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'Amor?' investiga a relação entre amor e violência

'Amor?' investiga a relação entre amor e violência

Atualizado: Sexta-feira, 15 Abril de 2011 as 11:28

O ponto de interrogação ao lado do título do documentário 'Amor?' não é por acaso. O sinal de pontuação está ali exatamente para mostrar que este é um filme de questionamentos, tanto emocionais quanto formais. Dirigido por João Jardim ('Pro dia nascer feliz'), o longa transita entre o gênero documental e a encenação, sem nunca chegar a ser um filme ficcional.

A estrutura lembra ligeiramente 'Jogo de cena' (2007), de Eduardo Coutinho, mas aqui o filme se abre de outra forma. Atores profissionais - a maioria deles bem conhecidos do grande público, como Lília Cabral, Eduardo Moscovis e Julia Lemmertz - encenam depoimentos colhidos pelo diretor e sua equipe sobre histórias de amor complicadas. Por 'complicadas', entendam-se romances em que aconteceram agressões físicas, psicológicas, verbais.

Cada um dos atores fala diretamente à câmera, contando 'sua' história em primeira pessoa como se fossem eles mesmos. O diretor usou o recurso da encenação para evitar problemas legais. As histórias contadas têm como elemento comum as agressões. Todos os depoentes agridem e/ou são agredidos em algum momento de seu relacionamento. Algumas das pessoas estiveram bem perto da morte pelas mãos daqueles que amavam.

Reflexão sobre relações

É aí que entra a interrogação do título: esse tipo de relação é amor? Essa dependência que beira o doentio é afeto? Quando o carinho deixa de existir e se transforma numa ameaça de morte? Qual o caminho seguido entre a paixão e a agressão? Ao mesmo tempo, 'Amor?' não traz respostas claras a questionamentos como esse. Este é um trabalho que propõe reflexão, mais do que explicações. Jardim e seu elenco deixam no ar as respostas - se é que elas existem.

Ao todo, são oito histórias tristes e viscerais de pessoas que amam, são amadas, sentem ciúmes, culpas, medos. Em alguns casos, há um círculo vicioso, agressões gerando mais agressões, até que um dos envolvidos rompa com o ciclo. O que sobra, ao final, parece ser, mais do que a ternura, os momentos de dor e desespero, aqueles que empurram os amantes até um limite.

O trabalho dos atores consiste em se apropriar das histórias e personagens - que eles não conheceram, sequer ouviram as gravações dos depoimentos, apenas leram as suas transcrições. Lília, Moscovis, Julia, Mariana Lima e Fabiula Nascimento se destacam mais pela intensidade de suas histórias - pois, no filme, todas as interpretações estão no mesmo nível.

As histórias de romances doentios de 'Amor?' fazem lembrar uma fala da personagem Lucia McCartney, do conto homônimo de Rubem Fonseca: 'Minha vida é um punhal de dois gumes fatais. Amar é sofrer, não amar é sofrer mais'. As pessoas do filme de Jardim amam, apanham, batem e sofrem, e, ainda assim, continuam a amar.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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