Gravidez de novela

Gravidez de novela

Atualizado: Quinta-feira, 10 Fevereiro de 2011 as 8:37

Na maioria das vezes, as novelas globais pouco traduzem o retrato da realidade. Na trama Ti-ti-ti, porém, uma das personagens possui um componente verossímil. Luisa, interpretada pela atriz Guilhermina Guinle, sofre de gravidez psicológica.

Embora a doença não seja um novo drama da mulher moderna – pelo contrário, é antiga, com registros nos relatos do psicanalista Freud – ela facilmente combina com os dilemas femininos atuais.

O nome é autoexplicativo. A mulher fantasia uma gravidez, sente todos os sintomas típicos da gestação e, em alguns casos mais agudos, tem dificuldade para aceitar que o bebê não passa de imaginação.

Romper com a ficção, para essas pacientes, requer um trabalho conjunto entre ginecologistas e terapeutas. Ao crer-se gestante, o cérebro da mulher faz com que o corpo trabalhe na reprodução da fantasia, explica o psicanalista do Hospital Nove de Julho, Catulo Barros.

O hipotálamo é uma parte do cérebro intimamente ligada à produção hormonal. É ele quem emite neurotransmissores, uma espécie de mensagem, responsável por determinar diversas reações do organismo.

Na gravidez psicológica, explica o especialista, o cérebro, convencido da ilusão, manda mensagens para o corpo, que passa a vivenciar a gestação. A mulher produz leite, o abdômen cresce, ela sente enjôos e desejos repentinos.

Para algumas pacientes, a ultrassonografia é um choque de realidade suficiente. A abordagem do obstetra, porém, deve ser cuidadosa, acolhedora, defende Barros.

“O gatilho do transtorno é quase sempre emocional. Essas mulheres estão angustiadas, deprimidas. É preciso que o profissional passe segurança e indique um acompanhamento psicológico.”

Quando o quadro é mais severo, a paciente tende a achar que o profissional consultado inicialmente está errado, e permanece em busca de outro obstetra. Tais casos exigem tratamento com antidepressivos durante aproximadamente quatro meses, além de acompanhamento do terapeuta.

“Tratar o psicológico é fundamental. Enquanto a mulher está no processo de sair da idealização, ela ainda sofre, tem dificuldades de aceitar que criou a doença. Quando consegue romper com isso, resolver as questões, ela fica tranquila e aceita, humildemente, que os nossos desejos podem alterar o nosso corpo.”

O fenômeno não é exclusivo das mulheres. Os pensamentos podem modificar e induzir diversas reações no organismo. Segundo Barros, em situações limites, até mesmo um homem, para salvar a vida de uma criança recém-nascida, na falta total de recursos, pode produzir leite. As glândulas mamárias masculinas são atrofiadas, mas em casos desesperadores, o cérebro é capaz de estimular e permitir a amamentação.

Extremos

Embora não exista uma relação de causa e efeito direta, dois contextos sociais são favoráveis ao problema. Nos tempos de residência médica, em um hospital público de São Paulo, o obstetra do Hospital Sírio Libanês, João Antônio Dias Junior, atendeu a uma paciente com cólicas fortes, dores e supostamente entrando em trabalho de parto. O exame clínico, porém, demonstrou que ela não estava grávida.

“Em alguns casos o transtorno se dá por falta de conhecimento sobre a importância do pré-natal.”

Hoje, o contexto da mulher moderna - que posterga a gravidez mas sonha em ser mãe ou teme a maternidade - são situações favoráveis ao distúrbio.

Catulo Barros afirma que a gravidez psicológica tende a acometer grandes executivas, que atropelaram o emocional em função da carreira. “Essa cultura milenar da mulher como reprodutora ainda se mantém viva. A identidade feminina pode ficar abalada em determinada fase da vida.”

A incidência para os casos mais severos, entretanto, é baixa. Aproximadamente a mesma que existe nos quadros de depressão e ansiedade: 4% da população feminina pode sofrer tal distúrbio, explica Catulo Barros.

Vale aletar, porém, que sentir-se grávida e apresentar sintomas leves não define o quadro de gravidez psicológica, explica Osmar Ribeiro Colas, obstetra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “O receio de gravidez pode atrasar a menstruação, favorecer os sintomas. Sentir-se grávida é normal, mas a ficção desmorona rapidamente.”

Barros corrobora com a ressalva de Colas. Para o psicanalista, o sintoma é um fenômeno emocional que faz parte da humanidade, mas não compõe o quadro, é apenas uma sensação de curta duração.

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