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Mães reduzem tempo de trabalhos voluntários nas escolas dos EUA

Mães reduzem tempo de trabalhos voluntários nas escolas dos EUA

Atualizado: Terça-feira, 14 Dezembro de 2010 as 10:01

Foi na primavera passada, entre o planejamento da semana dos professores e a organização da festa de formatura da quinta série que Jamie Lentzner, mãe de dois filhos em Foster City, Califórnia, chegou ao seu limite.

Jamie já havia desenhado a camiseta da quinta série, ensinado artes duas vezes por mês a três classes diferentes, organizado a noite do cinema, a noite do restaurante e a noite na praia para arrecadar fundos. Ela estava exausta e com a agenda lotada. Sobrava pouco tempo para ajudar seus filhos com os deveres escolares porque _ por coincidência _ ela estava sempre trabalhando em projetos para a escola. "Você tem que parar", dizia o marido, Darin, temendo que a tensão constante prejudicasse sua saúde.   Lentzner então percebeu que havia perdido o controle. Ela prometeu colocar um fim a todos os trabalhos voluntários _ e resgatar a serenidade em sua vida familiar, que havia desaparecido por causa do desejo bem intencionado de fazer sua parte e ajudar.

Hoje, passados mais de três meses do ano letivo, Lentzner é uma nova mulher. Ela ainda assiste às reuniões de pais e mestres e decora a porta da sala de aula, mas quando viu seu nome listado como presidente da festa do dia dos pais em uma folha de inscrição para voluntários, imediatamente pegou uma caneta e o riscou."Não, eu não estou na lista", escreveu ela.

Seu negócio melhorou _ ela é decoradora de quartos infantis - e em casa a mudança tem sido marcante; sobra tempo para jogar pingue-pongue e Wii com as crianças. "Eu disse ao meu marido que acabou o estresse. Não tenho mais nenhum evento pesando em minha cabeça e não preciso desenhar nenhuma camiseta. Acho que finalmente consegui estabelecer minhas prioridades", afirma ela.

Nos Estados Unidos, há uma grande quantidade de mães altruístas, dedicadas e totalmente esgotadas como Lentzner, que estão criando coragem de recusar os incessantes pedidos das escolas de seus filhos. O que começou como um gesto cívico admirável tornou-se uma incapacidade de dizer não a qualquer atribuição de comissão ou convite para projetos, culminando em compromissos à noite, em fins de semana e depois da escola, trocas de e-mail no meio da madrugada, refeições congeladas, pizzas para viagem e babás em casa.

Muitos pais ficam felizes em se voluntariar sem coação e todos reconhecem o mérito da causa. Mas as necessidades e expectativas estão chegando num momento em que muitos pais têm cada vez menos tempo livre.

"O voluntariado diminuiu bastante este ano na nossa escola ", conta Gary Parkes, presidente da Associação de Pais e Mestres da escola de ensino fundamental Carmel, em Woodstock, Georgia, um subúrbio de Atlanta. No festival de outono da escola alguns jogos tiveram de ser cancelados por falta de supervisores voluntários.

Segundo Parkes, a necessidade econômica obrigou algumas mães a voltarem ao trabalho. "As pessoas estão tão ocupadas procurando se manter, que simplesmente não podem participar como gostariam", diz Parkes, acrescentando que ele ouviu lamentos semelhantes em encontros regionais de pais e mestres. "Este parece ser um problema para muitas escolas."

Parkes resolveu apelar para a criatividade: chamou um grupo de escoteiros para ajudar no festival de outono e convocou o time feminino de atletismo para atender nos quiosques de maquiagem e cabelo maluco . Ele também está negociando com o Corpo de Oficiais da Reserva e com empresas que mantêm programas sociais.

Parte do esgotamento ocorre porque em grande parte das escolas um número pequeno de voluntários fica responsável por quase todos os trabalhos.

Todo mundo reconhece isso, mas as escolas acabam sugando o que podem daqueles que estão dispostos a ajudar. É só pensar no caso de Zan Jones.

