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Ex-prefeito de Diadema barra obra de esgoto a vizinhos

Ex-prefeito de Diadema barra obra de esgoto a vizinhos

Atualizado: Quinta-feira, 28 Abril de 2011 as 9:25

Moradores da Rua das Seringueiras, em Diadema, no ABC, ao lado dos hidrômetros que foram instalados na rua sem qualquer proteção (Foto: Marcelo Mora/G1)

  Moradores de uma rua na periferia de Diadema, no ABC, que, garantem, pagam em dia seus impostos e taxas municipais, como o IPTU, aguardam há anos a instalação da rede de coleta de esgotos. As obras, no entanto, não começam porque um ex-prefeito da cidade não autoriza que a tubulação da futura rede de esgoto passe por seu terreno, localizado ao lado da Rua das Seringueiras, no Jardim Eldorado.

José Augusto da Silva Ramos (PSDB), prefeito de Diadema na gestão de 1989 a 1992, confirma que não deu autorização para a realização da obra. “Sou uma pessoa que defende a natureza”, afirmou. O bairro fica próximo às margens da Represa Billings, uma área de manancial. No terreno dele corre um córrego no qual já é despejado esgoto de várias ruas do bairro. “Tem que tirar o esgoto que está lá. A prefeitura tem de fazer o que é certo”, afirmou.

As famílias que vivem nas 16 casas da rua – na verdade, uma derivação sem saída da Rua das Seringueiras – afirmam que a prefeitura, por meio das secretarias de Serviços e Obras e de Meio Ambiente, autorizou a instalação da rede de esgoto pela Companhia de Saneamento de Diadema (Saned).

A Saned, por sua vez, informou ao G1 , por meio de sua assessoria de imprensa, que não há impedimento legal ou técnico para realização dos serviços e que possui toda infraestrutura necessária para iniciar as obras imediatamente. Segundo a empresa, os projetos, que preveem extensão de 121 metros de tubulação de 50 mm na travessa para coleta de esgoto do local, já estão prontos desde agosto de 2010.

A primeira alternativa seria passar pelo menos 48,35 metros de tubulação pelo terreno da Rua das Perobas, nº 244, com o esgoto sendo lançado em um coletor tronco existente na margem do córrego que passa no lote, justamente o que pertence ao ex-prefeito de Diadema. A Saned afirma que solicitou autorização para a passagem da rede em 25 de outubro de 2010, mas que até o momento não obteve a resposta positiva para executar as obras.

A outra opção, segundo a Saned, seria passar 184,5 metros de tubulação pelo terreno localizado atrás das casas, na Avenida Nossa Senhora dos Navegantes. A Saned tentou protocolar solicitação de autorização para passagem de rede em 22 de dezembro de 2010, mas o caseiro presente no imóvel se recusou a recebê-la. A empresa afirma que está tentando localizar o proprietário. Contudo, o nome do dono que consta no cadastro do IPTU vendeu o imóvel e não informa o nome do comprador.

Fossas sanitárias

Enquanto as providências não são tomadas, os moradores são obrigados a conviver com a falta da rede de coleta de esgotos, o que os obrigou, em alguns casos, a escavar fossas sanitárias no quintal de casa.

Marli Lopes na garagem de casa, onde foi escavada a fossa (Foto: Marcelo Mora/G1)

  É o caso da dona de casa Marli Josefa Gomes Lopes, de 52 anos, moradora da residência de número 688. “Quando enche (a fossa), temos de esvaziar com balde e mangueira. E, como não tem onde jogar, jogamos no terreno ao lado mesmo”, disse, ao apontar o lote do ex-prefeito. A exemplo dela, outros vizinhos dão a mesma destinação aos excessos de suas fossas.

Nas casas localizadas mais no final da rua, os moradores tinham feito um acordo para passar dutos pelo terreno que acabou sendo vendido recentemente. A solução, no entanto, também não foi das melhores. “Colocamos a tubulação para levar o esgoto até o córrego lá embaixo, mas o pessoal vem e rouba os tubos. Daí, o esgoto caía direto no terreno. Ninguém quer esgoto sendo despejado em sua propriedade”, admitiu a dona de casa Aete Maria da Silva, de 33 anos, e moradora da casa localizada no número 697.

Vandalismo

Outro problema enfrentado pelos moradores é o fato de os medidores de consumo de água, os chamados hidrômetros, terem sido instalados pela Saned de forma a ficar expostos no meio da rua e em número insuficiente. Para 16 residências da rua, existem apenas sete hidrômetros. As primeiras seis casas possuem medidores próprios. Um hidrômetro é dividido por duas famílias. E há um hidrômetro para as outras oito casas restantes.

Marli Lopes, por exemplo, não dispõe de hidrômetro. “Eu puxo a água do vizinho, que tem medidor individual. Pago um mês e ele paga o outro mês. O valor é de R$ 22”, disse. No caso das residências do fim da rua, que dividem o mesmo hidrômetro, as contas de água, curiosamente, apresentam valores distintos.

Contas do mesmo hidrômetro mas com valores distintos (Foto: Marcelo Mora/G1)

  “Fui na Saned e o valor mensal da minha conta é de R$ 35. Outros moradores pagam mais barato. Não dá para entender o critério, não sei como funciona isso”, reclamou a doméstica Ana Maria Oliveira Silva, de 42 anos, moradora da casa de número 691.

Uma única reclamação é comum a todos os moradores em relação aos hidrômetros: o vandalismo. “O pessoal passa e quebra os hidrômetros, abrem os registros, destroem tudo”, afirmou a dona de casa Maria Zilda, 50 anos, uma das mais antigas moradoras da rua. Sobre o problema com os medidores de água, a Saned informou que precisa fazer uma vistoria técnica no local para apresentar uma solução.

Sem a instalação da rede de coleta de esgoto, a rua também segue sem pavimentação e sem meio-fio. Uma camada de cimento foi jogado sobre a terra, feita por um candidato a vereador em eleições passadas, mas que aos poucos vai se desfazendo.

Numerações embaralhadas

Além disso, as contas que chegam mensalmente, como as de luz e telefone, apresentam numerações embaralhadas - que não correspondem aos reais proprietários - e distintas para cada uma das casas. “Cada conta vem com um número diferente, porque dizem que os terrenos não são registrados na prefeitura. Mas por que no IPTU então vem o número certo de cada casa? E cada um aqui recebe o IPTU direitinho para pagar”, disse, inconformada, a dona de casa Lúcia de Fátima Florêncio Dias, 52 anos, moradora do número 686.

Segundo ela, a solução encontrada pelo carteiro para fazer a entrega de forma correta é deixar toda a correspondência na primeira casa da rua, a de número 683. “O pessoal vai até lá para pegar as cartas e contas”, contou Lúcia.

“Sempre pagamos o IPTU, sempre. Não dá para entender por que não temos a rede de esgoto e outros benefícios que todo mundo tem”, questiona a técnica de enfermagem Arlete Orêncio, de 36 anos, moradora da casa de número 687.

Alheio às necessidades dos moradores da Rua das Seringueiras, o ex-prefeito José Augusto seguiu firme em sua decisão de não autorizar a passagem da tubulação em seu terreno. “A prefeitura quer passar (a tubulação) perto da minha casa. Lá não vai passar, não tem lei que permita isso. Tem de passar por qualquer lugar, mas não no meu terreno. Não tenho nada a ver com isso”, declarou.

Moradores ao lado do terreno da discórdia. "Eu defendo a natureza", garante o ex-prefeito de Diadema José Augusto da Silva Ramos (Foto: Marcelo Mora/G1)      

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