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Reino Unido investiga uso de passaportes falsos por supostos espiões russos

Reino Unido investiga uso de passaportes falsos por supostos espiões russos

Atualizado: Terça-feira, 29 Junho de 2010 as 5:54

O Reino Unido e a Irlanda investigam denúncias de que dois dos dez supostos espiões russos detidos pelo FBI (Polícia Federal) nos Estados Unidos viajaram utilizando passaportes falsos de seus países.

O indiciamento preparado por uma corte federal de Manhattan, nos EUA, contra os 11 membros da rede de espionagem aponta que Tracey Lee Ann Foley ''viajou com um passaporte fraudulento preparado para ela pela agência de inteligência russa''. O 11º suspeito foi preso hoje em Chipre.

''Vimos as informações e obviamente já estamos investigando'', disse uma porta-voz do Ministério de Relações Exteriores britânico, que não quis se identificar.

Segundo as acusações, Foley, que viveria em Cambridge, Massachusetts, com seu parceiro e dois filhos, recebeu o passaporte para viajar até Moscou, na Rússia. Depois de viajar de trem de Paris (França) para Viena (Áustria), ela deveria ter trocado seu documento verdadeiro pelo passaporte britânico.

Segundo as instruções da inteligência russa, relatadas no documento judicial, as instruções incluíam que ela assinasse o passaporte e treinasse para ser capaz de reproduzir a assinatura quando necessário.

Dentro do passaporte, segundo o indiciamento citado pelo jornal britânico ''Guardian'', havia uma nota com informações adicionais. O bilhete deveria ser destruído após a leitura.

Não se sabe se o passaporte utilizado por Foley levava seu nome americano ou era copiado de um cidadão britânico, como ocorreu no começo do ano.

Os passaportes falsos britânicos foram utilizados por agentes do Mossad, o serviço secreto israelense, para viajar a Dubai e assassinar o dirigente do grupo islâmico palestino Hamas Mahmoud Al Mabhouh, em 20 de janeiro passado. O incidente levou o governo britânico a chamar o embaixador israelense para explicações.

O ''Guardian'' cita ainda instruções do serviço de inteligência russo para que outro dos espiões, Richard Murphy, encontrasse um agente em uma livraria no sul de Roma, na Itália. Lá, o agente entregaria um passaporte falso irlandês a Murphy.

O Ministério de Relações Exteriores irlandês afirmou em nota que soube da denúncia esta manhã e que busca obter mais informações.

As autoridades americanas revelaram ter descoberto o esquema de espionagem da Rússia em solo americano e a prisão de dez dos onze indiciados apenas horas depois do presidente russo, Dmitri Medvedev, encerrar uma visita aos EUA.

Cinco dos suspeitos compareceram a uma corte federal em Manhattan na própria segunda-feira, onde o juiz ordenou que permanecessem na prisão até uma audiência preliminar agendada para 27 de julho.

O FBI afirmou que os agentes infiltrados eram parte de um grupo chamado de 'ilegais' por Moscou e que adotaram identidades americanas para conseguir entrar em thinktanks e agências do governo americano.

Dois anos

A operação do FBI começou em 2009, quando foi interceptada uma mensagem criptografada enviada a dois dos acusados. Os agentes eram instruídos a 'buscar e desenvolver ligações em círculos de decisão polícia nos EUA e mandar relatórios' de volta à inteligência em Moscou.

A maioria dos agentes era originalmente da Rússia e foram treinados para se infiltrar secretamente nos EUA. As acusações afirmam ainda que os membros dos 'Ilegais' receberam vasto treinamento em comunicação codificada e como evitar serem pegos.

O objetivo era tornar-se 'suficientemente americanizado a ponto de conseguirem reunir informações sobre os EUA para a Rússia e conseguir fontes de dentro dos círculos de decisão política dos EUA --ou que consigam se infiltrar', segundo registros policiais preenchidos por uma corte federal americana.

Os acusados teriam coletado informações desde programas de pesquisa de pequena produção, ogivas nucleares de alta penetração e o mercado mundial de ouro, tentando obter informações sobre pessoas que se poderiam se candidatar a vagas na CIA, segundo registros na corte.

Em 2009, Moscou teria pedido a dois dos agentes informações sobre a viagem de Obama à Rússia, programada para breve. Foram pedidas mais informações sobre a situação das negociações do tratado de redução de armas Start, bem como Afeganistão e a posição de Washington em relação ao programa nuclear do Irã, segundo os documentos.

Acusados

Os acusados são um casal conhecido como Richard Murphy e Cynthia Murphy, presos em Monclair, em New Jersey; Vicky Pelaez e um homem conhecido como Juan Lazaro, presos em Yonkers, no Estado de Nova York; e Anna Chapman, presa em Manhattan. Há ainda Mikhail Semenko e o casal conhecido como Michael Zottoli e Patricia Mills, presos em Arlington.

Os dois últimos, conhecidos como Donald Howard Heathfield e Tracey Lee Ann Foley, foram presos em Boston.

Os dez presos foram acusados de ato de conspiração como agente de um governo estrangeiro, que leva pena máxima de cinco anos de prisão. Nove dos detidos foram acusados de conspiração para lavagem de dinheiro, que tem pena máxima de 20 anos de prisão.

As prisões foram fruto de anos de investigação, incluindo escutas colocadas nas casas dos acusados. A lei federal americana proíbe pessoas de atuarem como agentes de governos estrangeiros dentro dos EUA sem notificar as autoridades locais.

Reação

O SEE (Serviço de Espionagem Exterior) da Rússia declarou nesta terça-feira que não vai comentar a operação. 'Nós não comentamos essas informações', disse à agência Interfax o chefe do escritório de imprensa do SEE, Serguei Ivanov.

Já o Ministério de Relações Exteriores da Rússia afirmou nesta terça-feira que vai investigar a prisão dos supostos espiões russos.

Em sua primeira reação ao escândalo, o ministério russo descreveu como contraditórias e sem fundamento as acusações de que os espiões passaram ao menos dez anos reunindo informações sobre armas nucleares, o mercado de ouro e até mesmo mudanças de pessoal da CIA (Central de Inteligência Americana).

Lavrov criticou ainda o momento escolhido pelos EUA para a operação, meses depois de um amplo esforço diplomático do governo de Barack Obama para ''resetar'' a esfriada relação bilateral. O ministro considerou a ação um retrocesso rumo ao status da Guerra Fria.

Já o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, amenizou o tom das críticas e disse nesta terça-feira esperar que o episódio não prejudique as relações russo-americanas.

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