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Revolta árabe traz mais pressão inflacionária ao Brasil, dizem analistas

Revolta árabe traz mais pressão inflacionária ao Brasil, dizem analistas

Atualizado: Terça-feira, 22 Fevereiro de 2011 as 10:11

As reações dos mercados às revoltas nos países árabes contêm componentes especulativos. Mas o preço do barril do petróleo deve manter a trajetória de alta, constituindo mais um foco de pressão inflacionária, inclusive no Brasil. A análise é de economistas e consultores ouvidos pelo G1. Nesta segunda-feira, os preços do petróleo tipo Brent atingiram US$ 108 o barril pela primeira vez desde 2008.

"A maior preocupação é em relação ao preço do petróleo, que pode também puxar a alta de outras commodities relacionadas a combustíveis, como soja e milho”, diz Thais Marzola Zara, economista chefe da Rosenberg & Associados. “Para um país exportador de commodities como o Brasil, a alta no preço não é ruim, mas uma elevação dos preços no mercado interno pressiona ainda mais a inflação”.

O economista da Fundação Instituto de Administração (FIA), Celso Grisi, destaca que a alta de preços deverá atingir os produtos petroquímicos como um todo. “Os países produtores de petróleo estão vivendo um momento de convulsão, com interrupção de produção e mudança de logística de produção. Com isso, devem também subir os preços de transporte e de seguros”, diz.

Ele lembra que a retomada do crescimento nos Estados Unidos e na Europa deve elevar a demanda por petróleo no mundo. “Os impactos no Brasil podem ser até mais brandos, mas também não escaparemos”, afirma. “Num país que já fez cortes no orçamento e aumentou o compulsório, não sobra muito a fazer e o pleno emprego pode sair de moda”.

Apesar do Brasil ser quase autossuficiente em petróleo, o economista José Roberto Cunha, da FEA-USP, lembra que o preço do barril é determinado pela oferta e demanda globais. “A alta certamente será repassada para os preços nos combustíveis, o que terá impacto nos custos de transporte e de produção”.

O professor das Faculdades Rio Branco, Carlos Eduardo Stempniewski, vê apenas um efeito positivo na disparada do preço do petróleo: a possível aceleração das operações do pré-sal. “Para a operação ser viável, precisa de um preço de barril mais elevado”, diz.

Risco de redução de investimentos no Brasil

Apesar dos reflexos negativos nos mercados, os analistas ressaltam que os efeitos a médio e longo prazo vão depender da duração da instabilidade nos países árabes. “Por enquanto ainda são poucos os impactos na economia real. O que vemos são movimentos de aversão ao risco”, diz Raphael Martello, da consultoria Tendências.

“Os investidores estão apostando no pior e forçando a subida do preço do barril”, avalia Carlos Eduardo Stempniewski, professor das Faculdades Rio Branco. Segundo ele, o Brasil deve ser pouco afetado a curto prazo. “Não dependemos do petróleo deles. O que importamos vem da rota do Oceano Índico e a nossa relação comercial mais significativa é com a Índia”, explica.

Embora os negócios com os países árabes tenham pouco peso na balança comercial brasileira, Carlos Daniel Coradi, diretor da consultoria EFC, destaca que em crises desse porte sempre ocorre a redução do fluxo de investimentos e transferência de capital para ativos mais seguros como, por exemplo, títulos do tesouro americano, o que prejudica países em desenvolvimento como o Brasil.

“Com o real supervalorizado, o Brasil tem atraído muito capital especulativo. No momento, o país é um destino interessante, mas o volume de dinheiro pode se retrair caso a tensão nos países árabes comece a afetar a retomada do crescimento econômico nos Estados Unidos e na Europa”, diz Coradi.

Realinhamento da diplomacia brasileira

Na opinião da economista Vitória Saddi, professora do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), a tensão nos países árabes vai exigir uma austeridade fiscal ainda maior uma vez que o governo terá maior dificuldade para administrar o déficit nas contas externas. “Ao que tudo indica, essa tensão vai durar muito tempo. Lembra muito os acontecimentos de 1989, após a queda do muro de Berlim”, diz.

A escalada da incerteza nos mercados se deve justamente a dificuldade de se prever a duração e dimensão das revoltas na região, que ganharam efeito dominó. “É um estopim de pólvora que a gente não sabe até onde vai e que ainda não atingiu o maior produtor de petróleo da região, a Arábia Saudita”, completa Coradi.    

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