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Treinamento vê progressos, mas a guerra continua no Afeganistão

Treinamento vê progressos, mas a guerra continua no Afeganistão

Atualizado: Terça-feira, 26 Outubro de 2010 as 10:01

Há tempos considerado uma lenta prioridade, o plano de produzir mais tropas afegãs altamente treinadas vem se concretizando mais rapidamente neste outono.

Dois grandes centros de treinamento – o Centro de Treinamento Militar de Cabul, usado principalmente pelo exército afegão, e o Centro de Treinamento Central, usado pela polícia – se tornaram bases movimentadas, repletas de treinadores e recrutas. Entre os oficiais, existe uma sensação de que eles estão produzindo soldados melhores do que antes.   O centro militar vem formando 1.400 soldados recém-treinados a cada duas semanas, à medida que o governo de Obama, ávido por mostrar progresso numa guerra de vagaroso desenrolar, dedicou mais treinadores e dinheiro ao esforço.

Autoridades da OTAN esperam que as claras mudanças no treinamento, tanto no resultado quanto na atmosfera, criem base para certo otimismo numa guerra que frustrou aqueles que dela participam e provocou crescente oposição doméstica.

A proporção de instrutores para alunos passou de um para cada 79 recrutas, em 2009, para um para cada 29, segundo oficiais do centro, sugerindo que os novos policiais e soldados estão recebendo mais atenção do que antes. Os soldados hoje recebem salários melhores e desertam com menor frequência, dizem as autoridades.

Novos batalhões afegãos de infantaria, cada um com aproximadamente 800 soldados, deixam a capital regularmente para servir na guerra, algumas vezes chegando a dois ou três batalhões por mês. Os centros regionais de treinamento também estão oferecendo mais tempo de aula, e novas bases – incluindo uma escola de voo para a incipiente força aérea do Afeganistão – logo devem ser construídas.

A questão atual é se essas novas forças permitirão que a OTAN e o governo afegão revertam o forte momento da insurgência e comecem a reduzir a presença ocidental no país.

Em caso afirmativo, isso acontecerá de maneira rápida o suficiente para a esgotada opinião pública dos Estados Unidos em relação à guerra? Ou a promessa dessas tropas novas também serão minadas pela deserção, pela liderança fraca e pelo padrão estabelecido de deixar o trabalho perigoso em mãos ocidentais?

Qualquer resposta precisa navegar duas imagens notadamente diferentes da guerra.

Longe da capital, nas áreas rurais onde reina a insurgência, o exército afegão não tem se saído bem. Em províncias onde o Talibã é mais forte e o combate é mais determinado, a visão geral é que os militares e policiais afegãos têm sido decepcionantes.

No nível das pequenas unidades, tropas e jornalistas ocidentais documentaram sua corrupção, uso de drogas, fracas habilidades de combate e padrões de comprometimento, incluindo relutância em patrulhar regularmente ou em manter guarda em postos remotos.

Nos níveis mais altos, oficiais militares do Ocidente frequentemente relatam proteções, favoritismos e uma ausência de capacidade gerencial, originada parcialmente na arraigada cultura de corrupção e no disseminado analfabetismo (hoje, 14% das forças totais sabem ler ou escrever – nível equivalente à terceira série).

Existe também uma grande preocupação com a infiltração de talibãs entre os recrutas, especialmente na polícia.

Porém, ao contrário do campo, nas bases de treinamento as forças recém-formadas estão claramente se aprimorando.   Desde o ano passado, quando o plano do presidente Barack Obama dedicou mais recursos ao desenvolvimento afegão, o Pentágono buscou uma abordagem teoricamente simples, embora de alto custo: recrutar e colocar em campo rapidamente, e então, com o tempo, aprimorar suas habilidades de combate e gerenciamento. Muitos recursos foram dedicados ao esforço. Os números indicam que o primeiro passo já está em operação.

Em junho de 2009, após mais de sete anos de guerra, os Estados Unidos ajudaram o Afeganistão a colocar em campo uma força combinada – entre soldados e policiais – de aproximadamente 170 mil membros. Desde então, essa força já cresceu em metade de seu tamanho – um aumento de mais de 86 mil soldados.

Atualmente, o exército afegão possui 136 mil membros, e a polícia, 120 mil. Dentro de um ano, estima-se que as forças combinadas cresçam em mais 50 mil pessoas.

