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Ponte entre México e EUA liga medo à segurança

Ponte entre México e EUA liga medo à segurança

Atualizado: Quarta-feira, 2 Março de 2011 as 11:19

O curto trajeto do perigo à tranquilidade começa antes do amanhecer. Primeiro, uma catraca. Custo total: 3 pesos mexicanos. Depois, milhares de pernas se arrastam, como vassouras, pela ponte Paso del Norte, afastando-se de Ciudad Juárez.

São cerca de 250 passos até chegar ao meio. Lá começam os Estados Unidos, e a visão muda um pouco: um grande outdoor anunciando a cerveja Bud Light, em espanhol, praticamente tapa o sol.

A maior parte das 14 mil pessoas que cruzam o Rio Grande diariamente parece pouco notar. Essa ponte, que, segundo estimativas oficiais americanas, é a mais agitada de todo o caminho terrestre fronteiriço entre o México e os Estados Unidos, já foi apenas uma simples ligação entre os distritos comerciais de Ciudad Juárez e El Paso. Mas hoje ela tem um significado mais profundo.     Nunca, na história recente, as disparidades entre as duas cidades foram tão grandes. De acordo com algumas estimativas, El Paso é hoje a grande cidade mais segura dos Estados Unidos; Ciudad Juárez está entre as mais perigosas do mundo.

Assassinatos dominam as manchetes de um lado, enquanto o crescimento econômico e acidentes de carro são notícia do outro lado.

O resultado é uma caminhada matinal para o norte que pode parecer como uma fila para um parque de diversão. As conversas entre as mulheres que esperam em lojas são pontuadas por risadas. As crianças saltam. Ambulantes vendem comida enquanto uma mulher de vestido branco com uma guitarra canta músicas engraçadas sobre por que alguns podem cruzar a ponte mais rápido que outros.

"É tão mais calmo e melhor lá", disse Janet Burcia, 18 anos, vinda de Ciudad Juárez a caminho de El Paso para visitar a avó. "Vou sempre que posso."

Mas o acesso e a velocidade variam. Do lado direito da ponte, numa fila de espera que chega a duas horas, cidadãos mexicanos, incluindo aqueles com cartões de cruzamento de fronteira concedidos pelo Consulado Americano para pessoas que não correm o risco de permanecer ilegalmente nos Estados Unidos devido ao trabalho ou à família. Do lado esquerdo, com filas muito menores - e roupas melhores - estão pessoas como Burcia, cidadã americana nascida no Texas, e estudantes que frequentam a escola em El Paso.

Passar o tempo nos Estados Unidos não é garantira de segurança, é claro. Recentemente, três adolescentes de Ciudad Juárez, incluindo dois cidadãos americanos que tinham frequentado a escola em El Paso, foram alvo de tiros numa concessionária de automóveis no lado mexicano da fronteira.

Mesmo assim, o número de alunos que cruzam a fronteira parece estar crescendo. No último mês de abril, depois de notar um aumento no tráfego matinal de pessoas a pé, a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos designou uma faixa especial para alunos que passam por ali entre 7h e 9h da manhã, resultado de uma pressão por parte de pais mexicanos para colocarem seus filhos em escolas americanas.

Recentemente, a tímida Damaris Giron, 18 anos, usando uma saia azul com pregas e muita maquiagem, era uma das muitas pessoas que carregavam livros ao atravessar a ponte. Ela contou que todos os seus 25 colegas de turma da escola metodista de El Paso moram em Ciudad Juárez.

"Há muitos pais que têm medo", ela disse. Não que Giron gostasse tanto assim do deslocamento. "Fico cansada com essas idas e vindas", acrescentou. Mas ela parecia ser uma das poucas pessoas insatisfeitas por cruzar a ponte.

Alejandra Cabral, de 19 anos, sorriu quando foi questionada sobre o peso dos livros de engenharia que ela carregava consigo. Cabral afirmou estar no segundo ano da Universidade do Texas, em El Paso, e que planeja ficar em Ciudad Juárez quando se formar.

"Quero fazer algo parecido com o que fazem na Nasa", ela disse. A maioria das pessoas na fila tinha planos mais simples. Leticia Valenzuela, 53, estava ali para comprar leite especial e remédios para uma criança com uma grave doença no estômago. Jose Hernández, 21, esperava com seu skate, que ele usa para ir ao trabalho, num hospital em El Paso. Embora ele seja cidadão americano, com pai americano e mãe mexicana, ele afirmou que estava na fila mais lenta porque ladrões de Ciudad Juárez tinham roubado seu carro e seu passaporte americano.

Elizabeth Torres, 40, e a mãe, Virginia Chávez, 59, simplesmente queriam se divertir. "A primeira coisa que vamos fazer é tomar café da manhã", disse Torres, administradora de escritório. "Depois vamos fazer compras".

Como muitas outras pessoas da fila, Torres teve dificuldades em articular o que significa hoje cruzar a ponte. Por um lado, ainda é uma rotina _ a partir das montanhas, nos dois lados da fronteira, Ciudad Juárez e El Paso parecem uma só cidade. Por outro lado _ Torres respirou fundo e soltou os braços para mostrar como as pessoas se sentem mais relaxadas no lado de El Paso.

"Não precisamos nem segurar a bolsa junto ao corpo", disse a mãe de Torres.

Isto é, até o final do dia. Quando o sol se põe e o céu do deserto queima um laranja rosado, como uma pintura de Georgia O'Keeffe, o trânsito de pedestres aumenta novamente, na direção contrária. Braços antes vazios agora voltam ocupados, com sacolas do Walmart e da American Eagle Outfitters.

Um guitarrista ainda canta, mas desta vez é um homem. Os mexicanos que passam por ali já não têm pressa. Não há uma fila especial para chegar mais rápido a Ciudad Juárez. Ninguém do lado mexicano verifica se os documentos das pessoas estão em ordem.

Ao anoitecer, as risadas se transformam em silêncio. Cada passo pela ponte se torna mais lento, e é mais difícil ver um sorriso no rosto das pessoas.    

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