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Iniciativas ajudam veteranos a trocar armas por enxadas nos EUA

Iniciativas ajudam veteranos a trocar armas por enxadas nos EUA

Atualizado: Sexta-feira, 18 Fevereiro de 2011 as 10:59

Numa plantação orgânica de abacates, um grupo de jovens da Marinha, veteranos e reservistas do Exército ouviam atentamente a um velho experiente das linhas de frente. "Pense em termos militares", ele disse aos jovens recrutas, alguns deles recém-chegados do Iraque ou Afeganistão. "É uma questão de sobrevivência, um desafio. Temos de pensar que tudo está contra nós e esperar sairmos vivo".

A batalha em questão não era um típico ataque terrestre, mas a agricultura orgânica _ como identificar insetos benéficos, por exemplo, ou como evitar que sapos perdidos entupam um sistema de irrigação. Era o dia 2 de um novo campo de treinamento para veteranos e pessoal militar ativo, incluindo fuzileiros navais de Camp Pendleton, que podem estar interessados em novas carreiras como agricultores.

"Nas forças armadas, os soldados de infantaria são os que fazem o trabalho e geralmente são menosprezados", disse Colin Archipley, condecorado sargento da infantaria da Marinha que virou agricultor orgânico e desenvolveu o programa com a esposa, Karen, depois de três temporadas no Iraque. "Acho que com os agricultores é a mesma coisa".   Em sua plantação, chamada de Archi's Acres, o som dos grilos e sapos coaxando conversa com o ruído dos cortadores. O conteúdo, aprovado pelo programa de assistência à transição de Camp Pendleton, inclui atividades práticas de plantação e irrigação, palestras sobre "mercados de nicho de alto valor" e elaboração de um plano de negócios avaliado por profissionais da área de alimentos e professores de administração.

Junto com o Combat Boots to Cowboy Boots ("Das botas de combate para as botas de caubói"), um novo programa para veteranos da Faculdade de Agricultura Técnica da Universidade de Nebraska, e bolsas de agricultura para soldados feridos, o curso de seis semanas oferecido aqui é parte de um nascente movimento agrícola "direcionado a veteranos". Seu objetivo é trazer energia de jovens soldados que estão voltando à vida civil para a população rural dos Estados Unidos, que está envelhecendo. Metade de todos os agricultores provavelmente se aposentará na próxima década, de acordo com o Departamento de Agricultura americano.

"As forças armadas não são para os fracos, a agricultura tampouco", disse Michael O'Gorman, agricultor orgânico que fundou a Coalizão Agricultor-Veterano, sem fins lucrativos, que apoia o treinamento em agricultura sustentável. "Há oito vezes mais agricultores acima dos 65 anos do que mais jovens. Existe uma necessidade tremenda de agricultores jovens, e uma grande onda de jovens inspirados que estão voltando para casa".

Cerca de 45 por cento do pessoal das forças armadas vem de comunidades rurais, em comparação a um sexto da população total, de acordo com o Carsey Institute da Universidade de New Hampshire. Em 2009, o Departamento de Agricultura começou a oferecer empréstimos com juros baixos em sua campanha para acrescentar 100 mil agricultores ao país a cada ano.

Entre eles, provavelmente estará o sargento Matt Holzmann, 33 anos, fuzileiro naval de Camp Pendleton que passou sete meses no Afeganistao. Ele realizou trabalhos de contra-insurgência e tentou introduzir a aquaponia, um sistema agrícola auto-abastecível, em vilas rurais.

Seu entusiasmo por esse sistema o levou às aulas de agricultura. "É uma questão de segurança nacional", ele disse, do lado de fora de uma garagem que virou sala de aula, cheia de caixas de Dr. Earth Kelp Meal. "Quanto mais nós usamos a água e a energia de forma responsável, melhor é para o nosso país".   O'Gorman, pacifista e pioneiro no negócio de "baby lettuce", iniciou a coalizão depois que seu filho se uniu à Guarda Costeira. O grupo recentemente recebeu uma verba da Bob Woodruff Foundation, co-fundada pelo jornalista da ABC News que foi ferido no Iraque, para oferecer bolsas de agricultura para jovens veteranos feridos.

"Comecar na agricultura se tornou uma causa entre pessoas jovens com diploma universitário e fundo fiduciário", disse O'Gorman na sua propriedade, onde havia pilhas de revistas "Mother Earth News" no banheiro e um maço de couve-de-folhas fresco na pia. "Meu instinto diz que muitos deles não estarão na agricultura daqui a cinco anos. Mas esses veteranos estarão".

