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Um ano depois, golpe em Honduras continua a dividir América do Sul

Um ano depois, golpe em Honduras continua a dividir América do Sul

Atualizado: Segunda-feira, 28 Junho de 2010 as 8:52

Um ano após um dos golpes mais incomuns da história das Américas, que tirou do poder o presidente Manuel Zelaya, a crise política que se abateu sobre Honduras continua a dividir a América do Sul. O novo governo, que tomou posse em janeiro, ainda não conseguiu convencer parte da comunidade internacional de sua reintegração às instituições das quais foi afastado - entre as quais a OEA (Organização dos Estados Americanos).

De um lado, estão os países como Colômbia e Peru que, seguindo a posição dos Estados Unidos, reconheceram as eleições convocadas em novembro que levaram Porfírio Lobo à Presidência. De outro, estão o Brasil - que deu abrigo a Zelaya na sua embaixada em Tegucigalpa - Argentina, Equador, Venezuela, Paraguai e Bolívia, que não reconhecem a atual administração eleita no pleito sem a participação do deposto.

Parlamentares da base governista do Congresso Nacional hondurenho se mobilizam para realizar um giro pelos países que ainda não reconhecem o atual governo em busca de apoio. O primeiro a ser visitado é o Chile, com viagem prevista para 6 de julho, segundo jornais hondurenhos.

Trata-se de mais um esforço para tirar o país do isolamento que enfrenta na região, a despeito do apoio de Washington. Desde que se elegeu, Lobo tentou formar uma comissão internacional para analisar os eventos do ano passado, mas os membros foram rejeitados tanto pelos apoiadores de Zelaya quanto por Roberto Micheletti, que assumiu interinamente o governo após o golpe.

No mês passado, Lobo foi convidado a participar do encontro entre União Européia e América Latina em Madri, mas países que não reconhecem a administração, como Brasil e Venezuela, ameaçaram um boicote ao evento se o nacionalista participasse.

''Ainda há alguns países que acreditam que Honduras deve tomar algumas medidas adicionais, numa posição diferente da adotada pelos Estados Unidos'', disse o secretário-assistente de Estado para a região, Arturo Valenzuela ao jornal ''New York Times'', na última sexta.

Posição brasileira

De acordo com o Itamaraty, o Brasil não mudou sua posição em relação ao país centro-americano, isto é, a de não reconhecer a legitimidade do governo eleito após um golpe de Estado.

Para o professor José Augusto Guillon, fundador do núcleo de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), o país ainda pode ter papel definidor na discussão sobre uma possível reintegração de Honduras aos organismos internacionais.

''Existe uma comissão criada pela OEA que está discutindo condições a se exigir para que Honduras seja reintegrada. Mas esse veto [ao país] deve continuar. O fiel da balança pode ser o Brasil. O governo deu declarações de que iria flexibilizar sua posição e já se passou um ano. Mas se o Lula não conseguir fazer o sucessor, essa situação vai mudar'', afirma.

Já para o professor Paulo Edgar Resende, coordenador do núcleo de análise de conjuntura internacional da PUC-SP, uma reintegração do país na região passa pela reinstauração de um regime democrático ''sem perseguições''.

''O processo eleitoral ocorreu, não só na visão do Brasil, mas da maior parte dos países da América do Sul, com alguns constrangimentos para os eleitores. A expectativa é que se reinstaure um regime democrático sem perseguições. Há dados que revelam que a oposição está longe de ter seus movimentos respeitados e, a partir daí, acho que há ainda déficit democrático em Honduras. Mas a tendência é que esta situação venha a se ajeitar'', afirma.

Zelaya

Exilado na República Dominicana após as eleições, Manuel Zelaya aceitou em março o convite do presidente venezuelano, Hugo Chávez, para presidir o conselho político da Petrocaribe, uma iniciativa de cooperação energética liderada pelo governo venezuelano.

Para os analistas ouvidos pelo G1, a hipótese de um retorno de Zelaya ao poder, como ainda defende Chávez, já não é viável. ''Ele não quer se arriscar porque quer ter garantias de um retorno e não uma simples prisão, como é ameaçado. Os Três Poderes de Honduras se mostraram bastante comprometidos com o golpe e, posteriormente, com o processo eleitoral. [...] O importante é que se garanta a possibilidade de um debate público sem ameaças a lideranças'', afirma Paulo Edgar Resende.

''Zelaya retornou com expectativa forjada por ele mesmo e por Chávez que a volta dele provocaria uma rebelião em Honduras e o que se viu foi uma eleição normal. Ele perdeu. Não acredito que seria preso e que não retorne [a Honduras] por causa disso. Mas porque se tornou um zero à esquerda no país. Está exercendo um papel na Venezuela'', diz José Augusto Guillon.

Por Amauri Arrais

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