Os números brutos de membros correspondem a apenas uma medida. Os Estados Unidos estão simultaneamente comprando e distribuindo novos armamentos, veículos e equipamentos de comunicação, construindo quartéis, salas de aula e depósitos de logística, e desenvolvendo uma rede de laboratórios de idiomas para alfabetizar as forcas.

Os Estados Unidos também estão subscrevendo programas que pretendem expandir as capacidades militares e policiais afegãs, incluindo o treinamento de cães farejadores de bombas e drogas para a polícia da fronteira, o treinamento de pilotos para a pequena frota de helicópteros e cargueiros afegãos, e a abertura das chamadas escolas técnicas – para focar no desenvolvimento técnico de afegãos com habilidades militares especializadas.

“Há uma grande mudança no treinamento, na qualidade do treinamento”, afirmou o brigadeiro-general Aminullah Patyani, comandante do Centro de Treinamento Militar de Cabul.

Em outubro, por exemplo, o Ministério de Defesa afegão abriu uma escola para membros da artilharia. Alguns desses programas mostram claros sinais de progresso, incluindo voos agendados com pilotos e helicópteros afegãos para transferir soldados de Kandahar a Cabul.

“Estamos chegando ao ponto onde temos missões confiáveis e repetíveis da Força Aérea afegã”, disse o brigadeiro-general David W. Allvin, que comanda o esforço da OTAN para desenvolver uma capacidade afegã na aviação.

O coronel John G. Ferrari, comandante-adjunto da Missão de Treinamento da OTAN no Afeganistão, citou um “fator inevitabilidade”, pelo qual as forças locais de segurança, em teoria e se treinadas corretamente, aumentam em quantidade, habilidade e estado de equipamentos, inclinando acentuadamente a guerra em favor do governo.

Para que isso ocorra, o Pentágono precisa superar um persistente problema nas forças de segurança afegãs: a deserção. Estimativas oficiais colocam a deserção total em cerca de 3% ao mês. Ela representa um poderoso escoamento, que dificulta o crescimento. Policiais e soldados simplesmente desaparecem, mesmo com substitutos aparecendo rapidamente.

Por essa razão, para que o exército cresça em 36 mil novos soldados, o governo precisa recrutar e treinar 83 mil afegãos, segundo projeções divulgadas pela OTAN.

Da mesma forma, para que a polícia atinja o crescimento esperado de 14 mil, o governo precisa treinar 50 mil recrutas. Isso eleva os custos aos ocidentais que pagam a conta.

A missão de treinamento no Afeganistão também trabalha sob um legado de promessas não cumpridas no passado, treinamento inadequado mesmo em habilidades básicas, como capacidade de tiro e dirigir veículos militares, além de um padrão de superestimar o grau de prontidão ou habilidade das tropas.

No início do ano, o Pentágono e autoridades graduadas afegãs e americanas em Cabul insistiram que a complexa operação de restabelecer a presença de um governo em Marjah, região dominada por talibãs, era “comandada por afegãos”.

Mas não era. Muitas unidades afegãs, pelos relatos de inúmeros americanos presentes, tiveram um desempenho muito fraco. Algumas unidades evitaram abertamente os deveres de combate – se recusaram a patrulhar ou a enviar um mínimo de soldados nas patrulhas americanas, algumas vezes apenas dois soldados para acompanhar um pelotão dos Estados Unidos. Os afegãos restantes ficavam para trás, passando o tempo na relativa segurança dos postos militares protegidos pelos americanos.

Nas operações de Kandahar, relatos continuam indicando que as forças americanas estão quase sempre na liderança.

Uma avaliação formal do Pentágono a respeito da prontidão afegã é esperada para dezembro, e pelo plano de Obama, as tropas americanas poderiam iniciar uma retirada gradual no próximo verão (do Hemisfério Norte).

Mesmo com a aproximação desses prazos, muitos oficiais mencionaram o gerenciamento das expectativas.

O brigadeiro-general Carmelo Burgio, oficial italiano que comanda o esforço de desenvolvimento da polícia, afirmou que a OTAN havia dado passos práticos em direção à competência policial, que o treinamento havia melhorado.

Porém, desenvolver um policial experiente, quanto mais uma força experiente, leva muitos anos – talvez um tempo muito maior do que os Estados Unidos e outros países da OTAN teriam a paciência de esperar.

“Acreditamos estar no caminho certo”, afirmou Burgio. “Precisamos de tempo. Sem tempo, sem paciência, tudo isso é impossível”.    

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