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Sanções ao Irã dividem membros rotativos do Conselho de Segurança da ONU

Sanções ao Irã dividem membros rotativos do Conselho de Segurança da ONU

Atualizado: Quinta-feira, 20 Maio de 2010 as 10:33

Liderados pelos Estados Unidos, o grupo de membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas - composto também por Reino Unido, França, Rússia e China -, esboçou nesta semana uma resolução para impor novas sanções ao Irã por seu controverso programa nuclear. O movimento, que costumava resolver impasses no passado, pode terminar sem legitimidade, já que os dez integrantes rotativos do órgão se dividem sobre o que fazer na disputa entre Teerã e o Ocidente.

Cinco deles terminam sua passagem pelo Conselho no fim deste ano: Áustria, Japão, México, Turquia e Uganda. No fim de 2011, acabam os mandatos de Bósnia Herzegovina, Brasil, Gabão, Líbano e Nigéria. Os membros rotativos são indicados depois de negociações regionais para que haja pelo menos um membro de cada área do planeta representado no principal órgão da ONU.

Dois dos membros não-permanentes, Brasil e Turquia, fecharam com o regime iraniano o primeiro acordo assinado desde o início da disputa, que só se intensifica há três anos. Uma vez que o acerto não impede os iranianos de enriquecerem urânio, as potências ocidentais não deram crédito à teocracia islâmica e podem fazer pressão econômica nas próximas semanas para ganharem votos no Conselho de Segurança.

A posição dos brasileiros influencia, de acordo com diplomatas, o silêncio do México sobre o assunto: embora seja um grande aliado dos EUA, o presidente Felipe Calderón calcula que não se beneficiaria assumindo uma posição antagônica à da potência regional em ascensão. Tampouco satisfaria à chancelaria mexicana um protagonismo exagerado de Lula, o que ofuscaria seu pleito de também ter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, como faz o Brasil.

Um dilema parecido é vivido pela Bósnia Herzegovina, cujo voto é decidido por uma Presidência tripartite, composta por um muçulmano, um cristão ortodoxo e um católico. Durante a guerra nos Bálcãs, na década de 90, norte-americanos e iranianos ajudaram a nova nação a surgir. Até agora, os bósnios se limitaram a dizer que querem expandir suas relações políticas, culturais e econômicas com a teocracia islâmica, sem condenar nem aprovar o programa nuclear contestado pelo Ocidente.

Presidente do Conselho até o fim de maio, o Líbano também é pressionado pelo papel importante da Turquia no processo, mas já sinalizou interesse em permitir a continuidade das negociações. Mas, assim como no caso de países africanos no grupo, a pressão econômica das potências europeias e dos EUA poderá levar os libaneses para o campo das potências ocidentais e minar os interesses do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e do premiê turco, Recep Tayyip Erdogan.

Africanos

Considerados os países mais flexíveis entre os membros rotativos do Conselho, Gabão, Uganda e Nigéria foram alvos de uma ofensiva diplomática do Irã no passado recente. Mesmo assim, interlocutores nas potências vazaram pela mídia que perdão de dívidas ou benefícios comerciais poderiam fazer essas nações tomarem lado contra Teerã.

No ano passado, em meio à crise nuclear, um ministro do Gabão chegou a dizer que o aiatolá Ruhollah Khomeini, que em 1979 transformou o Irã em uma teocracia islâmica, é "um grande líder dos movimentos religiosos, especialmente entre os países africanos". A proximidade do país com a França, no entanto, pode afetar Teerã.

A Nigéria, cujo presidente é o recém-instalado Goodluck Jonathan, tem discutido energia com o Irã - já que os dois países são majoritariamente muçulmanos e produtores de petróleo. O interesse dos nigerianos por energia nuclear o aproximou de Teerã, mas o Ocidente pode ameaçar as exportações petrolíferas do país e levá-lo a referendar as sanções contra o Irã.

No início deste ano, o presidente de Uganda, Yoweri Kaguta Museveni, criticou as potências por "manterem sua hegemonia sobre nós". Buscou expandir laços com Teerã - uma vez que o país também é majoritariamente islâmico. Ao mesmo tempo, Kampala tem relacionamento estreito com os EUA, que dão assistência financeira de mais de US$ 500 milhões por ano.

Próximos das sanções

Embora sem a mesma ênfase das outras potências, o Japão, que também pleiteia cadeira permanente no Conselho de Segurança, afirmou que "não vai se opor" a eventuais sanções sobre Teerã. O país, cheio de problemas internos na gestão do premiê Yukio Hatoyama, depende das exportações de petróleo do Irã, mas mantém relações tensas com o regime desde a revolução de 1979.

A adesão do Japão às sanções ganha importância no caso de a China voltar atrás e pedir mais negociações, conforme exortaram Brasil e Turquia. Os chineses são os maiores parceiros comerciais dos iranianos.

A Áustria chegou, em 2008, a promover ao lado da Itália esforços conjuntos para evitar medidas contra o Irã. Mais tarde, atraiu reclamações de norte-americanos, britânicos e franceses por sua indecisão. Neste ano, no entanto, o governo de centro-esquerda do país afirmou que "é necessário reagir" ao programa nuclear do Irã. Os dois países têm antiga cooperação comercial no setor de energia. 

Por Maurício Savarese

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