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Meu pai foi um herói, diz filha de piloto morto em sequestro de avião

Meu pai foi um herói, diz filha de piloto morto em sequestro de avião

Atualizado: Terça-feira, 6 Setembro de 2011 as 2:10

A psicóloga Wendy Fernandes Evangelista tinha 8 anos quando o pai, o copiloto Salvador Evangelista, foi morto durante o sequestro do voo 375 da Vasp, que fazia o trajeto Belo Horizonte-Rio de Janeiro e levava 135 passageiros e mais oito tripulantes a bordo.

Evangelista levou um tiro na nuca quando o sequestrador, o maranhense Raimundo Nonato, invadiu a cabine do Boeing disposto a jogar a aeronave sobre o Palácio do Planalto - 13 anos antes dos atentados terroristas do 11 de Setembro.

    “Meu pai, com certeza, foi um herói, pois morreu para salvar a vida de dezenas de pessoas que estavam a bordo daquele avião. Ele morreu fazendo o que amava, que era voar”, diz Wendy, que hoje tem um filho de 2 anos e mora em Curitiba.

Após o ataque do sequestrador, o comandante do voo, Fernando Murilo de Lima e Silva, conseguiu colocar no transponder o código de alerta internacional para sequestros. A torre de controle de Brasília chamou a cabine para confirmar se era verdade, e o copiloto levou um tiro quando pegava o rádio para dar o retorno.

Wendy com o pai, o copiloto Salvador Evangelista, na cabine de um Boeing na

 década de 80 (Foto: Arquivo pessoal)

  “Acho que a torre adotou aquele procedimento porque nunca havia ocorrido algo semelhante. Meu pai não reagiu, apenas tentou dar um retorno para os controladores, que acreditaram que a cabine havia se enganado”, acredita ela.

“Lembro que eu voava sempre com ele na cabine. Em uma virada de ano em que ele estava voando, decidi lhe acompanhar, para que ele não passasse sozinho. Naquela época, um sequestro como aquele era inimaginável”, diz. Wendy lembra que ficou sabendo da morte do pai apenas no dia seguinte ao fato, pois ninguém queria lhe contar.

Além de Salvador, que foi morto no sequestro, o comandante Murilo levou um tiro na perna e outro copiloto, que viajava como passageiro, também foi ferido quando tentou impedir a entrada de Raimundo Nonato na cabine. Murilo é amigo pessoal da família de seu copiloto e é padrinho do primeiro filho de Wendy, uma menina. Os dois perderam contato com o outro copiloto, que  há anos trabalha na China.

Indenização

Em 24 de junho de 2011, passados 23 anos da tragédia, a Justiça condenou a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) a pagar a compensação por dano moral pela morte em R$ 250 mil. A jovem já havia obtido decisão favorável em primeira instância, mas a Infraero havia recorrido até ser condenada em segunda instância.

“Este dinheiro, quando vier para a nossa família, será para eu comprar uma casa e colocar no nome dos meus três filhos, pois não temos casa própria. Será a herança que ficará para eles. Eles só conhecem o avô por fotos, sabem que o avô Salvador dirigia avião e que morreu fazendo o que gostava”, afirma Wendy.

A Infraero informou, em nota, que recorreu da decisão e aguarda julgamento do caso por parte do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Na época do fato, segundo a nota, “as ações de segurança pertinentes não eram de responsabilidade da Infraero, conforme preconizavam as normas internacionais de aviação civil”.

Passageiros deixam avião sequestrado em 1988

(Foto:Reprodução/TV Globo)

  Hoje, a empresa diz que os aeroportos brasileiros operam de acordo com padrões internacionais de segurança e receberam boas avaliações nas auditorias e visitas técnicas de órgãos como a Organização da Aviação Civil Internacional (Oaci).

Aeronáutica muda procedimento

Atualmente, quando uma aeronave informa o código de interferência ilícita (sequestro), os controladores não fazem contato para confirmação, como ocorreu com o voo da Vasp, devido ao risco para os pilotos, informou a assessoria da Aeronáutica. O aeroporto onde o avião deverá pousar e a Polícia Federal são alertados da suspeita, para que estejam preparados para eventuais ocorrências e, em terra, a aeronave passa por uma inspeção.

Após o voo 375 da Vasp, não houve nenhum outro sequestro de avião com passageiros no Brasil, diz o Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Comdabra). Em 2010, dois aviões de pequeno porte colocaram o código de sequestro no transponder, provocando preocupação em todo o sistema de segurança aéreo. Neste ano também houve um caso. Mas, minutos depois, os pilotos retiraram o alerta. A suspeita é de que o código tenha sido colocado de forma incorreta e não intencional pelos pilotos, pois os sequestros não foram confirmados.          

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