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Os árabes e o fim da vitimização

Os árabes e o fim da vitimização

Atualizado: Quinta-feira, 3 Fevereiro de 2011 as 11:17

Uma boa maneira de medir a imensa distância percorrida pelo mundo árabe desde o mês passado é avaliar a principal questão que ficou de fora do debate: Israel. Durante muito tempo, o conflito israelense-palestino constituiu o grande diversionismo, explorado por autocratas árabes ineptos para distrair a atenção de populações empobrecidas. Nenhum desses líderes jamais se preocupou em visitar a Cisjordânia, mas isto não os impediu de defender a causa palestina, até mesmo quando a Justiça era pisoteada em seus próprios países.

Agora, os árabes estão refletindo sobre as próprias injustiças. Com enorme coragem declararam: "Basta!" A grande guinada está ocorrendo na mentalidade passiva do mundo árabe. Trata-se de uma imensa passagem de uma cultura de vitimização para outra de autodeterminação, de uma cultura da conspiração para outra de construção. É um longo caminho da ira à responsabilidade, da humilhação à ação.

O terrorista suicida muçulmano dirige a sua fúria para o que percebe como um inimigo externo. A autoimolação, a fagulha desse amplo levante pan-árabe, revela o mesmo desespero, mas dirigido para dentro. O bode expiatório externo é substituído pelo culpado árabe interno.

A mudança não se dará da noite para o dia. E não se dará sem sofrimento. Os árabes, porém, já decidiram - e os EUA deverão apoiá-los inequivocamente. O presidente egípcio, Hosni Mubarak, está acabado. É apenas uma questão de tempo. Não surpreende que o governo do presidente Barack Obama esteja sugerindo uma "transição ordenada".

Evidentemente, há riscos. Sempre há riscos na mudança. Mas nada no genoma árabe diz que a democracia, a liberdade e a mera decência são inatingíveis. Lembremos que Mohamed Atta, o líder dos ataques de 11 de setembro de 2001, era originário do Egito. A imensa maioria dos sequazes de Atta pertencia a outra autocracia árabe, respaldada pelos EUA, a Arábia Saudita. Eles não saíram do Irã, do Líbano ou da Faixa de Gaza.

O presidente George W. Bush estava certo, em 2003, quando disse: "Enquanto o Oriente Médio continuar sendo um lugar em que a liberdade não floresce, permanecerá um lugar de estagnação, ressentimento e violência para exportação." Sua secretária de Estado, Condoleezza Rice, também estava certa ao observar que os EUA, ao promoverem a "estabilidade" - entenda-se as autocracias - permitiram "que debaixo dela crescesse uma forma maligna e cancerosa de extremismo".

No entanto, Bush e Condoleezza foram os autores da invasão do Iraque. Isto destruiu sua credibilidade no que se refere à libertação dos árabes. Seu programa de imposição da democracia no Oriente Médio não foi a lugar nenhum. Mas, surgido espontaneamente, é ainda o objetivo certo.

Um estudo realizado em 2008 pelo Centro de Combate ao Terrorismo de West Point mostrou que 60% dos combatentes da Al-Qaeda no Iraque eram de origem saudita ou líbia. Mais uma vez, o trabalho dos déspotas árabes que procuram um álibi.

Epicentro. Falei em riscos. O Egito não é a Tunísia. Ele é o epicentro do mundo árabe. Ele se denomina "a mãe do mundo", apoia os interesses dos EUA, é uma grande nação que selou uma paz fria com Israel. O rumo que tomará agora será crucial para a região.

Os argumentos dos que afirmam que é "melhor o diabo que a gente conhece" são claros. Mohamed ElBaradei, o líder da oposição egípcia, vencedor do Prêmio Nobel da Paz, tem uma imensa estatura, mas não dispõe de uma organização. A Irmandade Muçulmana, islâmicos que odeiam Israel, preencherão o vácuo. Eis no que dá a democracia árabe: o Hamas em Gaza, o Hezbollah no Líbano e o caos no Iraque. Vão querer isso à maneira egípcia?

São argumentos superficiais, como a Tunísia, com sua revolução totalmente não islâmica, acaba de demonstrar. E como a democracia turca mostra e a restrição egípcia sugere. Eles só perpetuam a disfunção do Oriente Médio. Eles ignoram a enorme influência dos EUA sobre o Egito como uma força moderadora crucial - e a rápida emergência de ElBaradei como unificador.

Sim, a democracia iraquiana é confusa, mas se revelará mais saudável do que a tirania de Saddam Hussein. Um primeiro-ministro que tem o apoio do Hezbollah acaba de subir ao poder no Líbano, mas por um processo constitucional - e a vida continua.

A experiência palestina em matéria de democracia se demonstrou fonte de cisões, mas também produziu, na Cisjordânia, exatamente a cultura da vitimização e da paralisia que os outros árabes agora estão seguindo.

Na realidade, com a economia em grande expansão e com a implementação de instituições, a Cisjordânia é um exemplo do nascimento do mundo árabe. E seria muito mais se Israel ajudasse, em vez de bloqueá-lo e de criar obstáculos. Não se poderá construir nada de bom sobre a falsa premissa do absolutismo árabe com suas décadas de desperdício. É este o irrefutável argumento da mudança.

Teerã. As imagens do Cairo em 2011 me lembraram Teerã em 2009, quando outra nação muçulmana repressiva - mas não árabe - se encontrava numa gravíssima situação.

Henry Precht, autor e ex-diplomata americano, apontou duas diferenças. Cerca de 40% dos egípcios ganham menos de US$ 2 ao dia, muito mais do que no Irã. E as mulheres iranianas são muito mais presentes nas universidades, a escolaridade é muito maior no Irã e a taxa de fertilidade menor. Como escreve Precht: "A política iraniana, embora muito equivocada, oferece mais elementos para a democracia do que o Egito."

Esses são talvez alguns indícios do motivo pelo qual a República Islâmica se mostrou mais resistente do que o Egito de Mubarak parece ser hoje. No entanto, os governantes paranoicos do Irã tremeriam com o poder do povo egípcio.

Um governo representativo no Egito - cujas dores de parto, acredito, estamos testemunhando neste momento - algum dia falará de Israel e, talvez, se mostre menos propenso a se deixar plasmar pela vontade dos EUA. No entanto, terá uma mensagem vital, tanto para árabes quanto para israelenses: a vitimização é contraproducente e paralisante, mas pode ser derrotada.    

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