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"Zona Verde" de Bagdá vira símbolo de incerteza sobre futuro do Iraque

"Zona Verde" de Bagdá vira símbolo de incerteza sobre futuro do Iraque

Atualizado: Sexta-feira, 25 Junho de 2010 as 9:31

O termo foi cunhado pelos militares norte-americanos. Mas, ao contrário de alguns outros - como ''pontos de controle de entrada'', por exemplo -, o nome conseguiu se fixar no imaginário popular. ''Zona Verde'' sempre pareceu dizer muito, aqui e em outros países. Tratava-se do observatório imperial de uma ocupação, ou o forte de um governo nunca soberano o suficiente - reduto ou bolha, refúgio ou irrealidade.

Muwafaq al-Taei, arquiteto e ex-morador daquela região, pensou a respeito da descrição antes de escolher a sua própria.

''Um estado de espírito'', julgou al-Taei.

Recentemente, o exército dos EUA se retirou formalmente dos últimos nove pontos de controle que mantinha neste desgrenhado pedaço de território, delimitado após a queda de Saddam Hussein, em abril de 2003. A ação, enormemente simbólica, é mais uma num ano cheio delas, à medida que os Estados Unidos retiram todas as 50 mil tropas até o fim do verão.

''Mais um capítulo'', disse o major-general Stephen Lanza, porta-voz do exército norte-americano.

Porém, a mudança de humor a respeito da Zona Verde também diz algo sobre o Iraque dos dias de hoje, onde o calor do verão decola junto às frustrações do povo. O país segue sem governo, quase três meses depois que os eleitores foram às urnas para escolher um representante. O povo transpira enquanto os políticos falam (e falam, e falam), e a Zona Verde - até agora, mais uma ideia do que um local - se torna mais um símbolo num país que ainda não é um estado.

''Este sempre foi o lugar do poder de alguém'', disse al-Taei.

O trecho ao longo do Tigre representa autoridade, desde que o Rei Ghazi buscou apoio ao falar com seus súditos a partir de sua estação de rádio no Palácio Al Zuhour, que ele construiu ali em 1936. Muitos outros palácios estão ali hoje, embora os velhos nomes tenham caído. Alguns ainda se referem à zona como Karradat Mariam, nome de um santo local enterrado atrás de suas barricadas de concreto. Poucos se lembram do nome Bairro Legislativo, uma de suas encarnações anteriores.

Quase todos a conhecem pelo nome que os americanos trouxeram.

''Bem-vindo à Zona Verde'', diz uma placa, em inglês e árabe.

Permanece uma textura americana no local, onde técnicos da CIA costumavam beber em seu próprio bar e crianças iraquianas com talento comercial vendiam as bugigangas de Saddam Hussein (relógios adornados com seu retrato eram os favoritos).

Latas vazias de energéticos, como Wild Tiger e TNT Liquid Dynamite, sujam as ruas. Contêineres enferrujados dividem o espaço com barricadas de areia cobertas com lonas esfarrapadas. As placas ainda estão em inglês: ''Proibido estacionar'', diziam as onipresentes barreiras de cimento.

''Verde'' ainda é o apelido preferido para o local, mesmo em árabe. Isso às vezes cria confusões, já que outro bairro de Bagdá tem o mesmo nome.

Uma pergunta inevitável aparece com frequência: ''O Verde deles ou o nosso?''.

Mas, como al-Taei apontou, enquanto dirigia recentemente pela Zona Verde, passando alguns dos palácios que ele havia ajudado a construir, ''A história do Iraque está aqui''.

''Cada prédio tem uma história'', disse ele, como símbolo ou não.

Al-Taei apontou onde um primeiro-ministro afastado tentou iludir seus captores vestido de mulher, em 1958. Ele lançou um olhar ao local onde os remanescentes da monarquia haviam sido executados um dia antes. Gesticulou na direção do teatro onde Hussein, consolidando o poder em 1979, teve os nomes dos supostos membros da quinta coluna lidos a uma assembleia. Os suspeitos de conspiração foram, um por um, retirados de seus assentos.

Através da janela, ele olhou para os palácios - Bayraq, Salam e outros - ainda destruídos pelos bombardeios americanos, emblemas até hoje de uma remoção de governo.

''O que Saddam construiu'', disse al-Taei.

A Zona Verde será permanentemente um artefato americano da ocupação, mas mesmo hoje, ela ainda traz a marca de Hussein. Suas iniciais em árabe continuam nos muros de pedra, a pinturas de azulejos nas majestosas entradas em arco ou as curvas de portões em ferro forjado. As monumentais espadas do Arco da Vitória, presas por mãos feitas à semelhança das dele, somente agora estão sendo retiradas. A torre de oito lados, considerada por ele como um estilo próprio, permanece ao lado de uma mesquita construída nas formas de uma aula de geometria infantil.

Nesse ponto, a Zona Verde talvez seja ainda outra metáfora, além daquele legado de poder americano. Os Estados Unidos conseguiram esmagar o governo de Hussein. Mas o que ajudaram a construir no seu lugar continua incipiente, repleto das ruínas do passado.

''As ruas daqui são escuras, somente Deus é seu guia'', disse um dono de loja que deu seu nome como Abu Hussein, numa loja em frente à entrada da Zona Verde.

Ele quis dizer que ninguém sabe o que acontece dentro dali.

''Eles não ouviram uma única reclamação do povo'', afirmou ele, sentado diante de um ventilador que soprava ar quente. ''Nenhuma autoridade prestou atenção a qualquer cidadão local''.

Ele tinha mais reclamações. Assim como al-Taei. Assim como todas as pessoas na rua - do tráfego confuso graças aos pontos de guarda ao longo das entradas da Zona Verde, à exigência de crachás, ou badjat, para entrar nas ruas de dentro - que são largas o bastante para um desfile militar.

Alguns dos mesmos protestos foram ouvidos em 2003, quando o verão chegou e as autoridades americanas tentavam desajeitadamente se virar em meio a blecautes, faltas de água, crimes e violência, ao mesmo tempo lembrando os iraquianos de que agora eles tinham um vislumbre de liberdade.

Desta vez, as reclamações eram contra o primeiro-ministro Nouri al-Maliki, e outras autoridades residindo na Zona Verde. Egoísta era um insulto comum; outros eram mais afiados. Ninguém esperava que eles formassem um governo tão cedo. As apostas inteligentes sugeriam que isso poderia esperar até outubro.

''Se você é vizinho de al-Maliki lá dentro, talvez consiga encontrar um emprego'', explicou Farouk Talal, funcionário de 27 anos de uma loja de telefones celulares. ''Do contrário, você não conseguirá''.

Mais abaixo na rua, Haider Kadhem chamou a área de ''outro país''.

''Estamos no Iraque; pode-se dizer que a Zona Verde é um Iraque diferente”, disse ele. “O crachá seria o passaporte, e sem um passaporte você não pode entrar naquele país''.

Por Anthony Shadid

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