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No Iraque invadido, comunidades passam a sobreviver do lixo

No Iraque invadido, comunidades passam a sobreviver do lixo

Atualizado: Quinta-feira, 27 Janeiro de 2011 as 9:41

Na base da economia do Iraque, a vida gira em torno de um produto bem simples: o lixo.

Hamad Tarish largou no chão um saco de latas e pedaços de metal e mostrou suas mãos encardidas, que raramente são lavadas em água corrente. Para Tarish, de 22 anos, o lixo é o sustento. Todas as noites, por volta das 3h, ele sai de casa para catar lixo em um bairro da zona sul da cidade, antes da chegada dos caminhões de coleta, apressando o passo para evitar a polícia e a competição com outros catadores.

Para Tarish, que geralmente ganha cerca de US$ 4 (R$ 6,50) por dia, esta foi uma boa coleta. "Pode ser que amanhã não seja tão bom, a gente nunca sabe", diz ele, com os olhos vermelhos e o corpo exausto. "Um quilo de carne custa US$ 15 (R$ 25). É impossível. Não consigo nem comprar açúcar para o chá.”

  Enquanto a economia do Iraque definha, Tarish sobrevive em uma economia de submundo que sustenta e organiza bairros inteiros. Junto com ele, estão seus companheiros, soldados de um novo mercado - os catadores noturnos, os intermediários que compram a sucata pagando alguns centavos o quilo, as carroças que transportam o lixo dos bairros mais distantes da cidade. Em torno deles, há pilhas e pilhas de lixo, separado por tipo e rodeado de moscas.

"As pessoas aqui estão vivendo à base do lixo e dos animais", relata Ali Hasun, de 27 anos, um intermediário, mostrando o vasto horizonte de barracos improvisados - uma cidade de médio porte se sustentando com refugos.

Hasun é pai de quatro filhos. Como outros catadores, ele disse que gostaria de ter um emprego fixo, mas não consegue encontrar. Em alguns dias ele ganha até US$ 20 (pouco mais de R$ 33). Em outros, nada.

"Antes, sentíamos vergonha que outras pessoas nos vissem comprando lixo. Somos jovens e nos importamos com nossa aparência. Mas depois de um tempo você se esquece de tudo", diz ele. "Além disso", acrescentou enquanto observava ao redor, "todo mundo está fazendo a mesma coisa".       Hasun e Tarish vivem em uma grande favela chamada Naser City, ou Cidade da Vitória, um dos vários acampamentos que se espalharam ao redor de Bagdá desde a invasão dos Estados Unidos em 2003. Naser City cresceu exponencialmente por causa das ondas de violência sectária que expulsaram populações de outras áreas e, mais recentemente, porque o desemprego tem forçado as pessoas a abandonar suas casas. Como Bagdá enfrenta o problema da falta de moradias, esses acampamentos - onde a terra é grátis, mas ilegal - não param de crescer.

Os moradores de Naser City acreditam que cerca de 500 mil pessoas vivem aqui, mas é apenas uma estimativa. O governador de Bagdá estima que 600 mil pessoas vivem em 42 acampamentos - o equivalente à população de Boston. Entretanto, em um país sem censo, onde poucos departamentos do governo se aventuram a entrar nas áreas ocupadas, isso significa mais uma adivinhação do que um fato.

"Essas pessoas precisam catar lixo porque não há oportunidades de trabalho", afirma o governador Salah Abdul-Razzaq.

Segundo ele, como as comunidades não são legais, o governo não pode fornecer serviços como educação, assistência médica, segurança, energia elétrica e saneamento básico. "Os bairros se transformam em esconderijos de criminosos, ladrões, terroristas e sequestradores. Mas não podemos removê-los por não haver outras alternativas", explica ele.

Em 2005, Thijel Ebrah, de 58 anos, mudou-se para Naser saindo de Amara, uma cidade ao leste de Bagdá, no auge da violência sectária na região. Ele não conseguia encontrar emprego em Amara e a situação era ainda pior em Bagdá.

Ele parou diante da casa de alvenaria de dois cômodos que construiu em um terreno desocupado, onde vive com sua esposa e cinco filhos. Três deles precisam andar até uma escola fora do acampamento e dois catam lixo para ajudar a sustentar a família. Eles cozinham e aquecem a casa queimando lenha, pois o óleo custa caro. Quando não há madeira eles se enrolam em cobertores. O esgoto a céu aberto corre em frente à casa.

Segundo Thijel, a parte mais difícil é mandar seus filhos catarem lixo."Tenho medo de que um dia eles não voltem", diz ele. "Quando saem de manhã, fico com medo. Mas se saem à noite, é pior. As forças de segurança os veem mexendo no lixo e pensam que estão escondendo explosivos. Vivíamos com a injustiça durante o governo de Saddam, mas agora está pior", desabafa. "O governo não faz nada."

Para os catadores, o trabalho tem seus códigos. Os acordos informais existem para impedir que as pessoas disputem territórios. O importante é ser rápido.

"Há dois turnos", explica Kareem Karar, 16, que mora em um acampamento no subúrbio de Sadr City, enclave xiita de Bagdá. "As pessoas levam o lixo para fora no fim da noite e no começo da tarde. Tudo depende da hora que você sai e do quanto pode ser rápido."

As latas são mais abundantes nos dias quentes de verão, quando as pessoas costumam beber mais. Feriados como o "Id Al-Fitr", no fim do Ramadã, também são bons. "Eu tenho mais sorte durante o Id, quando as pessoas jogam mais lixo fora", conta ele.

Por enquanto, o lixo é abundante, pois as equipes de limpeza não conseguem dar conta da quantidade. Mas isso está mudando. Um dia desses, Haider Saad, de 23 anos, encontrou seu terreno limpo. "O caminhão de lixo passou à meia-noite, em vez de vir pela manhã", disse ele, olhando desesperado para a rua limpa.

O prefeito de Bagdá, Saber Al-Essawy, explica que a cidade planeja acionar todas as equipes de limpeza durante a noite e está construindo dois centros de reciclagem. "No futuro, essas pessoas terão que encontrar empregos", diz ele. "É o que queremos, pois elas representam algo ruim para nossa sociedade.”

Saad não recusou o desafio. "O caminhão de lixo é nosso maior inimigo", disse ele.

Depois, seguiu em frente. Para os catadores, não há descanso.    

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