Medicamentos e apoio da família para controlar a esquizofrenia

Medicamentos e apoio da família para controlar a esquizofrenia

Atualizado: Segunda-feira, 10 Outubro de 2011 as 1:54

Para você, tudo parece real. Mas a confusão começa ao notar que, para as pessoas em volta, tudo não passa de imaginação sua. Essa é a difícil situação que uma pessoa com esquizofrenia precisa enfrentar, mas não sozinha. Uma nova pesquisa, feita pela Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (ABRE), em parceria com o Programa de Esquizofrenia da Unifesp (PROESQ), mostra como o apoio de pessoas próximas, além do tratamento eficiente, pode ajudar a controlar a doença e evitar recaídas. Divulgado próximo ao Dia Mundial da Saúde Mental (10 de outubro), o estudo reforça a importância dos cuidados especiais com doenças que afetam a mente.

Tarefas simples do dia a dia, como conversar e fazer amigos, são extremamente difíceis ao doente com esquizofrenia, que costuma se isolar de outras pessoas e se sentir incapaz e inferior. Para entender melhor esse impacto, os autores do estudo entrevistaram 60 pessoas que cuidavam de um parente (pai ou mãe na maioria dos casos) com a doença há mais de 10 anos. 

Segundo o psiquiatra Rodrigo Bressan, coordenador do PROESQ/Unifesp, as informações mostraram que a prevenção é o melhor caminho para impedir as recaídas. "É preciso medicações cada vez mais eficazes somadas ao tratamento médico", afirma. O estudo conclui que é possível ter uma vida normal sendo portador, desde que o tratamento seja eficaz e iniciado precocemente. Saiba mais sobre esses cuidados.

De olho nos sintomas de recaídas 

É muito difícil identificar tanto a esquizofrenia quanto o início das recaídas, mas, quanto mais cedo ocorrer o diagnóstico, maiores as chances de o tratamento dar certo. "Caso o portador nunca tenha tomado medicamento ou tenha parado há muito tempo, o cérebro se deteriora e o quadro fica resistente aos remédios", conta a psiquiatra Julieta Guevara, da Associação Brasileira de Psiquiatria. 

É por isso que a pessoa que mais convive com o paciente - chamada de cuidador - precisa ficar sempre atenta aos sintomas: olhar enviesado (desconfiado, atravessado), alucinações, comportamento antissocial ou estranho, desconfiança e perseguição, agitação e insônia, delírios, sensações viscerais (sensação de ausência de órgãos ou de explosão do corpo), agressividade, ameaça, tentativa de suicídio e TOC - Transtorno Obsessivo Compulsivo. 

Como evitar essas crises 

O uso de remédios antipsicóticos é fundamental, mas, sozinhos, eles não resolvem a doença e ainda podem gerar uma série de efeitos colaterais, como salivação excessiva, intestino preso e endurecimento muscular. Por isso, Rodrigo Bressan recomenda combinar os medicamentos a terapia e atividades que aumentem o contato do paciente com a realidade. "Aulas de pintura, de desenho e de música são grandes aliadas do controle da esquizofrenia", sugere. 

Os autores da pesquisa também lembram que é importante existir uma colaboração tripla para evitar recaídas: o paciente (com aceitação e colaboração), o cuidador (com amor e dedicação) e o psiquiatra (com competência e perseverança). "Essa interação facilita a prescrição da medicação adequada, que passa por constantes ajustes e pode demorar anos para chegar a um ponto ideal", explica o psiquiatra Rodrigo. 

Tratamento por toda a vida 

Como a esquizofrenia é uma doença mental crônica, o paciente precisará controlar recaídas durante toda a vida. Rodrigo Bressan conta que as crises costumam ocorrer exatamente porque a pessoa abandona o tratamento por acreditar estar curada, já que os sintomas podem desaparecer. "Mas a doença só será mantida sob controle se houver uma adesão total ao tratamento", alerta. 

A psiquiatra Vânia Baggio, do Hospital Bandeirantes, explica que o tratamento é tão importante que pode melhorar até vida social da pessoa. "Em alguns graus de esquizofrenia, com o acompanhamento médico apropriado, o paciente consegue manter uma vida normal, com estudos e emprego", afirma.

O desafio do cuidador 

O trabalho do cuidador é muito importante - e complicado. Como o paciente tende a se isolar e ter reações diversas, ele precisa de uma pessoa que o acompanhe constantemente, dando apoio e ficando atenta a possíveis sintomas de recaídas. "Também é essencial estimular o contato da paciente com a família, para que ele se sinta parte daquele núcleo e interaja", afirma a psiquiatra Vânia Baggio. 

Essa tarefa está longe de ser fácil e o preconceito e a falta de informação podem atrapalhar. Um estudo da revista médica The Lancet mostrou que a discriminação prejudica cerca de 43% dos indivíduos vítimas de esquizofrenia. E o pior: são os parentes e os amigos que encabeçam as atitudes agressivas. A pesquisa envolveu pacientes de 27 países e também revelou que a rejeição atrapalha até o desenvolvimento profissional deles, que acabam desistindo de procurar emprego com medo do preconceito na seleção. 

É por isso que família e amigos precisam se informar sobre a doença para conseguir compreender o comportamento do paciente. A pesquisa da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (ABRE) mostrou que, durante uma recaída, as melhores atitudes que o cuidador pode ter, além de dar medicação, são: ouvir o paciente durante horas, falar muito pouco, não argumentar em contrário, não retrucar e não desqualificar as percepções do paciente. É necessário também propor atividades relaxantes e ocupacionais, capazes de acalmá-lo. 

A dedicação do cuidador chega a ser tão integral que pode comprometer a sua vida pessoal, social e profissional. "Ele é convocado a viver em função do paciente, tanto que muitos se aposentam", afirma José Alberto Orsi, diretor adjunto da ABRE. Os especialistas aconselham procurar a ajuda de grupos de apoio e terapia profissional. "A terapia, tanto para o paciente quanto para a família, é fundamental como ferramenta que estimula a inserção social, uma das maiores dificuldades de uma pessoa que, de um modo simples, corta a ligação com a realidade externa", diz a psiquiatra Vânia. 

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