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Menina que teve tios mortos pelas Farc quer ser presidente da Colômbia

Menina que teve tios mortos pelas Farc quer ser presidente da Colômbia

Atualizado: Sexta-feira, 9 Dezembro de 2011 as 10:04

“Tenho muitos sonhos. Um deles é ser presidente da Colômbia . Quero acabar com os grupos armados ruins, que massacram a população, e deixar os grupos bons. Porque alguém sempre precisa vencer.” A frase é de Juliana (nome fictício), uma menina de 9 anos que teve o pai recrutado forçadamente para integrar supostamente as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em Tuluá, no Valle del Cauca, na região pacífica do país, e os tios supostamente mortos por paramilitares rivais que acreditavam que a família servia como informante.

Juliana, de 9 anos, teve o pai recrutado para atuar no conflito armado e foi obrigada a fugir com a mãe dentro de um saco de batatas (Foto: Tahiane Stochero/G1) A mãe dela, de 32 anos, desesperada e com medo, teve de abandonar sua casa apenas com a roupa do corpo. Juliana foi colocada dentro de um saco de batatas, onde permaneceu por mais de três dias durante o deslocamento com ônibus e carros até Bogotá. Chegou com muitos temores a Soacha, uma grande favela que abriga “desplazados”, pessoas que fugiram do país inteiro devido aos conflitos e à violência, localizada na periferia de Bogotá.

Crianças, filhos de deslocados internos pela guerra 

na Colômbia, caminham para a escola em Soacha

(Foto: Tahiane Stochero/G1) “Assim que abrimos a escola infantil, fomos às casas para informar as famílias. Foi a Juliana que abriu a porta para a gente. Ela vive cheia de temores, não sai na rua, ajuda na manutenção da casa", diz a coordenadora da escola, Maria Antonieta Plata. A entidade recebe apoio da Agência da ONU para Refugiados (Acnur), que trabalha com deslocados internos na Colômbia.

"Desde que começou o trabalho com outras crianças, Juliana se desenvolveu bastante. É uma criança bem ativa, inteligente, surpreendente. A mãe trabalha como catadora de lixo e também retirando pregos de madeira. Mas está guardando dinheiro para fazer um curso de vigilante privado”, acrescenta a professora.

“Quase não tenho amigos e não gosto de sair de casa porque, onde eu vivia, minha mãe não deixava, devido ao medo de que me matassem ou capturassem. Cansei de ver gente morta nas ruas, com tiros, isso me marcou demais”, acrescentou a garota.

Fran fugiu de Buenaventura para Soacha com a mulher

apenas com mala de roupa após ser jurado de morte

(Foto: Tahiane Stochero/G1) Pedidos de socorro

Na sede da Unidade de Atenção e Orientação ao deslocado em Soacha, uma espécie de escritório para onde os ameaçados correm assim que chegam à cidade, dezenas de pessoas do país inteiro se acumulam logo cedo pela manhã em busca de certidões e carteiras que lhes dão direito a buscar atendimento de saúde em hospitais públicos e também a colocarem seus filhos na escola.

Um deles, com quem a reportagem do G1 conversou horas depois ele chegar a Soacha, é o engraxate e cabeleireiro Fran Kling, de 25 anos, que fugiu apenas com uma mala de roupas da região portuária de Buenaventura, na costa colombiana do Pacífico.

“Os paramilitares invadiram a cidade, estão extorquindo as pessoas, ameaçando. Eles achavam que eu, como andava nas ruas trabalhando, era informante da polícia ou das Farc. Ameaçaram abusar da minha mulher e dos meus filhos, me expulsaram de casa. Tivemos de fugir, se não me matariam”, desabafa ele.

“Antes era diferente, tinha só a guerrilha. Agora tem bandos criminais, os paramilitares, é uma situação de violência insustentável. Muita gente está fugindo de lá”, afirma. “Aqui em Soacha eu só quero ajuda para me firmar e depois procurar um emprego e formar uma nova vida com minha família”, diz.

Eusebio fugiu há 15 anos com medo das Farc e dos 

bombardeios militares onde vivia em Valle del Cauca

(Foto: Tahiane Stochero/G1) Procurado pelas Farc há 15 anos, desde que se mudou para Bogotá fugindo de Valle del Cauca, após terem invadido e tomado a casa de seus familiares, Eusebio Marron (nome fictício), de 39 anos, continua com medo.

Ele vive com a mulher e cinco filhos em Bogotá, onde tenta retomar a vida, e recebe proteção da Afrodes, uma organização não-governamental que recebe apoio da Acnur e que atua junto às populações negras e afro-descendentes na Colômbia.

“Trabalhava no campo até as Forças Armadas começarem a bombardear a região durante o conflito com os guerrilheiros. Nossa família vivia com medo, meus filhos gritavam desesperados quando caíam as bombas. Viemos para a capital porque achávamos que era mais fácil para nos esconder aqui”, relembra ele.

“Ano passado eu voltei para minha cidade, só para ver em que situação estava nossa casa, a vida por lá, para verificar se era possível voltar a morar. Mas o conflito continua, a violência é grande, e ainda temos medo. Fiquei dois dias e voltei para Bogotá, porque ainda há riscos para minha família”, afirma Eusebio.

Soacha é o local que mais recebe desplazados, como

são chamados os deslocados internos pelo conflito

na Colômbia(Foto: Tahiane Stochero/G1) Eusebio, assim como milhares de “desplazados” da Colômbia, aguardam o andamento da Lei das Vítimas e Restituição das Terras, sancionada pelo presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, em junho. A lei prevê compensações e devoluções de terra a mais de 4 milhões de pessoas que tiveram que deixar suas casas devido aos conflitos no país.

A Acnur e a ONU estão apoiando esse projeto do governo para que ocorra a devolução de lotes para os deslocados, garantindo que consigam retomar o trabalho no campo com segurança. A devolução será feita por direito adquirido e por grupos de famílias, e o processo ainda está em andamento, segundo o governo colombiano.        

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