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Ferreiro solitário mantém o ofício vivo no Vietnã

Ferreiro solitário mantém o ofício vivo no Vietnã

Atualizado: Terça-feira, 7 Dezembro de 2010 as 11:07

Nguyen Phuong Hung é o último ferreiro da Rua dos Ferreiros. Coberto de fuligem e com os braços manchados de queimaduras, sua e trabalha duro nesta pequena ferraria, enquanto um novo mundo passa por ele.

Filho e neto de ferreiros, Hung cresceu numa época em que as ruas ainda emitiam os sons das ferrarias, produzindo equipamentos de fazenda, ferraduras de cavalo e ferramentas de trabalhos manuais, antes que a produção comercial e industrial moderna tornasse tudo isso obsoleto.

"Ainda me lembro que, quando chovia fraquinho, as ruas ficavam vazias e tudo que a gente ouvia era o som dos ferreiros", disse Hung, de 49 anos. "Isso criava uma atmosfera especial para os ferreiros. Toda loja tinha um forno. Só se podia ouvir os martelos."

Parece que foi há muito tempo, nesta cidade que se apressa para o futuro, onde podemos ouvir o som das motos e dos negócios. O som do martelo e da bigorna de Hung é um pequeno eco de um passado menos agitado.   Os outros ferreiros ali perto foram substituídos por lojas de roupas, de cosméticos, de soldagem, banco e dois showrooms que vendem pedras de jade trabalhadas.

Os homens que trabalhavam ali abandonaram a profissão por um ofício mais leve e com melhor remuneração, e também porque se dizia que nenhuma mulher moderna se casaria com um ferreiro, disse Hung. Pode haver outros ferreiros trabalhando no Vietnã, ele disse, mas não aqui na capital.

"Agora só sou eu", disse, forjando bens de ferro pesado como alavancas, cabeças de martelo, limas e brocas. "Tenho orgulho de ser o último. Sou único, como se falasse uma língua africana. Apenas algumas pessoas conhecem meu trabalho e isso me faz especial."

Ele não passou o ofício da família para o filho, que está na faculdade e, de qualquer forma, não tem o que Hung chama de mãos sensíveis de um ferreiro. A filha também está na faculdade, e não sabem nem a diferença entre uma fornalha e um fole.

"Quando eu me for, a rua não terá mais significado", ele disse. "A Rua dos Ferreiros será apenas um nome".

Esse tem sido o destino de quase todas as 36 estreitas ruas do Bairro Antigo de Hanói, cada uma com o nome da corporação de ofício que antes a controlava – Rua do Ventilador, Rua da Porcelana, Rua da Batata Doce, Rua do Chapéu Cônico.

Não há nada parecido com esse pequeno centro do passado urbano em nenhum outro lugar do Vietnã. Apenas quatro ruas mantiveram algo dos seus negócios originais, disse Nguyen Vinh Phuc, importante historiador de Hanói.

Ainda há joalherias na Rua da Prata, doces e itens de padaria na Rua do Açúcar, papéis e brinquedos votivos na Rua do Papel Votivo, e panelas e frigideiras na Rua do Estanho.   "É claro, quando ninguém mais vender o produto, toda essa história desaparecerá", disse Phuc, 84 anos. "Sou um homem velho. Fico triste de ver que estamos perdendo essas ruas antigas."

Os comerciantes fazem negócio neste local desde o século IX, disse Phuc. As 36 corporações de ofício se estabeleceram no começo do século XIX.

O mundo exterior causou seu primeiro impacto quando os comerciantes começaram a chegar vindos de toda a Europa e outras partes da Ásia, trazendo pedras preciosas, telescópios, relógios e armas. Eles levavam para casa açúcar, seda, especiarias, madeira preciosa, arroz e cerâmicas.

No Bairro Antigo de hoje, o mundo exterior quer dizer turistas, e esse novo negócio trouxe albergues, restaurantes, lojas de seda e agências de viagens para as 36 ruas.

A Rua dos Ferreiros recebeu esse nome no começo do século XIX, contou Phuc, quando os administradores franceses da colônia solicitaram pessoas que trabalhavam com metais para ajudar a construir a ponde Long Bien sobre o Rio Vermelho. Ela foi projetada pelo arquiteto francês Gustave Eiffel e se tornou alvo dos bombardeios americanos durante a Guerra do Vietnã.

A família de Hung está aqui desde o começo. Assim como o pai e o avô, Hung foi chamado para ajudar na fornalha quando era apenas um garoto de 6 anos. Mas ele se rebelou e buscou emprego como motorista e operário de fábrica, até que o pai o chamou novamente, quando Hung tinha 35 anos.

"Meu pai me disse que este é o negócio da família e que sou o único que sobrou", disse Hung. "Ele me disse que eu aprenderia o que fazer observando-o trabalhar."

Hung descobriu que adorava aquele ofício, que seu destino era mesmo ser ferreiro.

Ele se lembra das palavras do pai: "Quando o ferro fica vermelho e brilhante, você ganha dinheiro. Essa é sua vida".

À medida que as outras fornalhas fechavam, Hung encontrou trabalho mais que suficiente entre as pessoas que destroem, reconstroem e renovam os edifícios do Bairro Antigo – parte do processo que está destruindo o mundo que ele conhecia.

"Me preocupo com o dia em que ele pare de trabalhar", disse Do Thi Nguyet, proprietária de um negócio que está naufragando e que vem toda semana com pedaços de uma britadeira desgastada, para que sejam remodelados na fornalha.

"Pedimos que ele encontre alguém para segui-lo", ela disse. Mas Hung diz que não há ninguém para substituí-lo. "Sem ele, como iremos fazer?"

Hung colocou uma pequena mesa de centro na calçada, enchendo uma garrafa térmica com uma enorme chaleira de ferro que balança suavemente sobre o carvão quente. Uma vara de bambu se inclina contra a mesa e as pessoas que passam por ali são bem-vindas para um bom trago de cigarro forte.

Em quase todas as manhãs, Nguyen Huu Thinh, de 88 anos, faz uma visita a Hung de bicicleta e se senta por um momento, em silêncio, lendo jornal e observando enquanto o filho martela o ferro quente.

Hung trabalha com a confiança de um mestre, sem proteção nas mãos, pois diz que as luvas atenuariam sua sensibilidade, seu toque.

Usando um par de sandálias de plástico, ele ignora as fagulhas que atingem seus pés e fazem buracos em sua camisa. Labaredas e fumaça saem do metal quente, enquanto Hung o dispõe num balde de óleo. No final do dia, seus braços e rosto ficam pretos de tanta fuligem.

Não é uma visão muito glamurosa. Hung contou que sua esposa uma vez lhe disse que jamais teria se casado com ele se soubesse que ele se tornaria um ferreiro.

Então ele faz o que tem de fazer quando deixa a fornalha e mergulha de volta no mundo moderno.

"Eu limpo e troco de roupa no final do dia", contou. "Chega em casa um homem limpo e bonito, minha mulher fica feliz." Ele arregaça uma manga da camisa para mostrar o antebraço.

"Olha como sou branco, mais branco que você", disse Hung. "Não dá pra dizer que sou ferreiro."    

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