MENU

Guatemala pede retorno de menina adotada por casal americano

Guatemala pede retorno de menina adotada por casal americano

Atualizado: Quinta-feira, 8 Setembro de 2011 as 9

Sem saber, Loyda Elizabeth Rodrigues, uma guatemalteca de 26 anos do pequeno município de San Miguel Petapa, ao sul da Cidade da Guatemala , pode estar no centro de uma decisão judicial capaz de determinar o desfecho de litígios em casos de adoção de crianças estrangeiras em todo o mundo.

Uma juíza da capital anulou o processo de adoção pelo qual a filha de Loyda Rodríguez, Anyelí Liseth Hernández, foi recebida cinco anos atrás por uma família americana que vive nos EUA.

A decisão carrega simbolismo em um país frequentemente apontado como uma das principais fontes de adoções irregulares em todo o mundo.

Fotos da menina Anyelí Liseth Hernández (Foto: BBC)

  A Corte ordenou às autoridades guatemaltecas que trabalhem junto à Embaixada dos Estados Unidos para localizar e devolver a menina à sua família biológica.

Se a menina não retornar, a Interpol será chamada a intervir.

'Pedir o retorno de uma criança adotada ao país de origem é um fato sem precedentes em uma adoção internacional', disse a organização americana National Council for Adotion (Conselho Nacional para a Adoção).

'O resultado desta situação é imprevisível e não se sabe ainda que medidas tomarão as autoridades.'

Para a Fundación Sobrevivientes, que dá assistência a Loyda Rodríguez no processo, a Justiça da Guatemala pode estar criando um precedente para os casos de adoção internacional que tramitam em diversas instâncias judiciais.

'A bebê não estava mais'

Loyda espera agora que a pequena Anyeli volte para a companhia dos irmãos.

'Há cinco anos, entrei em casa, subi para estender a roupa na varanda e quando desci, a bebê não estava mais', disse a mãe à BBC.

'Tinha dois anos e um mês. Disseram que uma senhora tinha entrado em casa, tirado a menina do pátio e entrado em um táxi.'

Após as primeiras buscas, que se mostraram infrutíferas, Loyda encontrou nos registros guatemaltecos de crianças adotadas a foto de menina com extraordinária semelhança à sua filha, que hoje tem sete anos.

No entanto, o nome que aparecia na ficha era Karen Abigail López García, registrada como abandonada e posta sob tutela de uma associação investigada por acusações de irregularidades em processos de adoção internacional.

'No instante em que encontrei a foto, pensei que já havia encontrado minha filha, pensei que ela estivesse aqui. Mas tinham acabado de levá-la para os Estados Unidos', disse Loyda.

Isto foi em 2009. Enquanto as esperanças de Loyda por reaver sua Anyelí aumentavam, no estado americano do Missouri, outra família começava a temer pelo destino de Karen Abigail.

Os Monahans, da Cidade do Kansas, alegam que a adoção foi realizada regularmente e garantem que lutarão na Justiça para evitar a devolução da menina que consideram como filha.

'A família segue comprometida em proteger sua filha de mais traumas e trabalham pela verdade de seu passado nos canais legais apropriados', disse um comunicado emitido por um representante.

Debate

A decisão da juíza guatemalteca Noemi Téllez abriu um debate sobre as possíveis repercussões para casos semelhantes em todo o mundo.

Segundo o braço da ONU para a infância, Unicef, mais de 30 mil crianças guatemaltecas foram dadas para adoção internacional entre 1997 e 2007 através de um sistema que 'não oferecia garantias sobre a origem ou idoneidade da família de acolhida'.

Em 2007, o Congresso da Guatemala ratificou a Convenção de Proteção da Criança e de Cooperação em Adoções Internacionais, e aprovou uma nova lei de adoção que contém 'avanços positivos', de acordo com a ONU.

Mas o país ainda enfrenta desafios neste campo. Pelo menos 20% das adoções pendentes contêm ilegalidades, incluindo após a aprovação da lei, de acordo com a Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala.

A mesma entidade adverte também que as redes de adoção irregular no país contam com a cumplicidade de funcionários de hospitais, juízes, fiscais, donos de cartórios, governantes, parteiras e casas de acolhida.

'Em alguns casos, as mães biológicas foram ameaçadas, coagidas ou ludibriadas para que entregassem seus filhos para adoção. Em outros casos as crianças foram roubadas e tiveram toda sua identificação falsificada', diz o último relatório da Comissão sobre adoções na Guatemala, publicado no fim de 2010.

Há ainda o truque de apresentar uma mulher que se faz passar pela mãe com documentos falsos, e a modalidade apelidada de 'lavagem de crianças', que consiste em registrar como abandonada uma criança que na verdade foi roubada ou comprada, para que seja declarada em situação de abandono e receba luz verde para a adoção.

Loyda crê que ela e sua filha foram vítimas desta estratégia. 'Todo esse tempo que perdi sem estar com ela, quero recuperar dando-lhe todo meu carinho e amor', diz. 'Vou fazer o possível e o impossível para lhe dar tudo o que ela está acostumada a ter.'

A mãe carrega sempre fotografias de Anyelí e dos irmãos nos bolsos ou nas mãos. Diz que gostaria de se encontrar com os pais adotivos de Anyelí, para quem a menina é Karen Abigail.

'Gostaria de dizer para eles que Deus nos dá os nossos filhos e que não é justo que essas pessoas venham, roubem e os levem para os Estados Unidos', afirma Loyda.

'Já me coloquei no lugar deles e entendo que talvez vão sentir saudades da minha filha. Mas infelizmente não é deles.'            

veja também