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EUA enfrentam dificuldades para controlar comércio do ópio afegão

EUA enfrentam dificuldades para controlar comércio do ópio afegão

Atualizado: Terça-feira, 1 Junho de 2010 as 7:49

A colheita anual de ópio do terminou este mês no Afeganistão com uma produção acentuadamente menor em comparação ao ano passado, segundo produtores afegãos e militares americanos. Agora, os produtores e traficantes estão diante de escolhas difíceis geradas pela fraca plantação e uma nova pressão governamental e militar. Eles afirmam que a indústria está se aproximando de uma encruzilhada.

Os produtores ao redor de Marjah, centro da indústria de ópio afegã, enfrentam duras condições ambientais e novos esforços de interdição. Eles também estão recebendo ofertas de ajuda em troca de cultivar outros plantios. Os produtores e os militares disseram que o início de uma mudança para outras fontes de renda poderia ser possível até o final deste ano, quando a plantação de papoula seria retomada.

Esse resultado é um dos maiores objetivos das iniciativas americanas. Mas também está longe de ser uma certeza. As possibilidades para a transição dos plantios são incertas e minadas por batalhas persistentes e pela presença limitada do governo afegão. O declínio na produção deste ano também fez subir o preço do ópio, oferecendo um incentivo para que produtores considerem apostar em cultivos futuros.

Muitos produtores afegãos alegam cultivar papoula porque ela lhes fornece uma renda significativamente maior do que qualquer outra plantação, e porque o ópio, que é não-perecível no curto prazo, pode ser trazido para o mercado a qualquer momento depois da colheita, tornando-o um ótimo produto em meio às incertezas de uma zona de conflito.

Mesmo assim, vários produtores disseram em entrevista que estão dispostos a adotar outros cultivos no outono, talvez trigo, e evitar os novos riscos e a eterna turbulência do comércio de ópio.

Para isso, eles dizem que precisariam de sementes, fertilizantes, equipamentos agrícolas ou dinheiro. ''Se o governo do Afeganistão nos ajudar no próximo ano, não plantaremos papoula'', disse Obidullah, 50 anos, que afirmou ter cultivado cerca de 2,4 hectares de papoula para a produção de ópio este ano. Como muitos afegãos, ele usa apenas um nome.

Sua produção, ele disse, foi apenas um quarto da do ano passado, por causa do tempo ruim e da geada.

Com os combates ao redor de Marjah esquentando novamente com o aumento sazonal da atividade do Talibã e com o que a marinha diz ser um fluxo de chegada de combatentes, o estado do comércio de ópio da área é um elemento central do conflito entre os governos americano e afegão e uma complexa base insurgente e criminosa. Também é um setor da economia afegã que o governo de Obama espera eliminar, e, portanto, demonstrar progresso resultante do aumento das tropas no Afeganistão, que até agora mostrou resultados confusos.

A enorme plantação de ópio do Afeganistão enriquece tanto o Talibã quanto oficiais corruptos, servindo como motor econômico para dois fenômenos persistentes que confundem o país: uma insurgência resistente e um governo fraco e desacreditado demais para vencê-la.

A indústria também tem sido um ponto sensível com aliados e potenciais aliados na guerra liderada pelos americanos, que ficaram alarmados com o fato de que a produção de ópio decolou depois que o Talibã foi expulso do poder em 2001. A heroína derivada do ópio afegão inundou a Europa e ex-estados soviéticos, causando problemas de saúde pública, incluindo dependência e a disseminação do HIV.

Marjah e arredores, uma rede de vilas produtoras irrigadas que formam um grande cinturão verde em uma estepe que em outras circunstâncias seria seca, agora são o centro da zona de produção de ópio mais densa do mundo.

Antes de a marinha iniciar sua ofensiva bastante divulgada ao cinturão de ópio, em fevereiro, seus comandantes reconheceram que os esforços para reduzir a produção da droga em 2010 enfrentariam limitações e riscos.

O ópio deriva da seiva da vagem das sementes da papoula, e a plantação deste ano já tinha sido iniciada meses antes da chegada dos primeiros helicópteros. Além disso, embora leis afegãs proíbam o comércio do ópio, unidades militares americanas aqui não têm autoridade para fiscalizar as leis do país.

Mesmo que eles tivessem um mandado para confrontar o comércio de ópio, os comandantes decidiram que a erradicação forçada seria contraproducente, pois, como afirmou um oficial, ''em uma campanha centrada na população, não queremos colocar os produtores contra nós''.

Porém, não fazer nada também foi considerado inaceitável. Enquanto as patrulhas se agitavam e os postos avançados cresciam e se fortaleciam, a marinha não queria ser vista como um serviço policial estrangeiro que protegia uma zona de droga ilícita, especialmente se a plantação subscrevia os insurgentes que atiravam neles e plantavam bombas escondidas.

O que se seguiu foi um final complicado da estação da papoula e uma tentativa, por parte de forças ocidentais, de posicionar a si mesmas e aos produtores para um cultivo drasticamente reduzido em 2011.

