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Papa tem de fazer algo sobre abuso sexual na Igreja, diz ativista britânica

Papa tem de fazer algo sobre abuso sexual na Igreja, diz ativista britânica

Atualizado: Quinta-feira, 16 Setembro de 2010 as 9:40

A visita do papa Bento XVI ao Reino Unido, que começa nesta quinta-feira (16) , é considerada por ativistas uma chance de colocar o Vaticano contra a parede em relação a assuntos espinhosos, como o homossexualismo, a ordenação de mulheres e o que talvez seja o mais delicado: as acusações de abusos sexuais cometidos por padres. Os escândalos já atingiram países como Irlanda, Alemanha, Estados Unidos e, mais recentemente, a Bélgica.

Para a inglesa Anne Lawrence, de 47 anos, que coordena uma entidade britânica referência no tema, a Macsas (Ministry and Clergy Sexual Abuse Survivors) -na tradução livre "sobreviventes de abuso sexual pelo clero"-, "está na hora de o papa tomar atitudes e não só pedir desculpas".

A instituição dá apoio a mulheres e homens, crianças ou adultos, vítimas de abuso por religiosos -não só da Igreja Católica. "Usamos o termo sobreviventes porque é isso o que somos", diz Anne, ela mesma uma das vítimas.

A forma que ela encontrou de se manifestar foi fazer um livro com os depoimentos de 30 vítimas. A ideia era entregá-lo pessoalmente ao papa, mas o pedido foi recusado. "Não queremos intermediários. Quem garante que também desta vez não seremos calados?" O plano B agora é ir até alguns dos locais por onde ele passará.

Apesar da desilusão, ela diz que ainda vai à igreja, "mas só em momentos de muita felicidade ou de grande tristeza".

O que a visita do Papa ao Reino Unido representa para as vítimas de abuso sexual?

Anne Lawrence – Algumas estão bastante ansiosas porque a vinda dele traz à tona o problema do abuso, e é muito dolorido ter que voltar a viver tudo isso mais uma vez. Outras ficam bravas porque consideram um desrespeito o papa ser recebido com todas as honras de chefe de estado porque ele somente pediu desculpas sobre os abusos, mas não tomou nenhuma medida prática, nada tangível.

O que a entidade espera dele e da Igreja Católica?

Lawrence – Buscamos mais do que um pedido de desculpas. É preciso que seja criada uma comissão para investigar os casos de abuso na Inglaterra. Mas essa comissão deve ser secular, sem nenhuma ligação com a Igreja. O Vaticano deveria entregar os seus arquivos secretos para a polícia. Também deveriam ser implementados procedimentos de conduta para combater o abuso. Há casos na Justiça em que a Igreja entra com recursos e mais recursos contra as vítimas. É um absurdo. A Igreja tem que parar de lutar contra a vítima e começar a trabalhar a favor dela. Isso sem falar nos casos em que dão dinheiro para silenciar a vítima.

Durante a sua visita ao Reino Unido, o papa deve se encontrar com algumas vítimas?

Lawrence – Ficamos sabendo que ele deve receber alguns sobreviventes a portas fechadas, mas não sabemos quem são nem onde será o encontro. Acho que não estamos entre os escolhidos porque fazemos muito "barulho", seria uma situação desconfortável para o papa. A Igreja diz que não recebe as vítimas em público para protegê-las. Só que o segredo não as protegeu antes nem as vai proteger no futuro.

Há alguma estimativa do número de vítimas na Inglaterra?

Lawrence – Uma pesquisa que nós fizemos levantou o depoimento de mais de 120 mulheres que sofreram abuso ou exploração sexual pelo clero. Mas essa é só a ponta do iceberg, acreditamos que existam muito mais. A maior parte das vítimas é de mulheres, ou há homens também?

Lawrence – A grande maioria é de mulheres mesmo, mas há homens. O que notamos é que, entre as crianças e adolescentes, eles costumam ser maioria porque normalmente são os garotos que trabalham na paróquia, como coroinha, ou quando viram seminaristas. Na fase adulta, é a mulher que é mais vítima. Também há casos de pedofilia em instituições mantidas pela Igreja, como orfanatos.

Qual é o perfil das vítimas mulheres?

Lawrence – Normalmente já sofreram algum tipo de abuso quando crianças ou enfrentam uma situação familiar delicada. Quando procuram aconselhamento espiritual é porque estão deprimidas e com baixa auto-estima. E os padres se aproveitam disso.

Em que circunstâncias se dão os abusos?

Lawrence – Acontecem basicamente de duas maneiras. Tem aquele religioso que é bruto, usa violência, agarra, beija à força e estupra. O ataque se dá quando ele fica sozinho com a vítima, ou na sacristia ou ao dar uma carona até a casa dela, por exemplo. Outro tipo é aquele que monta uma estratégia, usa a posição de sacerdote, de conselheiro, para seduzir a mulher e forçar um relacionamento. Ele declara o seu amor, e a vítima, vulnerável, se sente reconfortada e segura.

Muitos alegam que há a questão do consentimento da mulher...

Lawrence – Um profissional não deve se envolver sexualmente com seus clientes, sejam eles pacientes ou frequentadores da igreja. É antiético, imoral e, em muitos casos, criminoso. Na Inglaterra, a lei considera crime professor ou psiquiatra que mantém relacionamento com um aluno ou cliente, mas não fala nada sobre padre. Deveria haver uma mudança na lei.

Por que a vítima não consegue se desvencilhar da situação?

Lawrence – É muito difícil. Algumas são ameaçadas, sentem vergonha, têm medo de que não acreditem nela. Muitas se acham culpadas. E os "relacionamentos" podem durar anos. Elas ficam presas a esse círculo de necessidade, gratidão e confusão. Mas isso não é um relação normal, verdadeira, porque há um desequilíbrio de poderes. A pessoa foi em busca de aconselhamento, não de sexo. Essa situação não pode ser vista como um caso amoroso, mas um abuso de longo prazo, sob a máscara de um pseudoamor.

Como vê esses padres que se envolvem em casos de exploração sexual?

Lawrence – Muitos padres fazem várias vítimas ao mesmo tempo. Eles têm um perfil egoísta, narcisista. Alguns podem ser perigosos, fazem ameaças. O comportamento deles é predatório. Sabemos de um caso de uma mulher com câncer, muito mal da doença, que foi buscar conforto e acabou sendo estuprada.

A quem elas geralmente recorrem?

Lawrence – Muitas não encontram coragem para falar com medo de que não acreditem no que diz ou de serem acusadas pela Igreja de terem tentado o religioso. Aquelas que quebram o silêncio se sentem devastadas, em frangalhos. O casamento acaba, perdem o emprego. No caso de sofrerem um ataque, elas devem ir até a polícia, mas nem sempre vão.

Qual é a reação da Igreja quando um caso de abuso chega até ela?

Lawrence - O que é muito comum é simplesmente transferirem o agressor para outra paróquia. Eles continuam padres. Já vi serem transferidos até para cuidar de instituições que atendem crianças e jovens. O que as igrejas precisam fazer é desordenar esses padres e reconhecer que eles precisam de tratamento. No entanto, a Igreja se recusa a admitir a escala do problema.

Postado por: Thatiane de Souza

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