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Na Romênia, psicóloga resgata jovens vítimas de tráfico sexual

Na Romênia, psicóloga resgata jovens vítimas de tráfico sexual

Atualizado: Terça-feira, 26 Outubro de 2010 as 10:10

Uma jovem de 15 anos foi “treinada” para a prostituição em um clube noturno na cidade de Calarasi, sul da Romênia. Agora, os traficantes sexuais se preparam para vendê-la a um bordel turco por US$ 2.800.

Iana Matei, a principal defensora das vítimas de tráfico sexual na Romênia, entrou em contato com a menina e se ofereceu para esperá-la em frente ao clube, dentro do carro, pronta para levar a adolescente embora de lá, caso ela conseguisse sair à rua para fumar um cigarro. Ela já havia tentando escapar anteriormente, tendo sido fortemente espancada por isso. Matei não tinha certeza se a garota teria coragem de tentar novamente.   A jovem então apareceu. Ela correu até o carro e se jogou no banco traseiro. Minutos depois, veio o problema. Iana acelerou o carro pelas ruas estranhas, com medo de que os traficantes a estivessem seguindo, mas acabou se perdendo completamente.

“Gritei e pedi que ela me dissesse para onde ir”, conta Matei. “Ela não ajudou muito, eu também não fui muito gentil. Então parei o carro, olhei para trás, e o rosto que vi... percebi que a idiota era eu. Ela estava tão assustada que não tinha como me ajudar”.

Há mais de dez anos essa psicóloga tem tirado jovens das mãos dos traficantes sexuais; algumas vezes realizando “sequestros” e outras simplesmente oferecendo a elas um lugar para ficar, curar seus traumas e reconstruir suas vidas.

O tempo não diminuiu sua indignação. Até alguns anos atrás, o abrigo de Matei era o único na Romênia destinado às vítimas de tráfico sexual, embora o país seja há décadas um centro de comércio de jovens mulheres. Ela conta que muitos romenos consideram as jovens nada mais do que prostitutas.

“Elas são vítimas”, afirma Matei. “Elas são muito novas para serem qualquer outra coisa”. Quase sempre vindas de famílias pobres, nas quais foram vítimas de abusos, essas jovens às vezes são vendidas pelos próprios pais. Algumas são atraídas para outros países com promessas de emprego e casamento. Mas, assim que saem da Romênia, elas viram propriedade de gangues e ficam presas em bordéis, ou são obrigadas a se prostituir nas ruas.

Matei não disfarça seu desgosto em relação aos sistemas legais do mundo todo, que não tratam o tráfico sexual com a devida seriedade.

“Quando esses caras são pegos, qual é a pena deles? Seis anos de prisão? Talvez. Eles destroem 300 vidas e ficam seis anos na cadeia. Quem pratica tráfico de drogas é condenado a 20 anos. Há algo de errado nisso”.   Alguns dias atrás, Matei se hospedou em um pequeno hotel na periferia de Constanta para cuidar de duas jovens de seu abrigo, em Pistesi, que iriam participar de um filme sobre o tráfico sexual, produzido pelo diretor romeno Cristian Mungiu. Mungiu foi aclamado pela crítica há três anos pelo filme “4 meses, 3 semanas e 2 dias”, que fala sobre o aborto na época final do regime comunista.

Enquanto aguardava pelas jovens, Matei fumava um cigarro atrás do outro, levantando-se de vez em quando para cuidar dos gêmeos de três anos adotados por ela recentemente. Os gêmeos são filhos de uma vítima do tráfico sexual, que os abandonou.

“Algumas pessoas me dizem que as crianças têm muita sorte por estarem comigo”, diz Matei. “Mas, na verdade, sou eu quem tem sorte. Eles são a minha alegria”.

Aos 52 anos de idade, Matei parece ter a energia de uma adolescente, e é tão irreverente quanto uma jovem.

“Eles oferecem dez dias para a 'reintegração'”, diz ela, referindo-se aos recentes esforços do governo romeno no sentido de fornecer abrigos às vítimas do tráfico sexual. “Isso é muito bom, você não acha? Dez dias”.

Segundo Matei, a maioria das jovens que chegam ao abrigo, onde podem ficar por até um ano, se encontram em péssimo estado. “Elas não se sentem mais normais e encontram dificuldades até para se vestirem. Não são capazes de escolher suas roupas e perguntam se escolheram o tamanho certo”, diz ela.

Algumas vezes os traficantes sexuais apareceram no abrigo de Matei – uma casa simples em um bairro residencial, protegida por uma cerca alta – e tentam levar as garotas de volta. Ela conta que certa vez resolveu confrontá-los na rua estreita em frente a sua casa, usando o carro para bloquear o veículo deles.

“Depois, fiquei me perguntando o que eles devem ter pensado”, diz Matei. “Lá estava eu, uma velha loura e baixinha, gritando como louca. Eu tive muita sorte de a polícia ter aparecido logo”.

Matei começou a vida achando que seria designer gráfica. Ela se casou, teve um filho e depois se divorciou.

Em 1990, quando a Romênia emergia do comunismo, Iana Matei participou diariamente de protestos de rua. Certo dia, quando a polícia chegou, ela deixou sua bolsa cair em meio à confusão. Na manhã seguinte, ligou para sua casa e descobriu que polícia já havia estado lá.

Foi assim que Matei decidiu fugir do país. Ela caminhou sozinha pelas margens de um rio que corre em direção à antiga Iugoslávia, andando durante a noite e descansando quando chegava o dia. Ela acabou conseguindo levar consigo seu filho e foram para a Austrália, onde se formou em psicologia e trabalhou com crianças de rua.

Porém, em 1998, depois de levar o filho à Romênia para passar um feriado, Matei decidiu voltar ao país e continuar o trabalho com crianças de rua. Em seguida, a polícia lhe telefonou para pedir o favor de levar ao médico três prostitutas que tinham acabado de ser presas. Depois da visita ao médico, ela poderia liberar as mulheres.

“Eu estava irritada até chegar lá e ver as garotas”, conta Matei. “O rímel escorria por todo o rosto. Elas tinham chorado muito. Os jornalistas estiveram lá e fizeram com que elas posassem para fotos. Embora as jovens fossem menores de idade, com 14, 15 e 16 anos, ninguém se importou com isso”.

Uma das garotas estava grávida. Segundo Matei, todas ficariam internadas no hospital por três semanas e depois disso o serviço de assistência a menores não se envolveria mais no caso.

“Eu acabei conseguindo um apartamento para abrigá-las, e mais garotas começaram a chegar”, diz ela. “Foi assim que tudo começou”.

Com o passar dos anos, Matei conseguiu alguns financiamentos, após apelar para embaixadas de diversos países. No momento, o abrigo é mantido pela instituição americana “Make Way Partners”, de Birmingham, Alabama, que combate o tráfico de pessoas. Porém, na verdade Matei gostaria que o abrigo fosse auto-sustentável. Ela tem a ideia de criar um hotel, no qual as jovens possam receber treinamento profissional.

Enquanto isso, Iana Matei continua seu trabalho. Mais de 400 garotas já passaram pelo abrigo e a maioria delas ainda mantém contato. As três adolescentes da delegacia atualmente estão casadas e têm filhos.    

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