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"Girls" mostra garotas relutando em sair de uma adolescência tardia em Nova York

'Girls' retrata geração de jovens sem emprego e dependentes

Atualizado: Quarta-feira, 18 Abril de 2012 as 9:08

Em um quarto de hotel em Nova York, grogue após beber chá de ópio, Hannah joga um bolinho de papéis tão amarfanhados quanto ela no colo dos pais, horas depois de eles avisarem que cortariam sua mesada, e anuncia: "Está aí meu livro, eu posso ser a voz da minha geração".
A cena --uma piada, mas de um realismo ao mesmo tempo deprimente-- sintetiza "Girls", a série sobre quatro jovens amigas sobrevivendo em Nova York, sem nenhum glamour, que a HBO estreou no domingo (15) nos EUA.
O roteiro e os diálogos crus, escritos e protagonizados por Lena Dunham, 25, são uma tentativa ácida e precisa de retratar a turma que chega à idade adulta sob a pior crise em décadas e corre o risco de virar uma "geração perdida" (com diploma, sem emprego e dependente dos pais).
Não que "Girls" queira ser um tratado sociológico; tampouco apela ao niilismo com vistas ao choque de "Kids", o filme de 1995 de Larry Clark que virou referência no tema.
Há na série muito humor. Mas é um humor duro, desajeitado, cruel e sarcástico, assim como são as muitas cenas de sexo (em uma delas, Adam, o casinho de Hannah, a segura pelos pneuzinhos e pergunta se ela nunca pensou em tentar emagrecer).
É esse perfil, talvez, que explica por que a semidesconhecida Dunham (ela assina a elogiada comédia "indie" "Tiny Furniture", de 2010, sobre o mesmo tema) foi apadrinhada pelo diretor Judd Apatow ("O Virgem de 40 Anos"), aqui como produtor.
"Girls" mostra Hannah (Dunham) e suas amigas Marnie (Allison Williams), Jessa (Jemima Kirke) e Shoshanna (Zosia Mamet) relutando em sair de uma adolescência tardia em Nova York.
Em meio aos tropeços, há um pouco de drogas, bastante sexo, quase nenhum dinheiro e uma profusão de confissões e dúvidas.
Mas, apesar das comparações prévias com "Sex and the City" (1998-2004), pelo cenário e pelo despudor com que o quarteto de amigas aborda suas aventuras sexuais, a desengonçada Hannah, ciente de suas limitações, nada tem a ver com a sonhadora Carrie Bradshaw de Sarah Jessica Parker.
Dunham fez um esforço extra no primeiro episódio para afastar a associação, tomando o cuidado de aludir à predecessora: em dado momento, a bobinha Shoshanna diz ser uma mistura de Carrie, Samantha e Miranda --ao que Jessa dá de ombros, dizendo desconhecer a série.
As diferenças vão além do figurino (não há alusão a marcas, e as roupas, cortes de cabelo e quilos a mais das personagens não teriam lugar nas revistas de moda).
Enquanto em "Sex and the City" as protagonistas tinham carreiras bem-sucedidas e aspirações românticas, em "Girls" as meninas não sabem o que ambicionam. Tampouco são um modelo de amizade abnegada ou de sucesso em qualquer área.
Formadas há anos, nenhuma tem um emprego real; Hannah não tem nem trabalho: é dispensada do estágio não remunerado na estreia.
Nenhum dos personagens, porém, parece infeliz. É esse conformismo que tanto incomoda quanto permite rir.

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