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Os problemas da Itália vão muito além de Berlusconi

Os problemas da Itália vão muito além de Berlusconi

Atualizado: Quarta-feira, 13 Outubro de 2010 as 8:58

Nos últimos anos, a política italiana tem aparecido nos noticiários internacionais por causa das incontáveis gafes e escândalos de Silvio Berlusconi. O espetáculo de baixezas se repetiu na mais recente crise do governo, na qual o presidente da câmara dos deputados, Gianfranco Fini, e seus seguidores romperam com o movimento Povo da Liberdade, do premiê.

À bufonaria e ao sexismo de Berlusconi junta-se agora a blasfêmia, depois que o primeiro-ministro usou a expressão religiosa mais ofensiva do idioma italiano - levando à hipócrita indignação da oposição e à condenação por parte da igreja, setor que há muito ele tenta atrair com suas opiniões a respeito da eutanásia e do aborto.

A personalidade de Berlusconi, metade animador de cruzeiro marítimo e metade um empresário megalomaníaco (suas duas vocações anteriores), monopoliza a política italiana por mais de 15 anos. Chamando a atenção para seu comportamento, em vez de suas propostas, e obrigando a oposição a duelar em um terreno da mídia que ele domina, o deslize de Berlusconi quase pode ser visto como uma estratégia de despiste, evitando todo o debate a respeito do país e seus problemas.

No entanto, é preciso resistir à tentação - amplificada pelo claro uso que o primeiro-ministro faz do poder político para frustrar numerosos processos legais - de imaginar que Berlusconi represente o principal problema da Itália.

A revista britânica The Economist, por exemplo, acredita que os conflitos de interesse do primeiro-ministro italiano e sua inesgotável bufonaria manchem a honrada causa do liberalismo e do livre comércio.

Essa ideia também está por trás da tentativa de se organizar uma "revolução colorida" na Itália. O Povo Violeta, um movimento antipolítico composto por comunistas e social-democratas descontentes, se reuniu em torno do comediante Beppe Grillo e de Antonio di Pietro, que antes de entrar para a política era um juiz que combatia a corrupção. Nesta semana o movimento convocou o No B Day 2 (um protesto contra Berlusconi). O uso de um inglês formatado para o Twitter indica o quanto a oposição está desorientada.

Crise econômica. É provável que sejam realizadas eleições em março e, com a estrela de Berlusconi perdendo o brilho, é importante levar em consideração aquilo que pode ser o outro lado do "berlusconismo". Com a perseguição aos imigrantes e os cuidados dedicados aos grandes proprietários, a coalizão governante, valendo-se de sua volátil mistura de secessionismo racista do norte, de liberalismo autoritário pós-fascista e do populismo empreendedor de Berlusconi, afastou as atenções da sombria atmosfera econômica do país.

O egoísmo desenfreado, individual, corporativo ou regional, foi alçado ao patamar de princípio. O termo liberdade, onipresente nos debates atuais, significa privilégios para alguns e insegurança para os demais. O desemprego entre os jovens e as mulheres é altíssimo, a precariedade dos empregos é generalizada e a Itália tem um dos piores registros de morte no trabalho em toda a Europa.

Apesar do pesadíssimo fardo do trabalho não remunerado das mulheres (certas estatísticas estimam em 60 horas a semana de trabalho delas), o governo busca aumentar a idade mínima para a aposentadoria feminina. A legislação que cristaliza o regime de trabalho não remunerado a que são submetidos os pesquisadores e professores palestrantes é outro indicador do completo desprezo por toda forma de progresso social.

Um país cuja Constituição pós-guerra subordinava oficialmente o livre mercado ao bem-estar social vê-se agora repleto de formas de hiperexploração nas quais o apetite por lucros imediatos se traduz em uma desigualdade extrema e na deplorável degeneração dos direitos civis e sociais, vide o recente ataque da Fiat à negociação coletiva, colocando em jogo todo o futuro da empresa na Itália.

Essas são algumas das realidades ocultas pelas palhaçadas obscenas de Berlusconi. Os governos de centro esquerda anteriores não são inocentes nesse aspecto, promovendo muitas das políticas "liberalizantes" que criaram uma perspectiva tão desanimadora para as pessoas comuns.

Realinhamento. Um possível realinhamento da política ao centro (o que pode incluir os fascistas da Liga Norte, por mais bizarro que pareça) dificilmente abordará tais problemas. Depôr Berlusconi sem uma denúncia radical sobre o quanto a sociedade regrediu nas últimas duas décadas significará simplesmente que a Itália se tornará - emprestando um slogans da centro esquerda - "um país normal", ou seja, no contexto global de hoje, um país cada vez mais desigual, preconceituoso e dominado pelo medo.

Apesar de ainda não terem chegado a elaborar uma plataforma coerente, as recentes mobilizações contra a privatização dos serviços públicos e a dilapidação do sistema de educação, junto com o ativismo sindical contra a chantagem da "flexibilização" proposta pela Fiat em tom de ameaça, mostram que existe uma oposição social a Berlusconi.

Flexibilização. Nesta era supostamente pós-ideológica da "posição central", o pragmatismo eleitoral tende a ser contrário ao radicalismo, pregando a moderação. Mas a trajetória da esquerda italiana - perdendo a convicção a cada concessão feita à ideia de que o capitalismo é o único sistema possível - é exemplar.

É hora de abandonar a ilusão da possibilidade de se chegar a fins social-democráticos por meios neoliberais e encontrar um vocabulário contemporâneo para abordar o conflito entre capital e trabalho que está por trás da crescente desigualdade e da "flexibilização" do trabalho. Caso contrário, a Itália continuará no mesmo rumo desastroso e apenas com um rosto mais apresentável no comando.    

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