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"Esse movimento não pode ser visto como uma revolução islâmica"

"Esse movimento não pode ser visto como uma revolução islâmica"

Atualizado: Quarta-feira, 9 Fevereiro de 2011 as 10:36

O Ocidente teme que o grupo islâmico Irmandade Muçulmana passe a exercer grande influência no Egito depois da saída de Hosni Mubarak. A revista Der Spiegel falou com o vice-líder do grupo, Rashad al-Bayoumi, sobre as pretensões da irmandade e sobre o fato de o Ocidente "recusar-se a ouvir".

Estaremos hoje assistindo ao início de uma nova era no Egito?Após 30 anos de opressão, corrupção e ditadura, nos encontramos definitivamente em um momento crucial da nossa história. A questão que se coloca agora é saber se queremos abrir espaço para a democracia e os direitos humanos ou se ainda queremos uma ditadura. A revolução continuará até que nossas reivindicações sejam plenamente atendidas.

E quais são elas?

Em primeiro lugar, precisamos de uma mudança de regime. Queremos um novo governo. Em segundo, precisamos de novas eleições. O Parlamento atual não tem nenhuma legitimidade e só assumiu em razão de amplas fraudes eleitorais. Terceiro, todos os presos políticos precisam ser libertados imediatamente. Queremos justiça. E, finalmente, precisamos de um governo de transição que inclua representantes de todos os grupos de oposição.

Esse governo de transição incluiria também Mohamed ElBaradei? O seu grupo o aceitaria como candidato?

Nossas reivindicações são compatíveis com as reivindicações de todos os grupos de oposição, incluindo as dos jovens - e não apenas as dos partidos. Entretanto, ainda é muito cedo para falar em novos líderes. Agora, em primeiro lugar, é o povo que terá de decidir. Deixemos que o povo se manifeste.

A Irmandade Muçulmana é considerada o maior movimento de oposição no Egito. Por que ela não participa dos protestos?

Isso é ridículo! É claro que estamos presentes. Só que nossa organização mantém uma posição discreta. Não fazemos manifestações com nossos slogans. Não queremos que essa revolução seja vista como uma revolução da irmandade, como uma revolução islâmica. Esse é um levante de todos os egípcios.

No Ocidente existe o temor de que a irmandade esteja se preparando para tomar o poder e busque transformar o Egito em um Estado islâmico.

O Ocidente recusa-se a nos ouvir. Não somos demônios. A nossa religião não é uma religião diabólica. Nossa religião respeita as pessoas de outros credos, esses são os nossos princípios. Mas esse regime nos mostra de maneira equivocada e manipula a opinião pública.

Seu movimento tem quantos membros?

Não sei. Não contamos. O governo afirma que somos mais de 3 milhões. Sei é que estamos em toda parte, em cada cidade, em cada aldeia, em cada bairro. Somos parte essencial do povo.

Quantos egípcios votariam na irmandade se eleições livres se realizarem de fato?

Antes vamos esperar que o povo se manifeste. Vivemos num período de revolta e transição democrática. É disso que queremos falar agora e não do resultado das eleições.

A calma voltará ao Egito?

O governo é o único responsável pelo caos. A Irmandade Muçulmana não fez nenhuma incitação à violência.    

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