Marjah é cercada por canais, e unidades da marinha estabeleceram postos de controle perto de quase todas as pontes de entrada e saída da região. Tropas americanas agora supervisionam policiais e soldados afegãos enquanto revistam todos os veículos que passam.

Isso dificultou levar o ópio para longe dos campos, como disseram vários produtores. A marinha também localizou e destruiu laboratórios de processamento como parte de suas operações.

Por essas razões, poucos produtores venderam a colheita deste ano, como afirmam. Os produtores disseram, em vez disso, ter estocado ópio, na esperança de que possam vendê-lo mais rapidamente mais tarde, talvez depois que a marinha for embora (o ópio, que toma a forma de uma pasta escura, pode ser armazenado por anos).

Em entrevistas separadas, cinco produtores de papoula de Marjah ou campos ao redor disseram que sua colheita este ano foi fraca, caindo de 20% a 75%, dependendo do local do campo. O clima frio de inverno, tempestades de granizo e geada foram fatores que contribuíram para isso, como disseram.

A baixa oferta causada por colheitas mais fracas e esforços de interdição levou a um aumento nos preços, vindo de baixas recentes causadas por uma produção abundante dos anos anteriores. Em março deste ano, produtores venderam ópio seco a US$ 94 por quilo, em comparação a US$ 79 um ano atrás, disse Jean-Luc Lemahieu, representante no Afeganistão do Escritório sobre Drogas e Crime das Nações Unidas.

Esse aumento de 19% não foi causado pelo forte declínio que muitos produtores sofreram em suas colheitas. O exército americano diz que essas condições de mercado podem ter sido um fator que levou muitos produtores a participar de um programa patrocinado pela marinha para destruir suas plantações de papoula em troca de pagamentos em dinheiro.

As iniciativas, conhecidas como Programa Acelerado de Transição Agrícola de Marjah, ofereceram US$ 300 aos produtores para cada hectare de papoula. Ao todo, quase 1.900 produtores trabalharam quase 6.880 hectares de papoula no solo até o começo de maio, em troca de US$ 2,1 milhões em pagamentos, de acordo com dados militares.

O programa exigiu que os produtores que recebiam pagamentos jurassem não plantar papoula novamente. Dessa forma, os produtores não serão elegíveis para pagamentos se replantarem no outono e tentarem coletar pagamentos novamente.

Avaliar o efeito do programa ainda é difícil. Em muitos casos, de acordo com fuzileiros navais em patrulhas que tiveram de verificar se os campos de papoula tinham sido realmente destruídos, os produtores foram pagos com base em estimativas do tamanho de um campo, o que geralmente era aumentado pelos afegãos.

Fuzileiros navais e produtores de papoula também concordaram que muitos produtores esperaram até o final da temporada para se registrar para os pagamentos. Então, eles rapidamente colheram seu ópio, faziam desaparecer os talos e coletavam pagamentos.

''Isso foi a única coisa ruim'', disse o oficial David Palmer, que liderou o pelotão que fornecia segurança para a equipe de verificação.

O valor mais certo do programa, como afirmaram muitos fuzileiros navais, foi seu papel como ponto de partida. Até o início do programa, os produtores estavam hesitantes em se encontrar com a marinha, disseram oficiais. O Talibã ameaçou punir homens locais que cooperavam com os americanos. Pelo menos seis homens tinham sido decapitados e outros foram espancados ou baleados por suspeita de colaboração.

Mas o que começou como um lento movimento de produtores, com apenas alguns homens se registrando a cada dia, se tornou uma fila longa. Até o final de abril, 120 produtores tinham se registrado em um único dia em um dos dois batalhões de infantaria de Marjah.

''O programa nos ajudou a aproveitar o embalo'', disse o major James Coffman, oficial sênior de assuntos civis do batalhão. ''O programa de assassinatos e intimidação do Talibã ainda está em operação'', acrescentou. Porém, através dos subsídios, grupos de produtores começaram a se reunir e cooperar com tropas americanas e afegãs.

Coffman também disse que o envolvimento ofereceu ''uma assistência muito necessária a algumas das pessoas mais pobres do mundo'' e ajudou na preparação para a próxima fase - distribuir sementes, fertilizante e equipamentos para incentivar produtores a diversificar suas plantações no próximo ano.

A esperança, dizem vários oficiais, é que, se a segurança for melhorada à medida que unidades americanas e afegãs continuam a se espalhar pelo sul do Afeganistão, a produção de papoula cairá ainda mais, como ocorreu em outras províncias onde a presença do governo aumentou e programas alternativos puderam ser operados.

Ninguém ainda pode dizer quanto tempo levará para que essas condições de segurança ocorram aqui. Os conflitos continuam, e a visão de civis se afastando do combate - em tratores e caminhões cheios de seus pertences - mostrou que o Talibã ainda é uma presença poderosa em Marjah. Para ter sucesso, qualquer campanha para combater o cultivo de papoula pode exigir uma quantidade substancial de tempo, de acordo com civis e militares.

''Se tivermos sucesso, esse pode ser o fim do cultivo do ópio no sul do Afeganistão'', disse Lemahieu, da ONU. ''Se não, pode haver três, quatro anos de combates''.

Por C. J. Chivers

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