Alckmin classifica liberdade de imprensa como "pleonasmo"

Alckmin classifica liberdade de imprensa como "pleonasmo"

Atualizado: Terça-feira, 22 Fevereiro de 2011 as 8:14

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), exaltou a necessidade de o país ter liberdade de imprensa, a qual classificou como um "pleonasmo". "A imprensa só é se for livre", disse.

Alckmin discursou após a fala do prefeito Gilberto Kassab (DEM) e antes da presidente Dilma Rousseff.

O tucano afirmou que "nem sempre as relações entre imprensa e poder são harmoniosas", mas que esse embate contribui para a democracia.

"Nem sempre as relações entre a imprensa e o poder, mesmo exercida segundo regras da democracia, são harmoniosas. Mas que seja esse o bom conflito, a divergência dentro da convergência maior: a imprensa tem que ser livre", disse.

VEJA A ÍNTEGRA DO DISCURSO DE GERALDO ALCKMIN

Senhora presidente da República Federativa do Brasil, Dilma Rousseff; Michel Temer, vice-presidente; família Frias: Luiz, Otavio, Maria Cristina, Maria Helena; senador José Sarney, presidente do Senado Federal; deputado Marco Maia, presidente da Câmara; ministro Cezar Peluso, presidente do Supremo Tribunal Federal; autoridades aqui nominadas; amigas, amigos.

É uma grande alegria estarmos reunidos nesta noite para a festa de 90 anos da Folha de S.Paulo. É para mim uma honra poder dirigir uma palavra à família Frias, aos jornalistas e funcionários da Folha, aos leitores do jornal, aos cidadãos de São Paulo e do nosso país.

A verdade é que o saudoso e querido Octavio Frias de Oliveira, seu Frias, não gostava muito de festas. Ele gostava mesmo era de trabalho. Se realizava no dia a dia da empresa, longe dos aplausos, construindo a Folha que hoje admiramos. E com a qual às vezes até nos irritamos, por que não?

Este exemplo da ética do trabalho que eu primeiro gostaria de lembrar aqui. O seu Frias, como gostava de ser chamado, foi um homem ao mesmo tempo austero e despojado. Uma figura cativante, mas sempre muito franca nas suas relações pessoais. Muito direta nas suas posições diante do mundo. Acredito que essas sejam qualidades que gostaríamos de ver também nos homens públicos.

Espero não estar traindo a memória de todos os personagens que construíram a Folha desde 1921, ao homenageá-la aqui na figura daquele que mais contribuiu para que ela seja o que é hoje. E o que ela é hoje?

Um produto crítico, plural, apartidário, consolidado na campanha pelas Diretas-Já, na qual o jornal teve protagonismo impar e da qual saiu com capital editorial suficiente para se tornar o jornal mais influente do país.

Mas esses compromissos só puderam se afirmar porque o seu publisher percebeu desde sempre a importância de ter uma empresa financeiramente sadia e robusta, uma empresa que não dependesse dos governos para sobreviver, e que assim pudesse depender apenas de seus leitores e da sua própria credibilidade.

Em grande parte o sucesso da Folha vem de fiscalizar a atuação dos agentes públicos aos quais a sociedade delega a tarefa de gerir os impostos que paga. Daí vem uma observação importante: todos nós erramos, jornalistas e agentes públicos. Mas quando erramos nós, agentes públicos, o fazemos com o dinheiro da sociedade. Um leitor pode escolher outro veículo se este ou aquele não o agrada, ou erram demais, mas um cidadão não pode escolher pagar ou não pagar impostos, diante da eventual incúria de governos.

Nem sempre as relações entre a imprensa e o poder, mesmo aquele exercido segundo as regras da democracia, são harmoniosas. Que seja esse o bom conflito, que seja essa a divergência, dentro da convergência maior: a imprensa tem que ser livre.

Saúdo os primeiros 90 anos da história da família Folha. Que os próximos 90 assistam o país ainda mais democrático, mais justo, mais solidário. A democracia nos ensina que as sociedades livres estão obrigadas a um único consenso: haver regras civilizadas para o exercício do dissenso.

Meus parabéns aos jornalistas, aos funcionários da Folha, a todos os presentes. Costumo dizer que a expressão "imprensa livre" deveria ser considerada um pleonasmo. A imprensa só é se for livre.

Deixaremos, senhoras e senhores, o legado da liberdade para aqueles que muito depois de nós estarão saudando aqui, um dia, os outros 90 anos da Folha de S.Paulo.

Muito obrigado.

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