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Na África, médico diz que pobreza e ignorância matam mais que o Ebola

Fonte: UOL Atualizado: terça-feira, 2 de setembro de 2014 15:09
19.ago.2014 - Faixa é colocada em frente ao hospital em Kenema, no leste de Serra Leoa, em homenagem a Sheik Humarr Khan, médico que estava trabalhando no combate do Ebola e acabou morrendo vítima do vírus
19.ago.2014 - Faixa é colocada em frente ao hospital em Kenema, no leste de Serra Leoa, em homenagem a Sheik Humarr Khan, médico que estava trabalhando no combate do Ebola e acabou morrendo vítima do vírus

Javier Atienza chegou à selva de Serra Leoa "com a roupa do corpo". Tinha feito uma mala para deixar a Espanha em 14 de julho passado, mas logo percebeu que, mais que roupa, precisava levar medicamentos e material cirúrgico. Era com certeza do que mais precisaria no próximo destino: um dos países mais atingidos pelo ebola. "A carência é absoluta. Não há água nem luz, muito menos remédios", conta o médico em uma das pequenas aldeias de Kamabai.

Atienza é um dos 36 espanhóis presentes em Serra Leoa, um dos países com menos médicos no mundo: 0,2 para cada 10 mil pessoas. Na Espanha o número chega a 39,6, segundo o Relatório sobre Desenvolvimento Humano de 2014. "Mais que o ebola, o que mata são a pobreza e a ignorância juntas. É muito difícil explicar que cuidados devem ter", acrescenta o médico de Vallidolid especializado em cirurgia geral e digestiva. A média de escolaridade é de 1,6 ano. Muitos preferem procurar curandeiros, entre outras razões porque são mais baratos.

Só dois hospitais têm autorização para tratar casos confirmados de ebola: um em Kenema e outro em Kailahun, no leste do país. Mas em Kamabai, no norte, há outro tipo de doentes, os que Atienza atende. "Temos um compromisso com pacientes que já tínhamos tratado. Como se pode dizer a um menino queimado que não pode mais vir?", pergunta Atienza, 30 anos, que até maio trabalhava no Complexo Hospitalar Universitário de A Coruña (Galícia). Pensava em ficar dois meses, mas mudou de opinião: não partirá até que o surto esteja controlado. Seu próximo destino é Freetown, onde vai colaborar com a ONG italiana Emergency.

Na capital também trabalha a espanhola da Galícia Marta Lado, coordenadora do projeto de cooperação que o King's College de Londres executa em Connaught, o maior hospital público de Serra Leoa. As carências fazem parte do dia a dia. Um exemplo: se um doente chega ao pronto atendimento, sua família deve ir primeiro a uma farmácia comprar de tudo, desde medicamentos até sondas. Isso ocorre com todos os pacientes, menos aqueles que apresentam sintomas de ebola. "É um absurdo", admite a médica internista especializada em doenças infecciosas e tropicais. Eles são encaminhados a uma zona de isolamento na qual não devem pagar pelo serviço.

O Ministério da Saúde de Serra Leoa – ao qual Lado também assessora – decidiu que todos os centros de saúde acondicionem uma sala para casos supeitos. A realidade é diferente. "No papel tudo é bonito, mas o sistema de saúde é muito básico e a única zona de isolamento que funciona 100% é a de Connaught." A sala – com apenas 13 leitos em um hospital de 500 – costuma ficar cheia, ainda mais se o laboratório demorar para entregar os resultados. Alguns pacientes esperam dois ou três dias só para saber se têm o vírus.

Para Lado, no país não há uma cultura de procurar um hospital, principalmente porque a medicina é paga, inclusive a pública. Só para que abram uma ficha de internação o paciente tem de pagar 15 mil leões, cerca de 3 euros, "que podem ser o salário de toda uma família", diz Lado, de 35 anos, que tem uma licença do hospital de Torrejón (Madri). Já havia trabalhado em países com Tanzânia, Uganda e Camarões, mas reconhece que é a primeira vez que enfrenta uma doença como o ebola, "em um sistema sanitário tão frágil como o de Serra Leoa". Chegou a Connaught em 17 de março passado e ali foi surpreendida pelo surto. "As necessidades são enormes, sem pessoal nem medicamentos, sem protocolos nem infraestrutura."

É o mesmo panorama que retrata a enfermeira Pino González, coordenadora do projeto de emergência pelo ebola da Médicos do Mundo. Desde julho ela trabalha no distrito de Koinadugu, no norte de Serra Leoa, concretamente em trabalhos de prevenção. As longas distâncias, as dificuldades de transporte e o isolamento na época das chuvas complicam as tarefas, comenta González, que nasceu há 33 anos em Las Palmas (Canária).

A organização trabalha no terreno desde que começou a epidemia, mas concentrou seu trabalho na prevenção da doença. González se encarregou, por exemplo, de capacitar o serviço distrital de saúde. A formação é dada basicamente para que saibam identificar a doença, como tratá-la e, sobretudo, como aplicar os produtos de prevenção. Não é um tema menor, levando em conta que há médicos que fugiram dos hospitais porque consideraram que não tinham condições de enfrentar a epidemia. Cerca de 120 profissionais de saúde morreram por causa do vírus. Ninguém quer ser o próximo.

 
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