Nervosismo e sensação de paralisia são sintomas da fobia de médico

Nervosismo e sensação de paralisia são sintomas da fobia de médico

Atualizado: Segunda-feira, 10 Janeiro de 2011 as 8:43

A paulista Vera Rodrigues-Rath, 56, diz se sentir transtornada quando vai a uma consulta médica.

A ansiedade aumenta na noite anterior. Ela tem que tomar remédios para conseguir dormir. Depois, passa por um "suplício inenarrável" na sala de espera.

A pensionista, que mora em Donauwörth, na Alemanha, há dez anos, conta que sua pressão caiu em uma das últimas visitas à ginecologista e que chora no dentista.

Vera até se recusou a fazer uma cirurgia recomendada pela médica. "Eu disse que assumia qualquer risco, mas não me sujeitava à operação. E não fiz. Sofro, mas me sinto melhor longe dos médicos."

Esse tipo de fobia não é comum, segundo Mariangela Gentil Savoia, psicóloga do ambulatório de ansiedade do HC de São Paulo.

"É normal ficar ansioso ou nervoso, mas não a um ponto que impeça a pessoa de ir ao médico. Aí vira transtorno."

Vera conta que o medo começou quando era criança. Ela já foi submetida a oito cirurgias --a primeira foi para corrigir o lábio leporino.

O professor universitário Anselmo Alencar Colares, 63, também desenvolveu seu medo de médicos cedo.

"Meu primo, quando era criança, tomou uma injeção que afetou um nervo. Associei o problema ao médico."

Ele diz que sempre pensa na possibilidade do erro.

"A gente tem que se entregar quando está numa emergência, mas dá medo colocar a sua vida nas mãos de outra pessoa, especialmente quando você não sabe se o médico é bem preparado."

A perda do único filho, morto em 2010 aos 13 anos, de leucemia, contribuiu para que o medo relacionado à área de saúde aumentasse.

Segundo Vladimir Bernik, coordenador de psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, um dos motivos que leva alguém a evitar o consultório é o temor de descobrir uma doença grave.

É por isso que muitos só procuram um médico quando os sintomas já apareceram. Bernik afirma que a "fuga" do consultório pode levar a diagnósticos tardios, reduzindo as chances de cura.

Já no caso do medo de dentista, o receio está ligado aos procedimentos de antigamente, de acordo com Rodrigo Bueno de Moraes, cirurgião dentista, da Associação Brasileira de Odontologia.

Tanto que a odontofobia é mais comum entre os adultos de meia-idade.

Hoje há mais recursos para os que chegam tensos ao consultório, como sedação e até cadeiras massageadoras.

Alguns profissionais usam musicoterapia, hipnose e analgesia inalatória, com óxido nitroso e oxigênio, para tranquilizar.

A técnica laboratorial Valéria Ranieri, 49, conta que sente medo de dentista desde que se conhece por gente.

Como só marcava uma consulta em último caso, teve que arrancar dentes e fazer 16 canais.

Quando ficou grávida, desenvolveu o medo de médico. "Era um medo que me congelava. Não ia ao médico nem me cuidava."

Terapia e treinos de relaxamento podem ajudar quem tem a fobia, segundo a psicóloga Mariangela Savoia.

"Se for medo da doença, podemos trabalhar estratégias de enfrentamento."

Ironicamente, Valéria conseguiu um emprego num hospital. A coincidência a ajudou a vencer seu medo.

"No começo, ficava apavorada, mas foi terapêutico."

ESPANTA PACIENTE

Algumas especialidades geram mais tensão. O proctologista Gilberto Saute admite que a sua é uma das temidas.

"A região anal sempre foi um tabu. As pessoas deixam o problema avançar com medo do exame."

Foi para desmistificar o assunto que lançou o livro "Quem (Não) Tem Medo do Proctologista?", com informações sobre testes e diagnósticos, para que as pessoas não fujam do consultório.

Para Paulo Rodrigues, urologista do Hospital 9 de Julho, o medo do câncer também provoca esse temor. "Há familiares que me ligam antes da consulta e pedem para eu não usar a palavra câncer com o paciente."

veja também