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Obama não deixará de proteger Israel, diz especialista

Obama não deixará de proteger Israel, diz especialista

Atualizado: Quinta-feira, 8 Janeiro de 2009 as 12

O professor José Flávio Sombra Saraiva, titular de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), disse na última quarta-feira, dia 7 de janeiro, que não acredita em uma mudança de comportamento dos Estados Unidos em relação a Israel após a posse do presidente eleito Barack Obama, que ocorrerá no próximo dia 20.

"Enquanto os Estados Unidos puderem conceder carta-branca a Israel, manterão essa política. Há uma espécie de substrato na questão Israel-Palestina, que é a forte presença dos judeus-americanos na política externa israelense. Isso não mudou no governo Bush, e não mudará muito no governo Obama, porque isso é uma força econômica e política muito importante, e que é uma dimensão fundamental da política externa americana", destacou o professor.

"Daí mesmo termos observado a grande resistência do presidente Obama em declarar alguma coisa. Ele declarou quando não tinha mais saída", considerou.

"Há uma longa história, de 60 anos, que emerge do fato de que a criação do Estado de Israel não foi acompanhada pela criação do Estado palestino. Essas eram as duas nações que lá existiam e continuam a co-existir. Essa foi a deformação jurídica do sistema internacional no pós Segunda Guerra Mundial - que resolveu o problema da diáspora judaica, mas não resolveu o problema da diáspora palestina. Então há esse ir e vir, de uma história de escalada de violência que aumenta e diminui ao longo de seis décadas, com conflitos que vão se sucedendo uns aos outros", lembrou o professor Saraiva.

O professor ainda comentou que, dificilmente, o Brasil assumirá uma presença importante para a discussão de um processo de paz para a região. "O Brasil tem uma presença internacional que vem crescendo, muito importante. Está na frente dos países emergentes, tem já seu front diplomático aqui na América do Sul, o que já é suficientemente complexo e, evidentemente, junta-se às visões e às forças racionais convocando a paz e sugerindo um encaminhamento satisfatório para a matéria. Mas o Brasil não é um ator predominante no Oriente Médio, que é uma área das grandes potências, é uma área das ex-metrópoles, e uma área de forte inflexão desde a Guerra Fria, especialmente nas questões Irã-Rússia-China e Estados Unidos, é uma área com modesta contribuição nossa", explicou.

O endurecimento no uso da força por parte de Israel, na opinião do professor Saraiva, é o que há de novo em um conflito que já passa dos 60 anos entre judeus e palestinos. Para ele, Israel não quer repetir o que ocorreu com o Hezbollah, no Líbano, que saiu fortalecido internamente após o conflito, ocorrido há um ano e meio.

"Israel recolheu uma lição da recente escalada de violência do norte do país, que foi o conflito no Líbano, no ano passado. A vitória militar não significou a vitória política. O Hezbollah, no Líbano, está mais forte do que antes do conflito", analisou. "Agora há uma determinação, sobretudo em setores mais da direita israelense, de aniquilar de fato os setores mais radicais dos palestinos, que é, evidentemente, o Hamas", destacou.

O recrudescimento das ações militares israelense e a ascensão de forças mais conservadoras no Estado de Israel, na opinião de Saraiva, tornam ainda mais distante uma situação de paz mais duradoura para a região. Para ele, a ofensiva sobre a Faixa de Gaza é apenas mais um capítulo de uma "guerra sem fim".

"O que pode ocorrer é uma espécie de paz precária, que substitui essas fases de conflito. Não vejo uma saída duradoura. Não vejo uma paz segura, senão acomodações políticas até o segundo capítulo. Vejo que o momento agora é de baixar a escalada de violência e reduzir as mortes. Não vejo nenhuma força política entre as partes e nem de fora da região capaz de construir o diálogo suficiente para o entendimento", considerou.

"Há aspectos que são de continuidade, de um velho conflito, uma espécie de dejà vu, que vai e volta, e aspectos novos, inéditos, como quase sempre nesses casos. São primos, todos eles, e parece que há um conceito político de que a paz é essa, a paz é o ir e vir do conflito, é uma forma de conviver, e há também a solução de que a liberdade de um grupo é a exclusão da liberdade do outro, portanto uma enorme dificuldade de cultura política, de co-habitação e de existência", comentou.

Saraiva lembrou o incentivo à formação do Hamas dado pelos Estados Unidos, com o objetivo de se ter uma força no Oriente Médio, capaz de fazer frente ao grupo Al-Fatah, uma força mais orgânica, liderada pelo falecido Yasser Arafat, que chegou a ser presidente da Autoridade Palestina. "O Al Fatah tinha uma capacidade política maior de mover a sociedade internacional. Contra o Hamas reside o fato de que abrigaria terroristas suicidas e uma linha mais radical", explicou o professor Saraiva.

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