Eleições e a Igreja: Cuidados para um povo especial

Eleições e a Igreja: Cuidados para um povo especial

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 às 03:23

O período eleitoral movimenta o Brasil inteiro, inclusive a Igreja do Senhor. Muitos cristãos serão candidatos a algum cargo eletivo e o povo de Deus, como em eleições anteriores, será alvo de disputa de votos por muitos candidatos. Esse quadro nos faz refletir sobre perguntas muito importantes como: Será que a Igreja tem o poder de decisão nas eleições? Será que um bom pastor pode ser também um bom deputado? Será que as necessidades da Igreja dependem de quem lidera o país?

Os evangélicos entraram na disputa eleitoral a partir da Constituinte de 1988. Desde então o que antes era sacrilégio, passou a ser a moda: Igrejas elegendo pastores e líderes com o intuito de ''defender'' os interesses do Povo de Deus. Nos últimos vinte anos a participação evangélica no Congresso Nacional tem variado de tímida a escandalosa. Tímida por não apresentar nada que pudesse promover mudanças claras no cenário político-social no Brasil. E escandalosa pelos exemplos de evangélicos envolvidos nas mesmas tramas que políticos sem compromisso com a Palavra nem com o Povo de Deus se envolvem. Afinal, a Igreja precisa de defensor? O Apóstolo Paulo já dizia que a nossa luta não é contra a carne ou o sangue (Ef 6:12).

Pela experiência de atuais políticos evangélicos, parece já ter ficado claro que um bom pastor não vai fazer necessariamente um bom político. Mudar do gabinete pastoral para o Congresso Nacional é algo que muitos acham fácil, mas que envolve vários atores silenciosos para a maioria da população e que gritam insistentemente para os que ocupam tais cargos eletivos. Vale à pena, aqui, considerar dois processos muito comuns nos dias de hoje, envolvendo candidatos evangélicos. Um no seu início e outro já quando foi eleito. 

O primeiro diz respeito a um partido que se aproxima de um pastor honesto e bem conhecido. A liderança do partido consegue convencer o pastor a se candidatar, oferecendo o material de campanha - panfletos, organização de comícios e gravação de programas eleitorais. A igreja inteira se mobiliza e decide votar no seu ''pastor político''. Só que, o que ele, nem os membros sabem, é que há um número mínimo para ser eleito em uma Casa – Senado, Câmara Federal e Assembléias Legislativas. É o Quociente Eleitoral.

O Quociente Eleitoral é o número mínimo de votos que um candidato precisa ter para ser eleito diretamente e é calculado com base na divisão dos votos válidos (Comparecimento total menos os votos em Branco e Nulos) pelo número de assentos em disputa em uma determinada Casa. Geralmente a maioria dos candidatos não alcança o quociente eleitoral. Para isso, há outras formas de completar os assentos. Uma delas é somar os votos dados aos candidatos de uma legenda ou coligação. O número de votos vai ser dividido pelo quociente eleitoral para gerar o número de assentos que aquela legenda ou coligação poderá obter. Se uma legenda conseguir dois assentos por conta da soma de votos os dois candidatos mais votados da legenda serão eleitos. O que isso significa?

Significa que o pastor não vai ser eleito. Ele se candidatou, pediu votos com base na sua proposta de ajudar o povo de Deus e de lutar pelas coisas do Senhor, mas seus votos não foram suficientes para ele ser eleito, pois não alcançou o quociente eleitoral. Nem ele nem ninguém da sua legenda. Daí, os seus votos serão somados ao da legenda e o candidato mais votado - talvez o presidente da legenda ou mais antigo - é que se elege. Como resultado, o voto dos cristãos acaba indo para uma pessoa sem o menor compromisso com o que o pastor estava defendendo. O povo de Deus pode ajudar a eleger um corrupto ou uma pessoa que defende o oposto do que o pastor defendia.

O segundo cenário nos coloca em um outro patamar. Digamos que o pastor foi eleito, pois tinha uma igreja muito grande e superou todos de sua legenda e conseguiu alcançar o quociente eleitoral de primeira. Ele é diplomado e empossado. Monta o seu gabinete e sua equipe. O que acontece agora? Onde estará a sua fidelidade? Veja abaixo alguns dos atores que irão exigir total compromisso, fidelidade e, até, obediência do deputado pastor.

Partido

O partido sempre terá uma voz no mandato do político. Suas diretrizes serão mais que oferecidas, serão impostas. Além disso, a lei eleitoral determina que o mandato pertence ao partido - com algumas exceções - por isso, a liderança faz uma grande pressão para que o político obedeça suas diretrizes.

