MENU

Política de Israel leva jovens a fugir do serviço militar obrigatório

Política de Israel leva jovens a fugir do serviço militar obrigatório

Atualizado: Sexta-feira, 23 Outubro de 2009 as 12

A cada ano, um pequeno grupo de jovens rejeita a convocação para o serviço militar obrigatório em Israel e se rebela contra a ''política de opressão e ocupação'' de seu país. Eles são os ''shministim'', estudantes israelenses que estão no final do Ensino Médio e recusam o alistamento militar.

Dois deles seriam presos nesta quinta-feira (22). Efi Brenner, de 18 anos, se mostrava tranquilo antes de seguir para a base militar onde será condenado à prisão. Ele afirmou à Efe que vai expor às autoridades militares que não quer ''participar de um Exército que ocupa os territórios palestinos e que controla quase que cada aspecto da vida da nação palestina''.

São poucos os que, como ele, além de se oporem à força da Defesa israelense, se atrevem a reconhecer tal postura publicamente e a argumentar motivos políticos, atitude que tem um alto custo pessoal e social. Os pais de Brenner o expulsaram de casa na sexta-feira da semana passada depois que seu caso foi publicado em um jornal. Ele foi para a casa de um amigo e não espera visitas de sua família na prisão militar para a qual será enviado.

Neste ano, quase 100 jovens assinaram a ''carta dos shministim'', segundo a qual ''a ocupação cria uma realidade insuportável para os palestinos'' concretizada nos ''postos de controle, na anexação de terras, na construção do muro do apartheid e de estradas só para israelenses, em assassinatos e projetos de novas colônias''.

Or Ben David, de 19 anos e signatário do documento, também será presa hoje, mas ela chegará à base militar onde ficará detida acompanhada de seu pai, que não compartilha de sua opinião, mas a respeita. Ela disse:

''O Exército ligou para a minha família continuamente ameaçando me prender''.

E contou que, de seus dois irmãos gêmeos, um fará o serviço militar em breve e outro escapou da obrigação ao alegar motivos de saúde.

''Cada vez são mais os que não querem ir para o Exército e evitam fazê-lo de um jeito ou de outro. Eu decidi tornar isso público e argumentar motivos políticos, mas isso tem consequências: as pessoas te insultam e te chamam de traidora ou parasita''.

''Não interessa para eles nos manter na prisão''

Para esses dois jovens, começou nesta quinta-feira um processo de meses nos quais entrarão e sairão da prisão até que um tribunal os libere da obrigação de servir, normalmente por ''problemas de saúde mental''.

Efe Sahar Vardi, uma estudante de História que se negou a prestar o serviço militar no ano passado e integrante da organização ''New Profile'' (''Novo Perfil'', em tradução livre), que apoia os dissidentes, explicou:

''Não lhes interessa [às autoridades] nos manter na prisão. Portanto, quando se derem conta de que não podem nos convencer, nos deixarão ir''.

Vardi destaca que ninguém sabe quantos são os opositores ao serviço militar. Segundo ela, ''há muitos que se livram de forma legal e há uns 200 casos ao ano aprovados pelo comitê de objeção de consciência'', instância que aceita alguns casos de pacifistas, mas rejeita todos aqueles que argumentam motivos políticos.

Rebeldes têm problemas para tirar carteira de motorista

Depois do período na prisão, os ''shministim'' costumam ter problemas para tirar carteira de motorista, não podem trabalhar em atividades relacionadas à segurança e nem em escritórios governamentais, mas, principalmente, sofrem com a discriminação social.

Vardi explica:

''No papel, as consequências não são tão ruins, mas o pior é a sociedade, que está absolutamente militarizada. Perguntam pelo serviço militar nas entrevistas de trabalho e todos te julgam se você não o fez''.

Dos 250 estudantes que terminaram o Ensino Médio em seu colégio, só dois não foram para o Exército.

Os ''shministim'' normalmente não têm apoio entre pessoas próximas. Eles acabam se conhecendo e se juntando por meio da internet, assim como por sua participação em foros pacifistas e ONGs. Vardi relata que em Israel ''há armas por toda parte, os soldados dão palestras nos colégios e inclusive há um projeto para ter um militar fixo em cada escola''. E diz:

''O que fazemos vai contra tudo o que nos ensinaram e tudo o que há ao nosso redor''.

Condenado diz que faria tudo de novo

Segundo a jovem, o sistema educacional de Israel ''está muito militarizado e um de seus objetivos é gerar o maior número possível de soldados''. De acordo com Vardi, recentemente, uma instituição de ensino excluiu os ''shministim'' da cerimônia de formatura.

Embora os atuais opositores sofram com alguns meses de prisão, eles correm o risco de que se repita o que ocorreu em 2002, quando um grupo de cinco ''shministim'' foi condenado por um tribunal militar a quase dois anos de prisão.

Um deles, Matam Caminer, afirmou à Efe que faria tudo de novo.

''Não me arrependo do que fiz. Foi a decisão correta. Nosso caso provocou um impacto e um debate sobre a ocupação que ainda continua aberto''.

veja também