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Espionagem não afeta relações EUA-Rússia; russa de 28 anos está entre 11 presos

Espionagem não afeta relações EUA-Rússia; russa de 28 anos está entre 11 presos

Atualizado: Quarta-feira, 30 Junho de 2010 as 8:40

Com cabelos ruivos, olhos verdes, e um tímido sorriso nos rostos, a russa Anna Chapman tornou-se praticamente uma celebridade aos 28 anos. Só que nas páginas policiais.

Ela foi presa no domingo nos Estados Unidos, acusada de espionar para a Rússia. Todas as quartas-feiras, ela se encontrava em uma livraria em West Village, Manhattan, com um representante russo para passar informações.

Autoridades americanas anunciaram nesta segunda-feira terem desbaratado um esquema digno de novela policial. A inteligência russa infiltrou agentes disfarçados nos EUA para se aproximar de fontes políticas nos Estados Unidos e reunir informações para o governo da Rússia, segundo o Departamento de Justiça americano.

No total, 11 pessoas foram acusadas. Destas, dez foram presas no fim de semana em Boston, Nova York, New Jersey e Virgínia, sob acusações que incluem conspiração para agir como agentes ilegais da Rússia e lavagem de dinheiro.

A polícia de Chipre, no Oriente Médio, anunciou nesta terça-feira a prisão de Robert Christopher Metsos, 55, o 11º suspeito da suposta rede de espionagem russa nos Estados Unidos.

A Rússia rejeitou nesta terça-feira com indignação a descoberta de uma suposta rede russa de espionagem nos Estados Unidos, enquanto autoridades americanas se apressaram em dizer que o caso não vai afetar a fase de reaproximação entre os dois países.

Ruiva

Chapman se apresentou ao juiz federal de Manhattan, James Cott, nesta segunda-feira. Ele ordenou que a russa permaneça sob prisão preventiva.

Ela vivia em Nova York desde fevereiro, quando deixou Moscou logo após se divorciar, segundo o jornal ''New York Post''.

Em entrevista publicada no ''YouTube'', ''Anya'' Chapman conta que é uma caçadora de talentos e quer desenvolver uma rede de recrutamento de jovens profissionais nas ''duas cidades do mundo onde há mais talentos: Moscou e Nova York''.

No vídeo, a russa conta ter trabalhado durante vários anos em Londres em uma empresa de investimentos, e ter lançado em Moscou um site de busca de imóveis.

Em Nova York, a jovem empreendedora montou uma empresa chamada ''Time Venture'', especializada em ''tecnologia, internet, meios e entretenimento''.

Diante do juiz, Chapman estimou o valor de sua empresa em US$ 2 milhões.

Seu advogado, Robert Baum, tentou convencer o juíz de todos os modos sobre a inocência da cliente. ''Minha cliente não tinha jamais posto os pés nos EUA antes de 2005, e vive aqui há uns meses, com um visto que foi retirado no sábado passado'', explicou. ''As únicas pessoas para quem telefona de seu celular são seus pais, e quando lhe deram um passaporte falso, foi imediatamente levá-lo à polícia, onde então a prenderam.''

Diplomacia

O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, disse que os policiais norte-americanos estavam ''fora de controle'' ao deterem no domingo dez pessoas em quatro cidades do leste dos Estados Unidos sob suspeita de espionagem.

''Espero que todos os ganhos positivos que foram obtidos na nossa relação não sejam danificados pelo fato recente'', disse Putin ao ex-presidente norte-americano Bill Clinton, que visitava Moscou.

Em Washington, membros do governo disseram que o caso não irá prejudicar o ''relançamento'' das relações com a Rússia, proposto pelo presidente Barack Obama no início do seu mandato.

''Acho que fizemos um novo começo em trabalhar juntos em coisas como na Organização das Nações Unidas, lidando com a Coreia do Norte e o Irã'', disse o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs. ''Não acho que isso irá afetar essas relações.''

Gibbs disse que Obama já sabia da investigação quando na semana passada recebeu o presidente russo, Dmitri Medvedev, mas não abordou o assunto.

''A escolha do momento foi particularmente graciosa'', disse sarcasticamente o chanceler russo, Sergei Lavrov, a jornalistas durante visita a Israel. A chancelaria russa disse em nota que os EUA parecem tomados por um ''espírito da espionagem da Guerra Fria.''

A Rússia pediu que diplomatas e advogados tenham acesso aos suspeitos. O Departamento de Justiça disse que todos os procedimentos consulares estavam sendo seguidos.

Dois anos

A operação do FBI começou em 2009, quando foi interceptada uma mensagem criptografada enviada a dois dos acusados. Os agentes eram instruídos a ''buscar e desenvolver ligações em círculos de decisão polícia nos EUA e mandar relatórios'' de volta à inteligência em Moscou.

A maioria dos agentes era originalmente da Rússia e foram treinados para se infiltrar secretamente nos EUA. As acusações afirmam ainda que os membros dos ''Ilegais'' receberam vasto treinamento em comunicação codificada e como evitar serem pegos.

O objetivo era tornar-se ''suficientemente americanizado a ponto de conseguirem reunir informações sobre os EUA para a Rússia e conseguir fontes de dentro dos círculos de decisão política dos EUA - ou que consigam se infiltrar'', segundo registros policiais preenchidos por uma corte federal americana.

Os acusados teriam coletado informações desde programas de pesquisa de pequena produção, ogivas nucleares de alta penetração e o mercado mundial de ouro, tentando obter informações sobre pessoas que se poderiam se candidatar a vagas na CIA, segundo registros na corte.

Em 2009, Moscou teria pedido a dois dos agentes informações sobre a viagem de Obama à Rússia, programada para breve. Foram pedidas mais informações sobre a situação das negociações do tratado de redução de armas Start, bem como Afeganistão e a posição de Washington em relação ao programa nuclear do Irã, segundo os documentos.

Acusados

Os acusados são um casal conhecido como Richard Murphy e Cynthia Murphy, presos em Monclair, em New Jersey; Vicky Pelaez e um homem conhecido como Juan Lazaro, presos em Yonkers, no Estado de Nova York; e Anna Chapman, presa em Manhattan. Há ainda Mikhail Semenko e o casal conhecido como Michael Zottoli e Patricia Mills, presos em Arlington.

Os dois últimos, conhecidos como Donald Howard Heathfield e Tracey Lee Ann Foley, foram presos em Boston.

Os dez presos foram acusados de ato de conspiração como agente de um governo estrangeiro, que leva pena máxima de cinco anos de prisão. Nove dos detidos foram acusados de conspiração para lavagem de dinheiro, que tem pena máxima de 20 anos de prisão.

As prisões foram fruto de anos de investigação, incluindo escutas colocadas nas casas dos acusados. A lei federal americana proíbe pessoas de atuarem como agentes de governos estrangeiros dentro dos EUA sem notificar as autoridades locais.

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