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Tremor amplia abismo social do Haiti

Tremor amplia abismo social do Haiti

Atualizado: Terça-feira, 27 Abril de 2010 as 12

As luzes do cassino sobre esta cidade destruída acenavam enquanto apostadores usando roupas recém-passadas iam em direção à roleta e às máquinas caça-níqueis. Num restaurante ali perto, os comensais tomavam champanhe Veuve Clicquot e comiam costeletas de carneiro da Nova Zelândia a preços dignos de restaurantes nova-iorquinos.

Alguns metros mais adiante, centenas de famílias desalojadas pelo terremoto padeciam sob tendas, tomando banho de balde e fazendo necessidade na rua, enquanto crianças descalças brincavam no lixo.

Campo de refugiado próximo a estabelecimentos de luxo em Petionville, na capital do Haiti. (Foto: New York Times)

Este é o distrito de Petionville, em Porto Príncipe, um bastião dos abastados no Haiti, onde uma sensação deturpada de normalidade se fixou após o terremoto de janeiro. Os negócios estão agitados nas butiques luxuosas, restaurantes e casas noturnas que reabriram nas vertentes das colinas da capital, enquanto milhares de pessoas sem teto e famintas acampam nas ruas ao redor, às vezes literalmente na porta de suas casas.

"Algumas vezes os ricos têm que passar por cima da gente para entrar", disse Judith Pierre, 28 anos, empregada doméstica que mora há várias semanas numa tenda com suas duas filhas, na frente do Magdoos, um restaurante libanês chique onde os comensais relaxam num jardim e fumam tabaco aromatizado com narguilé. Motoristas particulares de alguns clientes fazem fila de veículos utilitários perto da tenda de Pierre, na calçada perto da entrada.

O Haiti há muito tempo tinha uma desigualdade gritante, com pequenos bolsões de riqueza persistindo no meio da pobreza extrema. O próprio distrito de Petionville era economicamente misturado antes do terremoto, com famílias pobres morando perto de mansões com enormes portões e vilas de gente rica.

Porém, o desastre tem focado nova atenção neste abismo, causando contrastes surreais nas ruas dos distritos centrais de Porto Príncipe. Pessoas em tendas fedendo a esgoto vivem em áreas aonde haitianos abastados, agentes humanitários e diplomatas vão para gastar seu dinheiro e relaxar. Muitas vezes, apenas um portão e um segurança armado com uma espingarda separaram os novos sem-teto de estabelecimentos como a Les Galeries Rivoli, uma butique onde haitianos abastados e estrangeiros compram relógios Raymond Weil e camisetas Izod.

"Não há lógica no que está acontecendo agora", disse Tatiana Wah, haitiana especialista em planejamento da Columbia University que mora em Petionville e trabalha como consultora para o governo haitiano. Wah contou que as farras em algumas casas noturnas perto de sua casa, frequentadas por haitianos ricos e estrangeiros, estavam tão altas – ou mais altas – quanto antes do terremoto.

As organizações não governamentais estão "inundando a economia local com seus gastos", ela disse, "mas não está claro se muito disso está vazando".

Aleksandr Dobrianskiy, ucraniano dono do cassino Bagheera aqui nas colinas, sorria enquanto os clientes entravam no estabelecimento, numa noite recente de sábado, bebendo cuba libre e inserindo fichinhas nas máquinas caça-níqueis.

Campo de refugiados do terremoto na periferia de Porto Príncipe. (Foto: AP)Ele disse que os negócios nunca estiveram melhores, atribuindo o aumento de preços do cassino ao dinheiro que entra no Haiti a partir de projetos de ajuda emergencial. Esse gasto circula por áreas específicas da economia, à medida que haitianos instruídos conseguem trabalho junto a agências de ajuda internacional e os estrangeiros trazem dinheiro do exterior, usando-o em moradia, segurança, transporte e lazer.

"O Haiti é como um submarino que acabou de chegar ao fundo do mar", disse Dobrianskiy, 39 anos, que se mudou para o país há um ano e carrega um revólver Glock para sua proteção. "Não há outra direção para ir, a não ser para cima."

