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Jovem que atirou em deputada apresentava sinais de esquizofrenia

Jovem que atirou em deputada apresentava sinais de esquizofrenia

Atualizado: Segunda-feira, 17 Janeiro de 2011 as 11:12

O choque com a tragédia do último dia 8 em Tucson, no Arizona, foi seguido por horror ainda maior nos Estados Unidos: a história de como um rapaz de cabelos encaracolados dedicado ao saxofone e aos estudos e chamado pelos colegas de Harry Porter pôde se transformar no assassino bizarro de seis pessoas. Jared Lee Loughner, de 22 anos, tinha como alvo a deputada democrata Gabrielle Gifford, sua mais recente obsessão. Por trás dessa trajetória estavam os sinais de uma esquizofrenia em evolução e o ambiente sem restrições à venda e ao porte de armas do Arizona.

  "Definitivamente, Loughner é 100% esquizofrênico", afirmou ao Estado Michael Mahoney, autor do livro "Squizophrenia: The Bearded Lady Disease" (Esquizofrenia: a Doença da Mulher Barbada, em tradução livre). "É preciso proibir urgentemente o fácil acesso a armas. Nossas prisões estão se transformando em uma espécie de depósito de doentes mentais", completou.

A defesa de Loughner iniciou na semana passada um minucioso estudo de sua doença como meio de livrá-lo da pena de morte, aplicada no Arizona. A advogada Judy Clarke, líder do caso, pediu também a sua equipe uma pesquisa detalhada do estado psíquico da família de Loughner, inclusive antepassados. Clarke atuou na desafiante defesa dos autores de pelo menos duas outras tragédias nos EUA - Timothy McVeigh, responsável pelo atentado a bomba em Oklahoma (1995), e o "unabomber" Ted Kaczynski.

A esquizofrenia é um transtorno psíquico ainda desafiador para a medicina moderna. Entre as várias teorias sobre sua manifestação, Mahoney trabalha com a da ausência de identidade sexual - daí o nome de doença da mulher barbada. A paranoia quase sempre está associada a esse transtorno, limitador da capacidade do indivíduo de dissociar a realidade da ilusão.

Loughner é filho único do casal Randy e Amy Totman. Assentador de carpetes e restaurador de carros antigos, Randy é tido como um homem soturno. Amy, gerente de um estacionamento, é vista como mais simpática. Nos últimos anos, o casal notou a mudança de comportamento do filho e temeu suas atitudes. O Pima Community College o suspendeu das aulas, em 2010, até que ele apresentasse um relatório sobre sua saúde mental. Por razão ainda não revelada, a família não tomou a iniciativa de submetê-lo a tratamento.

Desde 2006, quando tinha 18 anos, Loughner começou a mudar. Cortou os cachos e sua fascinação por John Coltrane, Miles Davis e Charlie Parker e pelo hip-hop deu lugar ao heavy metal. O saxofone e as aulas na Academia de Jazz do Arizona foram abandonados. Nessa época, foi levado bêbado a uma delegacia, onde a polícia registrou ter ele tomado vodca porque estava aborrecido com uma bronca do pai. Começou a usar maconha, cogumelos e sálvia divinorum, planta com efeitos psicoativos e deixou os antigos amigos. Seu alistamento nas Forças Armadas foi recusado devido ao uso de drogas.

O rapaz tornou-se obsessivo com teorias conspiratórias. Para ele, o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 fora provocado pelo governo americano, o sistema bancário queria escravizar as pessoas e havia censura oficial a livros como "Minha Vida", de Adolf Hitler, e "Peten Pan", de J. M. Barrie. Também demonstrou paranoia em relação à Constituição americana e à gramática inglesa e interesse pela ideia do controle racional dos sonhos. De estudante promissor de matemática, passou a defender que o número 6 pode ser chamado de 18. Por fim, tornou-se agressivo, a ponto de um colega de classe procurar a cadeira mais próxima da porta.

Desde 2007, Loughner mostrava-se obcecado com a deputada Gifford. Em 30 de novembro passado, comprou na Sportsman's Warehouse uma pistola semiautomática Glock 19. Há duas semanas, gastou US$ 14 para tomar um táxi até o estacionamento de um supermercado, onde a parlamentar realizava o "Congresso na sua Esquina". Atirou na cabeça dela, matou seis pessoas e feriu outras 13. Em estado ainda crítico, Gifford mostrava até ontem uma "milagrosa" recuperação, segundo seus médicos.    

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