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Saramago é cremado em Lisboa

Saramago é cremado em Lisboa

Atualizado: Domingo, 20 Junho de 2010 as 3:21

Sob aplausos e homenagens de cerca de 1.000 pessoas que aguardavam do lado de fora da Câmara Municipal de Lisboa, quase às margens do rio Tejo, o corpo de José Saramago seguiu em lento cortejo na manhã deste domingo para o oitocentista cemitério do Alto de São João, onde foi submetido pouco depois das 9h, hora de Brasília, ao início do processo de cremação.

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Saramago, morto na sexta-feira na ilha Espanhola de Lanzarote, foi velado ontem e hoje em cerimônia aberta ao público e que teria contado com a passagem de cerca de 20 mil pessoas, de acordo com a polícia municipal de Lisboa, número possivelmente superestimado.

Na solenidade reservada que marcou o encerramento do velório, Saramago foi homenageado por familiares, amigos e pelos governos de Portugal e da Espanha, representado pela vice-presidente daquele país, Maria Teresa Fernández de la Vega.

Uma das polêmicas nas quais o escritor, que tinha 87 anos, havia se envolvido se referia à avaliação de que Portugal acabaria anexada à Espanha, formando uma federação ibérica. Mesmo após sua morte, Portugal e Espanha "disputam" o direito de receber suas cinzas, já que ele se mudou para a ilha espanhola em 1993, após romper com parte da elite política de seu país.

"Todos nós nos sentimos órfãos de sua figura querida e de suas palavras confortadoras", disse a vice-presidente da Espanha. "Ele não tinha fé em Deus. Mas se existe, Deus certamente tem fé nele", discursou a ministra da Cultura de Portugal, Gabriela Canavilhas, arrancando um riso da viúva do escritor, a jornalista espanhola Pilar del Río.

Pilar e a filha única de Saramago, Violante, ficaram de mãos dadas em parte da homenagem. As duas demonstraram muita emoção e, ao final, foram à sacada da Câmara atirar um cravo às pessoas que aguardavam do lado de fora. No caixão, havia no peito do escritor dois cravos, símbolos da revolução que derrubou do poder o salazarismo.

"Como escreveu um amigo a Pilar: 'Não há palavras. Saramago levou-as todas'", encerrou Canavilhas a sua fala.

Na chegada ao cemitério, milhares de pessoas fizeram um corredor de aplausos e flores, que eram jogadas sobre o caixão. Carregada por militares, a urna passou embalada na bandeira portuguesa. Várias pessoas carregavam nas mãos livros do escritor. "Portugal perdeu já tantas grandes coisas; foi-se mais uma", lamentou uma senhora na multidão.

Ainda não houve declaração oficial sobre onde ficarão as cinzas do escritor. Há possibilidade de elas serem divididas entre a aldeia de Azinhaga (cerca de 100 km de Lisboa), onde ele nasceu, e Lanzarote, já que o escritor havia manifestado que gostaria de ter suas cinzas depositadas sob uma oliveira na propriedade que morava desde os anos 90.

Representando a Academia Brasileira de Letras nas cerimônias, a escritora Nélida Piñon disse que a entidade fará uma homenagem a Saramago --único autor português laureado com o Nobel de Literatura-- na quinta-feira, em sua sede no Rio de Janeiro.   RANIER BRAGON

ENVIADO ESPECIAL A LISBOA   fonte:uol.com.br/folha.com

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