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Irã vê na revolta egípcia maior força do Oriente Médio islâmico

Irã vê na revolta egípcia maior força do Oriente Médio islâmico

Atualizado: Terça-feira, 1 Fevereiro de 2011 as 1:59

O Irã espera que os protestos massivos contra o governo egípcio levem ao surgimento de um Oriente Médio mais islâmico que se posicione contra seus inimigos, Israel e os EUA, disse a República Islâmica na segunda-feira. Para o país persa, os protestos populares na Tunísia, no Egito e em outros países árabes são "uma onda de despertar islâmico" que conduzirá a um Oriente Médio mais próximas às ideias e políticas da República Islâmica.     O porta-voz do Ministério do Exterior iraniano, Ramin Mehmanparast, ao manifestar a posição oficial do Irã, disse que os povos do Egito e da Tunísia deixaram as potências estrangeiras "perplexas" ao se levantar contra os governos com apoio americano.

"Com (a região) assumindo uma nova forma e com os novos desenvolvimentos, esperamos conseguir ver um Oriente Médio que seja islâmico e poderoso e também resista aos ocupantes sionistas", disse usando o termo adotado pelo Irã para referir-se a Israel, cuja existência o país não reconhece.

Membro de um Governo autoritário, que restringe as liberdades individuais, Mehmanparast não hesitou em apelar ao cinismo quando exigiu ao presidente egípcio, Hosni Mubarak, que ouça a voz do povo.

"O Irã observa atentamente o que acontece no Egito e espera que os responsáveis desse país ouçam a voz do povo muçulmano e respeitem seus desejos razoáveis. As forças de segurança e a polícia devem evitar qualquer atitude violenta contra essa onda de despertar islâmico em forma de movimento popular nesse país", declarou.

Na sexta-feira, o aiatolá Ahmad Khatami, um dos clérigos com mais poder e influência do Irã, disse:"Àqueles que não querem ver a realidade, vou esclarecer que um novo Oriente Médio está nascendo baseado no Islã, na religião e na democracia, com prevalência dos princípios religiosos."

O Irã está em uma situação de impasse com o Ocidente por causa de seu programa nuclear e vê ganhos para sua influência geopolítica na região caso o presidente do Egito, Hosni Mubarak, forte aliado dos EUA e de Israel, seja retirado do poder.     Setores mais radicais do Irã têm elogiado os protestos no Egito, dizendo que são um eco tardio da Revolução Islâmica de 1979 que derrubou o xá Mohamad Reza Pahlevi, líder apoiado pelos Estados Unidos, abrindo caminho para o estabelecimento de um sistema teocrático muçulmano.

Manifestações no Irã

Apesar de o Irã elogiar as mobilizações no mundo árabe, também teme que o levante no Egito possa reavivar uma instabilidade social contrária ao governo, que abalou o país após a contestada reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, em 2009. A Guarda Revolucionária, unidade militar de elite, reprimiu os protestos de massa contra uma votação que autoridades insistem ter sido a mais correta em três décadas

. Centenas de milhares de manifestantes saíram às ruas durante meses para apoiar as reivindicações da oposição reformista, que denunciou uma fraude em massa na apuração dos votos das eleições presidenciais e exigiu igualmente reformas e liberdades no país.

Na sangrenta repressão, vários manifestantes perderam a vida, enquanto milhares foram detidos sob a acusação de conspirar com potências estrangeiras para derrubar o regime da República Islâmica.

"O regime lava as mãos. Eles veem com gosto a possível queda de governos que acusa de conivência com os EUA e Israel", explicou um analista político iraniano sob condição de anonimato.

"Há 30 anos, houve muitos esforços e gastaram-se muito dinheiro e energia para exportar a Revolução Islâmica ao Oriente Médio, sem resultados visíveis, e agora (o regime iraniano) acredita ver o fruto de suas ambições", disse.

Segundo ele, as autoridades da República Islâmica observam a situação como "um enfraquecimento da influência dos Estados Unidos e do Ocidente na região e, portanto, uma oportunidade para aumentar a influência da República Islâmica".

Opinião da oposição

Mas os políticos da oposição no Irã, motivados pelas cenas de "poder do povo" em Túnis e no Cairo, esperam que as manifestações levem os líderes ultraconservadores iranianos a permitir mais liberdade dentro do país.     O líder opositor Mir-Hossein Mousavi expressou no sábado seu apoio ao povo egípcio e mostrou esperança de que o levante se transforme em um movimento inspirador, que estimule a "queda de todos os regimes opressores".

"Nossa nação respeita, cumprimenta e abraça a revolução da valente nação tunisiana e o direito à revolta dos povos do Egito e do Iêmen. Pedimos a Deus que lhes dê a vitória", afirmou Moussavi.

Seguindo o raciocínio, o ex-ministro comparou os gritos de "Onde está meu voto?" do povo iraniano em junho de 2009 - durante os protestos contra a suposta fraude eleitoral - aos dos egípcios, que atualmente pedem liberdade.

Suas palavras, reproduzidas pelo site "Kalame.com", parecem destacar nas entrelinhas a esperança de que a revolta dos árabes volte a quebrar o medo dos iranianos e a liberar os gritos de liberdade ecoados em 2009.

O analista anônimo, por sua vez, adverte sobre o que ocorreu na Revolução Islâmica de 1979. "Há 30 anos, a oposição laica também saiu às ruas do Irã para reivindicar mais liberdade e democracia, mas no final foram os religiosos que se aproveitaram da conjuntura".    

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