Financiadores de Campanha

Esses são empresas que investiram na campanha e agora querem que a conta seja paga. Muitos deles foram o que é chamado de Hegemônicos Benignos, que bancam as necessidades de alguém sem aparente interesse. Só que no cenário político um Ator Hegemônico pode mudar de comportamento a qualquer momento, tornando-se um Hegemônico Maligno. É quando ele manda a conta exorbitante.

Igreja / Denominação

O pastor, para muitos foi empossado como um missionário para o povo de Deus. Eles esperam que ele se comporte como um messias, um revolucionário dentro daquela Casa. Eles já tiveram todas as visões de vitória, já profetizaram o crescimento político do pastor e já o viram até como Presidente da República.

Negociações internas da Casa

Uma vez que uma administração é empossada, eles criam a sua lista de prioridades – salários, benefícios, cargos para apadrinhados, etc. Essa troca de favores são comuns nessas casas. Algumas dessas atividades são dentro da lei, contudo, muitas acabam amarrando o político de maneira permanente a elementos inescrupulosos.

Seus sonhos e ideais

O político, ao ser convencido de concorrer a um cargo eletivo, passou a sonhar com a sua carreira. Ele retirou do fundo do seu coração os seus desejos de popularidade, de segurança financeira e de aceitação entre os seus colegas pastores. Seu cargo é muito mais que uma atividade política é uma determinação divina para o seu sucesso pessoal.

Povo

Esse é a voz menos ouvida nos corredores das Casas Eletivas. Contudo é o que deveria motivar as atividades dos nossos políticos, independente da sua religião. São os indigentes, os aposentados, os largados nos corredores dos hospitais e os que ficam à mercê dos bandidos nas ruas sem segurança.

Com tantas vozes zunindo nos ouvidos do político, qual delas será ouvida por ele? Onde foi que ele colocou a sua aliança? Certamente, ele não poderá atender a todas as vozes. Elas se excluem, se opõem. Raramente, o político ficará sozinho para definir a quem dar atenção. Os seus assessores estarão conversando com um desses atores e sofrendo uma pressão paralela, talvez, recebendo favores para conseguir dobrar o político em seu favor.

Infelizmente, esse é o cenário político eleitoral vigente no Brasil. Evangélicos ou não, todos os políticos sofrem a mesma pressão. A maioria dos candidatos é ludibriada a participar de uma Eleição que não pode ser vencida. Estão ali somente para fortalecer a soma de votos. Os que conseguem entrar são surpreendidos com uma avalanche de exigências corporativas que muitos tentam desistir já no primeiro mês de mandato

Enfim, vale à pena votar em um candidato evangélico? Vale tanto quanto votar em qualquer outro candidato. Contudo, a regra permanece para todos os candidatos. O eleitor deve conhecer suas habilidades dentro da política e não como comerciante no bairro ou pastor na igreja. Se um evangélico pretende se candidatar contando com o apoio dos fiéis, este deve antes estabelecer as bases da sua conduta como político: Qual é a sua qualificação teórica? Qual é a sua qualificação técnica? Quem ele chamará para ser parte da sua equipe? Qual o partido ele irá escolher para abrigá-lo? Como ele se protegerá dos corruptos de plantão nas Casas? Quem ele aceitará como financiadores da sua campanha? E, acima de tudo, qual será a sua plataforma de governo ou de mandato e como ele se relacionará com o povo - evangélico ou não?

Essa simples cartilha de preparo para um candidato deve ser observada por todos os candidatos e não somente pelos candidatos evangélicos. Mas acima de todos, pelos candidatos evangélicos. Pois eles não são eleitos para defender a Igreja, nem para realizar seus sonhos, ou para favorecer seu partido ou empresas particulares. Eles são eleitos para promover o bem estar social da nação independente da raça, sexo ou religião. Eles serão ótimos políticos se aprenderem como Jesus agiu ao curar os enfermos, ao alimentar as multidões e, principalmente, ao morrer na cruz por nós.

Nas eleições de 2010 o povo evangélico poderá dar um exemplo de compromisso com a justiça divina, elegendo aqueles que entendem o seu papel de políticos com um povo que sofre e retirando da política os corruptos - evangélicos ou não - que roubam os sonhos da nossa nação. Vamos às Campanhas de olhos e ouvidos abertos. Quem sabe, está na hora de promover uma limpeza no nosso Brasil. Esse, sim, pode ser o papel da Igreja.

Robson Pereira é pastor, mestre em Ciência Política pela UnB e Bacharel em Divindade pela Universidade de Gales/Spurgeon's College - R.U.

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