A própria jornada de Archipley até a agricultura orgânica foi um pouco por acaso. Ele se uniu à Marinha em resposta aos ataques terroristas de 11 de setembro e se casou entre sua segunda e terceira temporada no Iraque. O casal comprou 1.2 hectares de plantações de abacate ao norte de San Diego.

Archipley, cuja aparência remete a um surfista, ficou satisfeito em administrar sua plantação depois de deixar a Marinha e acabou obtendo um empréstimo do Departamento de Agricultura para construir uma estufa. Sua plantação agora vende produtos orgânicos para Whole Foods Markets em San Diego e Los Angeles.

Em 2007, o casal começou a treinar veteranos informalmente, financiando eles próprios a iniciativa. O novo curso, administrado através do MiraCosta College, custa US$ 4.500, com Camp Pendleton oferecendo assistência para fuzileiros avais ativos.

Os agricultores oferecem aos veteranos uma chance de descontrair, disse Archipley, mas, mais importante, oferecem um sentimento de utilidade. "Isso permite que eles sejam fisicamente ativos, sejam parte de uma unidade", disse. "Dá a eles uma missão _ uma responsabilidade para com os consumidores que ingerem seus alimentos".

Mesmo neste cenário idílico, isso pode ser um processo desafiador. Mike Nelson Hanes, agora com 34 anos, se alistou na Marinha aos 18. Em 1994, seis dias depois de ter iniciado seu treinamento básico no sul da Califórnia, seu instrutor cometeu suicídio com um rifle M-16 na frente de 59 recrutas.

"Ele explodiu a cabeça", disse Hanes. "Isso foi bem no começo, aos 18 anos".

Em Bagdá, Hanes serviu como metralhador em cima de uma Humvee. "Era a mim que eles tentavam matar", disse. Ele voltou para casa com transtorno por stress pós-traumático, depressão e uma lesão cerebral traumática. Hanes ficou sem ter onde morar por mais de um ano, mas conseguiu obter um diploma em serviços sociais ambientais.

"Estar ao ar livre era minha zona de conforto _ ainda é", ele disse. Dois anos depois, ele se deparou com o stand do "Veteranos pela Agricultura Sustentável" de Archipley, no festival do Dia da Terra em Balboa Park, San Diego. Hanes ainda tem dificuldades, mais está ganhando terreno.

"Uma coisa que percebi sobre a agricultura é que você cria, em vez de destruir", disse Hanes, entre arbustos ornamentais de eucalipto.

John Maki, especialista do programa de assistência à transição de Camp Pendleton, disse que as experiências de vida de jovens veteranos os equipam para trabalhos exigentes. "Em comparação a outros jovens da mesma idade, não encontramos pessoas que tiveram tanta responsabilidade", afirmou. "Eles tiveram de tomar decisões de vida ou morte".

Weldon Sleight, reitor da Faculdade de Agricultura Técnica da Universidade de Nebraska, que possui seis veteranos matriculados, disse que a disciplina _ sustentáculo das forças armadas _ era essencial na agricultura. "Muitos desses veteranos rurais têm essa maravilhosa base de conhecimento sobre agricultura", acrescentou. "Mas por muitos anos dissemos a eles que não havia futuro nisso".

No interior da Flórida, Adam Burke, que deixou a agricultura para se juntar às forças armadas, voltou às origens, projetando uma plantação acessível para cadeirantes na qual suas frutas crescem em contêineres em sustentações elevadas.

Burke, recebedor da medalha coração púrpura que sofreu uma lesão cerebral traumática no Iraque, recentemente começou uma segunda plantação. "Apertar uma bola na fisioterapia é chato", disse ele. "E não sinto a umidade da irrigação ou o vento fresco no consultório do psicólogo".

Matthew McCue, 29 anos, ex-sargento McCue, administra a Shooting Star CSA nos arredores de São Francisco com sua parceira, Lily Schneider, entregando caixas de produtos orgânicos diretamente aos consumidores.

Ele lembrou como agricultores do Iraque compartilhavam, com orgulho, seus romãs, tomates e melões.

"Aprendemos a encarar a morte", ele disse, referindo-se ao serviço no Iraque. Mas na agricultura "havia vida por todos os lados".    

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