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É Tudo Verdade mostra juventude iraniana da política ao ecstasy

É Tudo Verdade mostra juventude iraniana da política ao ecstasy

Atualizado: Sexta-feira, 1 Abril de 2011 as 11:45

Quem observa de longe, pelos noticiários de TV e das agências internacionais, poderia facilmente imaginar que o Irã de hoje é o lar de uma juventude resignada, obediente e sobretudo acuada pelas rígidas leis islâmicas, que proíbem qualquer contato com a cultura ocidental.

Mas logo nas primeiras imagens do documentário "A onda verde", que tem sua estreia em São Paulo neste sábado (2) como parte da 16ª edição do festival É Tudo Verdade (veja abaixo horários alternativos e do Rio), somos apresentados a um outro Irã: em um estádio de futebol lotado, dezenas de milhares de jovens iranianos vestem lenços, bandeiras e camisetas verdes enquanto ouvem, entre sorrisos e lágrimas nos olhos, o discurso de Mir-Houssein Mossauvi.

Militantes pró-Mossauvi carregam cartaz do ex-candidato à presidência do Irã (Foto: Reprodução)

  Com jeitão de professor universitário e sem o semblante pesado que por anos adornou cartazes de líderes políticos e religiosos no país, Mossauvi era o então candidato às eleições presidenciais de junho de 2009, que propunha profundas reformas e abertura ao país. "A onda verde", como o próprio nome sugere, registra o clima de euforia, esperança e supreendente liberdade política - para um país que já era comandado pela linha-dura de Mahmoud Ahmadinejad - que se espalhou pelas ruas, em especial da capital, Teerã, nas semanas que antecederam a eleição.

Moussavi, como quis a história (ou os líderes religiosos), foi derrotado nas urnas, e a tal onda verde foi engolida por um tsnuami vermelho-sangue que tomou as ruas da capital iraniana para calar a voz dos milhares de descontentes, que voltaram a promover gigantescas manifestações públicas gritando, desta vez, um outro slogan: "Onde está o meu voto?".

Em um Irã onde é impossível portar uma câmera de filmagem profissional sem autorização expressa do governo, o documentário foi produzido a partir de vídeos postados no YouTube, mensagens de Twitter e depoimentos de iranianos exilados colhidos pelo diretor Ali Samadi Ahadi. Os diversos e naturais "buracos" na história são preenchidos com animações em linguagem de quadrinhos que lembram o documentário "Valsa com Bashir".

Jovens iranianos retratados no documentário em média-metragem 'Menos dois' (Foto: Divulgação)

  Teerã, underground

Mas a juventude iraniana não quer apenas tomar o poder. Em alguns casos, serve o ecstasy. Desafiando as severas punições contra qualquer tipo de droga no país, jovens de Teerã dão a cara no média-metragem "Menos dois", participando de festas clandestinas regadas a pastilhas e bebida alcóolica - tudo, claro, proibido no país.

Com sua primeira exibição marcada para a próxima terça-feira (5), em São Paulo, o minidocumentário de Mohammad Ehsani entrega que, por mais resistência que tente oferecer à "contaminação" da cultura ocidental, o Irã tem também seus rappers que imitam os ídolos norte-americanos, garotas que parecem saídas de um "club" de música eletrônica europeu e patricinhas que trocam o véu obrigatório na rua por ousadas minissaias em festinhas caseiras.

"Menos dois" ainda tenta mostrar o outro lado da moeda: o junkie perdido no vício que vira morador de rua e passa a injetar suas doses de heroína em meio à sujeira no céu aberto, e mulheres devastadas pela miséria e demência mental.

O contraponto, no entanto, nem sempre funciona, possivelmente graças ao tempo para lá de limitado (27 minutos) do filme. Mas um de seus maiores méritos é que, diferentemente de "A onda verde", editado e realizado dentro de um protegido estúdio na Alemanha, o média-metragem de Ehsani foi gravado no coração de Teerã, "contravenção" tão arriscada quanto ser pego pela polícia com comprimidos de ecstasy ou uma garrafa de uísque num país islâmico.

  16º Festival É Tudo Verdade

"A onda verde", de Ali Samadi Ahadi (2010)

São Paulo: Reserva Cultural (Av. Paulista, 900 - sala 2), neste sábado (2), às 15h; Centro Cultural Banco do Brasil (R. Álvares Penteado, 112), no dia 7 de abril, às 15h

Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil (R. Primeiro de Março, 66), nos dias 5 de abrl, às 18h, e 9 de abril, às 16h

"Menos dois", de Mohammad Ehsani

São Paulo: Reserva Cultural (Av. Paulista, 900 - sala 2), nos dias 5 de abril, às 15h, e 7 de abril, às 13h

Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil (R. Primeiro de Março, 66), nos dias 8 de abril, às 12h, e 10 de abril, às 12h.      

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