Às vezes, os universos dos pobres e dos ricos colidem. Crimes violentos e sequestros estão em níveis relativamente baixos desde o terremoto. Porém, quando dois agentes humanitários europeus da organização Médico Sem Fronteiras foram raptados do lado de fora do elitizado restaurante Plantation, em março, e mantidos em cativeiro por cinco dias, o episódio serviu como um lembrete de como a pobreza do Haiti pode dar margem a ressentimentos e criminalidade.

A amplitude da miséria econômica do país parecia incompreensível para muitas pessoas antes do terremoto, com quase 80% da população vivendo com menos de 2 dólares por dia. Uma pequena elite em mansões fechadas aqui em Petionville e outros distritos exerce um grande poder econômico.

No entanto, com partes de Porto Príncipe agora em ruínas, dezenas de milhares de pessoas desalojadas pelo tremor estão acampando diretamente nos redutos antes associados a poder e riqueza, como a Praça St.-Pierre (na frente do elegante Kinam Hotel) e o terreno do gabinete do primeiro-ministro Jean-Max Bellerive.

O maior assentamento de tendas da cidade, com mais de 40 mil desalojados, se espalha pelas colinas do Petionville Club, um clube de campo com estrutura de golfe que, antes do terremoto, tinha sua própria página no Facebook para membros ("Tomei o melhor Citronade do mundo. Juro, acho que tomei milhares", dizia um deles).

As butiques e restaurantes de Petionville formam um contraste agudo com a realidade econômica paralela no campo do Petionville Club. Em seu labirinto de lojas, vendedores comercializam peixe seco e inhame por uma fração do preço da culinária francesa oferecida em restaurantes próximos, como o Quartier Latin ou o La Souvenance.

Manicures fazem unhas no acampamento. Um cabeleireiro aplica extensões de cabelo numa barraca. O acampamento tem até seu próprio Paradis Cine, armado numa tenda com espaço para 30 pessoas. O cinema cobra entrada (US$ 1,50) para a exibição do filme "2012", sobre o fim do mundo, conhecido aqui como "Apocalipse".

"As pessoas do acampamento também precisam de diversão", disse Cined Milien, 22 anos, operador do Paradis Cine.

Mesmo assim, uma entrada para ver "Apocalipse" é um luxo fora do alcance da maioria das pessoas que perderam suas casas no terremoto. Alguns dos abastados de Petionville que reabriram seus negócios o fizeram de forma muito cautelosa, conscientes das desgraças que persistem em sua porta.

"É difícil para as pessoas dançarem e se divertirem", disse Anastasia Chassagne, 27, dona de um bar da moda em Petionville e que estudou na Flórida. "Coloco música, mas realmente baixinha, para que as pessoas lá foram não ouçam e pensem ‘Essas pessoas estão se divertindo’".

Nem todos em Petionville têm esses escrúpulos. Dobrianskiy, dono do cassino, disse estar feliz porque a moeda do Haiti, o gourde, tinha se fortalecido recentemente contra o dólar, para um patamar mais alto do que antes do terremoto, em parte devido ao fluxo de dinheiro estrangeiro no país.

No andar acima do cassino de Dobrianskiy, uma casa noturna chamada Barak, com música nas alturas e coquetéis com preços dignos de Miami, serve a uma elite diferente aqui: funcionários das Nações Unidas e estrangeiros que estão trabalhando para grupos de ajuda humanitária. Eles se misturam com dezenas de haitianas sugestivamente enfeitadas e alguns poucos haitianos endinheirados.

Enquanto centenas de famílias desalojadas se amontoavam sob as tendas a alguns metros dali, a música do Barak continuou noite adentro. Um barman não conseguia acompanhar os pedidos por cerveja Presidente.

"Os que se foram já se foram e estão enterrados, não podemos fazer nada em relação a isso", afirmou Michel Sejoure, 21 anos, um haitiano que desfrutava sua bebida no Barak. Quando questionado sobre o acampamento de desalojados naquela mesma rua, ele disse: "Eu gostaria de ajudar, mas não tenho o suficiente, e o governo é que deveria estar ajudando essas pessoas".

"Mas", ele disse, tentando ser ouvido com a música ensurdecedora, "o governo não ajuda".

Por: Simon Romero

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