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Seres humanos se tornam maior ameaça a guardas florestais nos EUA

Seres humanos se tornam maior ameaça a guardas florestais nos EUA

Atualizado: Sexta-feira, 17 Dezembro de 2010 as 9:27

Como fiscal de caça esportiva no estado do Colorado, Todd Schmidt tem um local de trabalho que é a fantasia dos funcionários de escritório no mundo todo: a estonteante paisagem das Montanhas Rochosas. Mas todos os dias, por baixo da camisa, ele também usa um lembrete do lado negativo: um colete à prova de balas.

“Ele também me deixa mais aquecido”, disse Schmidt, batendo no peito numa recente manhã no Parque Estadual Golden Gate Canyon, cerca de uma hora a oeste de Denver, enquanto os picos nevados da divisória continental cintilavam no horizonte.   Duas recentes ocorrências com guardas florestais _ um morto na Pensilvânia enquanto enfrentava um caçador ilegal, outro gravemente ferido depois de uma parada de trânsito no sul de Utah _ destacaram o que os “rangers” (como são chamados nos Estados Unidos) e os funcionários florestais dizem ser um fato inevitável. À medida que mais e mais pessoas vivem perto de florestas, parques e outras terras selvagens, é o animal humano, e não a variedade selvagem, que deve ser temido. “Estamos observando um pouco mais da mancha urbana nos espaços selvagens _ violência da cidade no campo”, disse John Evans, chefe-assistente de operações policiais do Serviço de Parques Nacionais dos EUA.

Nesta época do ano, quando turistas dão espaço a caçadores, há uma conclusão da posição de Evans que faria empalidecer o mais seguro dos policiais urbanos: nestas florestas, as armas estão em toda parte.

“Eu sei que todos que eu confronto tem uma arma”, disse Schmidt, de 36 anos, que tem cinco anos no trabalho com a Divisão de Vida Selvagem do Colorado.

As armas também foram legalizadas em muitos parques nacionais neste ano, sob uma lei aprovada pelo Congresso em 2009. E muitos parques e áreas de recreação também sofreram cortes de pessoal nos últimos anos, reduzindo a presença de figuras de autoridade em patrulha. Porém, os guardas e funcionários florestais afirmam que a principal variável para definir seu trabalho não se alterou: graças às amplas distâncias a serem cobertas, especialmente no oeste, cada guarda trabalha sozinho.

Nos solitários e bonitos locais onde eles trabalham, saber quando se retirar, ou fugir correndo, é a Lição Número 1. Quinze funcionários florestais ou de parques foram mortos em serviço, a maioria por ferimentos à bala, desde 1980, segundo a Associação Norte-Americana de Guardas Florestais.

“Grande parte do trabalho é feita por instinto”, afirmou Jacob Dewhirst, de 26 anos, um guarda do Parque Estadual do Colorado que trabalha no oeste do estado, onde a verificação de licenças de caçadores e pescadores ocorre muitas vezes nos locais mais ermos.

Muitas agências florestais reagiram ao aumento dos perigos com novos equipamentos e treinamento. Desde 2007, os guardas de muitos parques nacionais foram equipados com armas de eletrochoque que podem imobilizar um possível agressor.

Schmidt tem um rifle AR-15 semi-automático em sua picape, e um computador que pode _ de maneiras nunca conhecidas pelos guardas de antigamente _ verificar a placa de um veículo antes da primeira abordagem do policial.

Mas guardas e fiscais também ocupam uma mistura de funções que, segundo eles, pode torná-los mais vulneráveis. Eles são embaixadores e gerentes de um recurso público, e a maioria possui experiência em algum aspecto das ciências naturais. Mas eles também têm uma autoridade policial completa, incluindo o uso de força letal quando necessário.

Evans descreve isso como uma dualidade: “Um sujeito bonzinho, preparado para um idiota que está pronto para me fazer mal”.

Para Schmidt, formado em biologia da vida selvagem, esse ato de compensação _ receptivo e desconfiado _ se resume em ter sempre uma rota de retirada desobstruída. Enquanto ele verifica um veículo ou fala com um caçador, a porta de sua picape fica sempre aberta, e o motor, ligado.         O que tornou as recentes ocorrências com tiros ainda mais assustadoras a muitos guardas é que elas surgiram de encontros comuns, do tipo que os policiais fazem o tempo todo. No caso de Utah, o atirador, que ainda não foi capturado, aparentemente atirou quando o guarda Brody Young, de 34 anos, se aproximou após uma parada de trânsito. No caso da Pensilvânia, David Grove, de 31 anos, foi morto após confrontar um homem caçando ilegalmente com um refletor _ o que deixa os cervos e outros animais desorientados.

“É muito fácil imaginar exatamente com o que David estava lidando no momento dos tiros”, disse Richard A. Johnston, policial regional do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, que viajou de sua casa, em Kansas, para comparecer ao funeral de Grove.

Para alguns policiais, como Ty Petersburg, que administra um movimentado distrito a oeste de Denver para a Divisão Florestal, a linha divisória entre o crime urbano e o da vida selvagem está cada vez mais indefinida.

Alguns anos atrás, Petersburg, de 31 anos, começou a seguir um veículo suspeito na Interestadual 70 _ uma perseguição que o levou até os arredores de Denver, onde o motorista saltou de seu carro para atacar. Minutos depois, cerca de 30 policiais locais chegaram numa onda de sirenes, respondendo ao pedido de reforços que Petersburg havia solicitado pelo rádio. Era uma cena familiar: a polícia ajudando seus companheiros.

Mais frequente, segundo ele, é o caso oposto, onde a ajuda é bem-intencionada em espírito, mas impossível na prática. No início do outono, por exemplo, Petersburg estava numa região montanhosa completamente isolada, e encontrou um veículo guiado por um homem com inúmeros mandados de prisão em seu nome e grande quantidade de cocaína em seu carro. Mais uma vez, ele pediu reforços.

“‘Nós gostaríamos muito de ir ajudá-lo”, citou ele, imitando a resposta da delegacia urbana mais próxima. “‘Mas não temos a menor ideia de onde você está”.

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