Super-heróis

Jones é mãe de duas crianças em Keller, Texas, e trabalha meio turno como assessora de palestrantes profissionais. Neste outono, ela foi co-presidente da Feira do Livro Escolar, um trabalho que levou cinco dias para organizar, mais uma série de reuniões para o evento, além da decoração.

O tema deste ano foram os super-heróis. Jones criou um cartaz com o super-homem que dizia: "É um pássaro, é um avião, é uma feira do livro!". Ela construiu edifícios de caixas de papelão e preencheu a roupa do homem-aranha com papel. Quando acabou, ela ajudou a embalar tudo e levar o dinheiro ao banco.

É muito trabalho _ especialmente porque seus filhos não frequentam mais aquela escola.

No fim do verão, os filhos de Jones, que estavam na terceira e quinta série, foram aceitos em uma escola particular, mas ela se sentia desconfortável em cancelar o trabalho de voluntária na antiga escola. Além disso, a escola estava desesperada por ajuda."Eles ficaram em pânico", conta Jones. "Ninguém falou: ah, não se preocupe com isso. Se falassem, eu provavelmente teria largado tudo".

Ainda assim, Jones insistiu que estava feliz em ajudar e, assim que terminou seus compromissos com a antiga escola, passou a ser voluntária na nova. Ela acompanhou três excursões, trabalhou na biblioteca e ajudou a criar o "centro do cientista maluco" para a festa de Halloween. No entanto, ela admite que pensou em afastar-se.

"Egoisticamente, pensei: Meu Deus, esta é a minha chance de dar um tempo", conta ela. "Posso ir para algum lugar onde ninguém me conhece, ficar em silêncio no meu canto e não me voluntariar. Mas meus filhos realmente gostam que eu faça estes trabalhos. Seus rostos ficam radiantes quando estou lá".   Isso é o que a maioria dos pais pensa - que o trabalho voluntário da escola é feito no melhor interesse de seus filhos. Mas alguns veteranos estão céticos. A epifania de Jen Christensen aconteceu no dia de seu aniversário de 41 anos, em maio de 2009. Ela foi convidada a presidir as comemorações da semana dos professores na escola de seus filhos, em San Mateo, na Califórnia. Para comparecer aos eventos, levantava-se diariamente às 4hs; estava tão sobrecarregada que não encontrou tempo para comemorar seu aniversário.

O pior é que ela havia desistido de trabalhar quando teve filhos para ficar em casa com eles _ e agora precisava deixá-los com babás o tempo todo porque tinha que ir às reuniões da escola.

No outono seguinte, Christensen declarou-se indisponível para todas as solicitações da escola. ''Eu disse: acabou. Eu parei. Não me telefonem. Não me enviem e-mails. Já havia dado muito de mim. Passo 50 horas por semana trabalhando como voluntária. Onde isso vai parar? Será que querem um pouco de sangue? Nem mesmo deixei meu marido assinar um cheque”.

Christensen acrescenta: ''Me senti ótima. Olhei para trás e pude ver o que estava errado e aproveitar a oportunidade que estou tendo. Não preciso trabalhar e poder ficar com meus filhos é realmente o que quero fazer.”

Ela passou a valorizar o simples prazer de ler com o filho de 8 anos, Owen, em sua cadeira especial de leitura. ''Tudo estava mais calmo em nossa casa e acho que todos estavam mais felizes", diz ela.

Mas entre aquelas que pararam de fazer trabalhos voluntários, existe um pouco de culpa. ''Há uma necessidade ", conta Christensen. Seu ano de dizer "não" terminou assim que a escola começou este ano. Mas ela agora está muito longe de ser a super-voluntária do passado.

Christensen concordou em ser a "mãe representante de sala" para a terceira série, o que significa que ficou responsável pelas festas da classe. Além disso, ela aceitou supervisionar um evento para a arrecadação de fundos, mas já está um tanto arrependida: "Como está programado para setembro de 2011, ainda dá tempo de desistir".    

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