfera, pois há muitas variáveis.

“Isto vai depender da extensão da pluma (fumaça expelida no vazamento ou na explosão), da quantidade de material radioativo liberado e das condições ambientais e meteorológicas”, explica Matias Puga Sanches, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Nucleares e Energéticas (Ipen) e membro da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen).

Fatores como a intensidade e a direção dos ventos e a quantidade de chuvas influem para determinar para onde vai o material radioativo. “Em todas as centrais nucleares, há torres meteorológicas justamente para fazer estes cálculos. Provavelmente, a decisão de isolar 30 km é em função desses cálculos”, afirma Sanches, para quem o Japão é o país mais preparado para lidar com acidentes desta proporção em todo o mundo.

Em caso de vazamento, o material fica suspenso na atmosfera na forma de gás. Ele pode descer junto a precipitações naturais – chuva, neve –ou se condensar e cair. Ao se depositar, ele contamina o solo ou a água.

“Se o solo absorver material radioativo, ele não pode mais ser reaproveitado. No mar, a diluição é muito grande e o dano causado será, com certeza, menor”, afirma Aquilino Senra, professor do programa de engenharia nuclear da pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele afirma ainda que quando há liberações controladas de gás radioativo, isso é feito quando o vento toca para o mar, para reduzir o risco de contaminação do solo.

Ainda assim, Alessandra Larissa Fonseca, doutora em oceanografia e professora do departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tem ressalvas quanto à poluição do mar. “A primavera (que começa no Hemisfério Norte na semana que vem) é um período de alta produção primária, ou seja, é quando as algas absorvem mais nutrientes”, aponta. Isto aumentaria o risco de que algum material radioativo entrasse na cadeia alimentar.     Escala INES

Para Matias Puga Sanches, não há motivos para classificar o evento em Fukushima como de nível 6 na escala INES, como foi sugerido pela autoridade francesa. “No caso do Japão, não houve mortes por conta da radiação. Mas como quatro reatores foram comprometidos, a avaliação foi elevada ao nível 4, por precaução”, afirma o especialista. “Nesse nível, as consequências são locais, com apenas 0,1% do material do núcleo do reator sendo liberado para a atmosfera”.

Elaborada desde 1989, a Escala Internacional de Eventos Nucleares e Radiológicos (INES, na sigla em inglês) foi criada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para facilitar a compreensão do público e da mídia sobre a gravidade de acidentes nucleares.

A escala vai de 1 a 7, sendo o último nível usado apenas para classificar o acidente em Chernobyl, na Ucrânia, no ano de 1986. Do número 1 ao 3, a escala trata dos incidentes que não representam risco à população local. De 4 para cima, ocorre o vazamento de material radioativo para atmosfera e a possibilidade de mortes por conta da radiação.

Três critérios são usados para montar a escala: o impacto do evento em pessoas e no meio ambiente, nas barreiras radiológicas e de controle disponíveis no local e na defesa em profundidade – termo para as medidas preventivas criadas para controlar o perigo de instalações nucleares.

Como explica Laércio Antônio Vinhas, diretor de Radioproteção e Segurança Nuclear da Cnen, a escala é usada para avaliar as possíveis conseqüências de um desastre como o ocorrido em Fukushima, mas não está baseada em grandezas físicas como as escalas Richter (para abalos sísmicos) e Celsius (para temperatura).

“Sempre que acontece qualquer evento fora do normal, essa escala é usada.” Afirma Laércio, que participou do grupo que elaborou a escala no início da década de 1990. “Ela leva em conta fatores como o grau de degradação da instalação, a quantidade de material radioativo que pode ser liberada e a área passível de ser contaminada”.      

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